Paracelso e a Doutrina das Assinaturas

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Por Odair Deters

E se a natureza, com sua sabedoria superior, deixassem assinaturas para que os homens pudessem ler e tirar proveito dos itens “assinados”?

Você já notou que alguns alimentos possuem um formato parecido com certos órgãos do corpo humano, como a noz e o cérebro, por exemplo? Existe uma sabedoria por trás dessa lógica, que pode nos ajudar a simplificar o jeito de comer mais saudável. Encontram-se registros dessa “coincidência” na medicina tradicional chinesa e em alguns outros povos antigos, mas quem mais deu destaque a ela foi o insigne Paracelso.

Paracelso, ou Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim [1493-1541], foi um médico e alquimista, para muitos ele ostenta o título de “pai da medicina moderna”, apesar de muito controverso. Ele disseminou a sua “Teoria dos Sinais”, “Doutrina das Assinaturas” ou ainda “As Assinaturas do Criador”.

Ele iniciou seu aprendizado, ajudando o pai, um alquimista. Quando completou 14 anos saiu em busca de conhecimento nas universidades europeias. Mesmo não sendo incomum, a inusitada juventude com que o fez, demonstra seu intelecto prodigioso, além de seu temperamento difícil, se julgado sobre os enfrentamentos que teve naquela época. Assim, estudou em Alquimia em Württenberg, Medicina em Paris, e aos 20 anos, já estava atuando na Itália, pregando suas ideias pouco ortodoxas e rejeitando o conhecimento acadêmico.

Com suas teorias, ele acaba sendo identificado como o “criador” da “Iatroquímica”. Ele pregava que a alquimia não poderia ficar fadada a tentativas frustradas de produzir ouro, ao contrário, deveria ter suas técnicas postas a serviço da medicina, produzindo remédios específicos, para doenças específicas. Assim a prática médica seria uma ciência e não mais uma “arte vagamente duvidosa que parecia até então”. Com isso as práticas médicas passariam a ser descritas de forma sistematizadas e padronizadas, para que pudessem ser lidas por qualquer um que assim quisesse, e de agora em diante os remédios seriam preparados segundo uma lógica científica, não através de superstições. Propôs também que os minerais deveriam ser investigados de maneira abrangente, para que fossem descobertas suas propriedades, e esses estudos desenvolvidos por ele, nos deram compostos utilizados até hoje pela farmácia moderna.

Paracelso acreditava que o corpo nada mais era que um grande laboratório de química e que a vida era uma cadeia de processos químicos. Dessa forma, ele via que as doenças eram desequilíbrios nesses processos e que o tratamento consistia na administração de doses de substâncias que reequilibrassem esses processos. Com isso ele formulou outra teoria, ou a Doutrina dos Sinais.

Em sua teoria, ele, que dizia que Deus formulava a cura de uma doença indicando um sinal comparativo. Para ele, era dever do médico procurar compreender a linguagem da natureza, que indicava de forma simples como produzir remédios particulares.

Assim, ele dava exemplos, de que a flor de verônica, que tinha o formato de um olho, funcionava no combate de tratamento de doenças oculares; uma orquídea se assemelhava a um testículo, o que significava que era um remédio para doenças venéreas; as folhas do lilás tinham forma de coração, portanto eram boas para doenças cardíacas; a quelidônia “de sangue amarelo” era o remédio para a icterícia, e assim por diante.

No entanto, como é sempre melhor remediar do que curar o desenvolvimento deste texto, teve como objetivo, trazer a doutrina de Paracelso para a alimentação pessoal, utilizando para isso exemplos de frutas. Portanto, poderíamos ter:

A cenoura que cortada se assemelha a pupila do olho [sabedoria de mãe, quando pequeno minha mãe já dizia que cenoura era boa para os olhos], assim como o mirtilo que tem o formato da íris, e que corrige problemas de visão noturna, ou ainda os frutos da beladona que dilatam as pupilas.

O tomate, com suas quatro câmaras, que tem assim como a maça perfeita semelhança com o coração, sendo importante para o coração e para a corrente sanguínea; as uvas que crescem em formato de coração [cacho] e cada grão, assemelhassem a uma célula sanguínea, tornando-se revitalizante para o coração e o sangue.

Os feijões, com seu exato formato dos rins humanos e já comprovada ação de manter a função renal, também a plantinha quebra-pedra, comum nascer entre pedras, e que tem suas folhas no formato dos rins, e que elimina pedras localizadas nos rins e bexiga.

Berinjelas, abacates e peras, que parecem o ventre ou cervix feminino, comprovam estudos recentes de que se uma mulher comer um abacate por semana equilibra seus hormônios e não acumula excesso de gordura durante a gravidez.

O aipo, ruibarbo e acelga, com características semelhantes aos ossos, além, de serem compostos por 23% de sódio, exatamente o mesmo percentual encontrado nos ossos.

Os figos, sua composição interna, cheia de sementes, semelhantes aos espermatozoides.

Plantas como a pulmonária ou a pulmão-dos-carvalhos, assemelham-se com os pulmões, e suas infusões acalmam a tosse e a asma.

A Batata-doce, muito semelhante ao nosso pâncreas, e comprovada na regulação do índice glicêmico no caso de diabéticos.

As clássicas azeitonas, em formato muito semelhante ao dos ovários.

As laranjas, toranjas, limões-sicilianos e outros citrinos, assemelham-se as glândulas mamárias nas mulheres.

A cebola, muito semelhante às células do corpo, e alvo de estudos que dizem elas serem responsáveis pela limpeza das células, exemplo maior a produção de lágrimas que lavam as camadas epitéticas dos olhos.

O gengibre, que em muitos casos, parece-se com o nosso estômago, e é consumido pelos chineses a mais de 2000 anos para acalmar o estômago e curar náuseas.

A banana, muito semelhante a um bonito sorriso, ela contém triptofano que convertido na digestão, torna-se um neurotransmissor chamado serotonina, responsável por regular o humor.

Os cogumelos que fatiados assemelham-se aos ouvidos.

O brócolis, que ao ser observado, suas pequenas pontas verdes parecem-se com as pequenas células sadias preparadas para combater células cancerosas.

O kiwi e seu formato de saco escrotal, indicado para problemas testiculares e de impotência sexual.

E as nozes, que motivaram todos os meus estudos neste sentido, não por apenas serem o fruto que considero mais saboroso, mas por terem o formato perfeito do cérebro humano, com seus hemisférios esquerdo e direito e até suas rugas são semelhantes ao neocórtex.

A partir desse momento de formulação de suas principais teorias, Theophrastus assume o nome Paracelso, que faz alusão a Celso, médico romano do Séc. I, significando “maior que Celso”. Na sua ruptura com a medicina clássica. Embora Paracelso tenha feito um grande trabalho para a Química, muitos que desconhecem as realizações e objetivos dos alquimistas, o condenam pelo fato de ao longo de sua vida, ter procurado a pedra filosofal, e o elixir da vida. Contudo, ele foi pioneiro em manter uma atitude científica, deixando tesouros e trunfos de conhecimento. Que tal observarmos a sua teoria das assinaturas?

O cachorro é o nosso filho, o frango o nosso almoço e o boi o nosso sapato.

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Por Odair Deters

Certa vez minha irmã, quando pequena, decidiu comprar um pintinho, pagou centavos pelo bichinho amarelinho em um agropecuária. Passados alguns dias ele começou a criar penas e a devorar a horta da minha mãe, ocasiões, que lhe garantiram o nome de Radicci [alimento que ele adorava]… E o pintinho virou um baita frangão branco, tão ou mais esperto que um cachorro, atendia chamados, obedecia [ás vezes], nos seguida e virou um xodó. Até o cruel momento em que seu tamanho e o incomodo que causava, fazia com que o imaginássemos misturado com arroz em uma panela. Mas foi cruel ter que acabar com o Frango Radicci, ele já era da família.

Isto me remete a indaga-los: Como comemos uma codorna e não um papagaio? Como fazemos carinho num gato e não num gambá? Mais do que isso, como um laboratório é invadido e destruído para salvar um punhado de cães beagles e um frigorífico ou aviário segue aí com métodos cruéis, enchendo nossas barrigas gordas.

Em nenhum momento quero fazer aqui uma defesa vegana, pois não abro mão do meu churrasco. Mas o ponto é outro. O de que a grande maioria das pessoas morre de amores por um cachorro, mesmo que vira-lata, por um gatinho, por um casal de periquitos. Os classificamos como animais de estimação. Enriquecemos pet shops e veterinários, pois como não tratar bem um membro da nossa família. Mas e porque não os transformamos em nossa próxima janta?

Acredito que em todos os 27 Estados brasileiros, até mesmo em um desabitado Acre, devam existir leis que proíbam qualquer crueldade com animais. Exemplo maior: Os circos, local onde conheci e acariciei um urso polar quando pequeno, ou vi um elefante expirar em algumas pessoas [foi fantástico], também não podem mais usar animais em seus espetáculos.

Agora isto não tem valor, se nos garante carne, leite, ovos ou couro. Aí, podemos sem restrição alguma submeter estes animais a tratamentos que se fossem aplicados a um gato ou cachorro nos levaria a prisão e a humilhação pública.

Temos um bem instituído sistema de fazendas-fábricas que para baratear o custo da alimentação, não tem nenhuma restrição legal em aplicar maus tratos aos animais. E claro, como a indústria sabe que gostamos de animais, o que eles precisam é esconder ao máximo do público como estes animais são tratados. Onde uma galinha de tão confinada, passa a vida inteira sem poder se quer levantar uma asa, ou que perus criam um baita peitoral devido ao confinamento em gaiolas com estatura inferior a eles, e que ambos tem os bicos derretidos em chapas quentes, para não se auto mutilarem em revolta a miserável vida que levam. Nem correrem o risco de se alimentarem umas das outras, pelo incentivo da alimentação animal que lhes é fornecida. Muito comum moerem ossos de bois, para misturar na ração de outros bois em engorda. Tudo pelo objetivo de nos garantir uma refeição mais barata.

Imagens de uma vaca malhada em um pasto verde, ou uma galinha ciscando a terra, simplesmente não podem ser associadas, se nossos produtos foram adquiridos em um supermercado.

Agora, vamos à questão mais intrigante. Imaginem por um momento, que lhes convido para um delicioso jantar. Está entusiasmado? O cardápio, um delicioso arroz com pedaços suculentos de salsicha de labrador e umas patinhas de pug a passarinha. Porque fizeste esta cara de repugnância? Tudo envolve a percepção. No caso deste cardápio, ofereci um estímulo (as carnes de labrador e pug), logo, seu cérebro fez a ligação através das suas percepções e crenças de que isto não era um animal comestível, em seguida lhe veio um pensamento de um cachorro vivo e bonito, o que por consequência, lhe causou esta feição de repugnância através de seus sentimentos, que traria por fim, a sua ação de recusa e relutância em comer. Diferentemente aconteceria na China ou na Coréia, certamente. Onde um cachorrinho vira um prato especial, ou em regiões do Peru, onde um gato pode tornar-se uma iguaria. E bobos são os indianos que não transformam suas vacas em gordas picanhas sobre as brasas de um domingo.

E todas as nossas escolhas estão intrinsicamente ligadas à economia, e por meio das informações que recebemos e que formam a nossa percepção. Posso fazer um joguinho que funcionará com a maioria dos leitores. Se eu lhes pedir para pensar na palavra “enfermagem”, com toda certeza vem em sua mente uma mulher vestida de branco trabalhando em um hospital, mesmo, quando muitos dos profissionais de enfermagem sejam homens e ainda que trabalhem fora de um hospital. Tudo são esquemas. Posso também pedir que pensem em um martelo de alguma cor em específica. Pensaram? Certamente a grande maioria imaginou um martelo da cor vermelha. Isso decorre de generalizações, que nos induzem a certos esquemas. Os esquemas são sistemas de classificações mentais. Assim aprendemos a classificar um animal como presa, predador, praga, bicho de estimação ou comida. E assim caçamos, fugimos, exterminamos, amamos ou comemos [Com uma ou outra sobreposição, em alguns casos].

E nossas percepções são formadas diante de manipulações que sofremos e que direcionam e condicionam nossas reações, criando certa eficiência de mercado. Assim cachorros dão mais dinheiro como animais de estimação do que se resolvêssemos cria-los para o abate e produções de bifes assim como os bois servem mais para churrascos e porcos para bacon.

Afinal comer um punhado de ovas de peixe, é algo pavoroso, até termos conhecimento de que isto é chique e glamoroso e se chama caviar.

 

 

 

 

O Universo da Gelatina

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Por Odair Deters

20/06/2012

Nossas vidas, ás vezes ridículas, são carregadas de pequenos rituais, e novos desses, rituais, tendem a se agregar ao conjunto anterior conforme os anos de existência se acumulam. Eu pessoalmente sou cheio destes rituais e cada vez incluo novos, que coisa mais abismal. Ao ritual matinal de preparação do café, o ritual do chá após o almoço, neste item cito que já tomei tanto chá, que atualmente o único que não enjoei foi o de anis.

Vejo minhas colegas com seu ritual da gelatina, e sempre que posso lembro elas de como é o processo para extração da linda sobremesa que elas desfrutam e lá se vai um copinho de suco de gelatina.

Sempre mantive uma relação dúbia com a gelatina, na verdade eu nem deveria chamar de dúbia, tendo em vista que evito seu consumo, inicialmente por ela ser feita de restos de pele suína. No entanto em recente consulta com um médico metabolista, veio a meu conhecimento o colágeno, traz toda uma imagem de melhoria da pele, com promessas de cicatrização mais eficiente e maior elasticidade e ajudaria os tendões, tendo em vista que costumo jogar rugby e as lesões são corriqueiras neste esporte. O processo de extração do colágeno, vocês devem saber, envolve banhos violentos de couro bovino em agentes corrosivos poderosos, mas tenho gostado do tal produto.

Vejo que a gelatina é totalmente avessa à cartilha da geração saúde: os corantes e os sabores. Eles não poderiam simplificar. No caso da gelatina, bastava o fabricante colocar na caixinha, ou no envelope, uma indicação da cor do produto. Seriam evitados, assim, malabarismos conceituais como o do fabricante que inventou um sabor framboesa para botar uma gelatina azul no mercado. Ou seria amora? Diabos, que diferença isso faz? Não adianta a indústria, pode estar cega, mas nós consumidores do final da ponta mais ainda, e insistimos em comer “Sabores de Frutas”.

Ah, essas nossas técnicas populares para sobrevivência no subúrbio moderno.

Estes dias achei que minhas colegas iriam tomar um suco, destes artificiais, sabe um punhado de corante com sabor de alguma “fruta”…mas pra minha surpresa era aquilo fruto de uma interessante migração, das embalagens de gelatina de papel, com pacote interno, para o prosaico pacotinho. Alguma coisa, enfim, evolui no sentido de gastar menos material e energia do planeta. O sabor “fruta” continua.

Existe um universo gelatinoso, concorrente à gelatina, devo confessar que deste universo, nunca me agradou a maria-mole, exceto em momentos de desespero, ou quando era criança e com os poucos níqueis que tinha consegui comprar apenas isto no bolicho, ou quem sabe tenha consumido alguma por ocasião da deficiência de açúcar em locais ermos de contraponto ao consumo excessivo de cerveja. Outro habitante deste universo que praticamente consegui descartar é o da nostálgica goma americana. Refiro-me às gomas que vêm embaladas naqueles cilindros plásticos com alguns escritos externos, e não às clássicas jujubas, que por amor de deus são outra das espécies deste universo.

A goma americana tem um aspecto lúdico além dos pólos conceituais opositores e curiosos da prima gelatina: o pacote de goma americana deve ser analisado antes de ser comprado, ou arrisca-se a ter muitas gomas de uma cor que não lhe agrada, isso é horrível, daí tu fica repartindo com os colegas, pra poder gastar e conseguir comer assim, aquela verde que tinha no fundo. Novamente observa-se a importância da cor, e seu caráter absoluto na representação da guloseima: tenho minhas predileções bem claras no caso do primeiro lugar, e ela sempre será a verde; certas certezas são inequívocas. Em segundo lugar, provavelmente as roxas, mas as traio constantemente com as vermelhas. Brancas e laranjas não ficam longe das amarelas, e eu ainda gostaria de estar vivo quando inventassem gomas azuis. Nem precisam inventar a desculpa do sabor, basta à tinta azul, podiam dizer que era sabor mirtilo, eu ia adorar ainda mais.
Ts, ts, ts…

Postado originalmente em: http://receitasdooda.wordpress.com/2012/06/20/o-universo-da-gelatina/