All Star e outros vírus

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Por Odair Deters

Querendo dar uma disfarçada nas 3 décadas que tenho, fui atrás de um tênis, modelo All Star branco. Aquele tênis branquinho, estilo vintage, e que havia perdido o seu status entre as décadas de 80 e 90.

A história deste tênis é antiga, quase 100 anos, começou a servir aos estadunidenses que jogavam basquete, e o primeiro salto ocorreu quando um jogador famoso [Chuck Taylor] os calçou naquele modelo cano longos. Após um esfriamento nas décadas de 60 e 70, as bandas de punk rock o colocaram novamente nas vitrines. Um novo descenso apresentou-se, até que, principalmente os fãs da banda Nirvana [e de Kurt Cobain] o puxaram novamente para a evidência, até ele vir a parar agora nos pés dos trintões, quarentões, cinquentões [recordo aqui do meu amigo e ex-chefe que o usa].

Mas como um produto pode reaparecer e virar moda, novamente? Para explicar melhor este fato, vou usar um exemplo que ocorreu com outro calçado, os Hush Puppies, um clássico sapato americano de couro nobuck, com solado de borracha levíssimo.

De clássico, estes sapatos, sumiram, por volta de 1994 e 1995, eram vendidos cerca de 30 mil pares por ano, a maioria para o comércio de ponta de estoque do interior do país e lojinhas administradas por famílias de cidades pequenas.

A Wolverine, que fabrica os Hush Puppies, estava pensando em interromper a produção com a qual ficara famosa. Mas algo estranho aconteceu. Durante uma sessão de fotos de moda, dois executivos da empresa encontraram-se por acaso com um estilista de Nova York que lhes disse que os clássicos Hush Puppies eram a última moda nos clubes noturnos e bares do centro de Manhattan. Ademais, eles ficaram sabendo que os brechós e lojinhas pequenas que possuíam o mesmo, ao serem encontrados, tinham seus estoques liquidados. Para os próprios executivos da empresa, não fazia sentido, que sapatos tão fora de moda tivessem essa procura.

Em 1995, as coisas começaram a acontecer mais rápido. Designers de moda começaram a telefonar, queriam os Hush Puppies em suas coleções e desfiles. Em Los Angeles, foi criado por um designer, uma butique de artigos com a marca Hush Puppies. E enquanto ainda estavam pintando e montando as prateleiras um ator hollwodiano [Pee-wee Herman] entrou e pediu dois pares. Tudo fruto de propaganda boca a boca.

Só em 1995, a empresa vendeu 430 mil pares do modelo clássico e, no ano seguinte, quatro vezes mais, até os sapatos voltarem a ser uma peça básica no guarda-roupa dos jovens americanos. Em 1996, a empresa estava recebendo o prêmio de melhor acessório – uma conquista com a qual, a empresa quase nada tinha a ver, pois planejava até extinguir a produção. Os Hush Puppies haviam emplacado de repente, e tudo começara com alguns garotos no East Village e no Soho.

Estes guris não tinham intenção de promover os Hush Puppies. Usavam os sapatos exatamente porque ninguém usava. Acontece que a novidade agradou a dois designers de moda que os calçaram para promover outra coisa – a alta-costura. Os sapatos foram um toque acidental. Ninguém estava tentando fazer estilo com eles. Mas, de alguma forma, foi o que ocorreu. Eles alcançaram determinado ponto de popularidade e emplacaram. Assim um par de sapatos de US$30 saiu dos pés de um grupo de jovens irreverentes e de designers de moda do centro de Manhattan para todos os shoppings dos Estados Unidos em dois anos.

O fato dos Hush Puppies, ou do All Star, encontram uma semelhança, e que pode ser encontra em diversos outros seguimentos, seja de tendências da moda, fluxo e refluxo de ondas de crimes, a transformação de livros desconhecidos em best-sellers, o aumento do consumo de cigarros por adolescentes, o surgimento de gírias [memes – como: “menos a Luiza, que está no Canadá]. Todos se disseminam como epidemias, são como um vírus de gripe ou outra enfermidade, que surge e se alastra, envolvendo ideias, produtos, mensagens e comportamentos, envolvidos pela força da propaganda boca a boca. Por quantas epidemias deste tipo você não se encontra contaminado agora? Eu estou neste momento usando um All star e ainda acabei de me contaminar com um bocejo emitido por um amigo. E por falar em calçados, que acham da Conga e do Kichute?

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Um estudo econômico sobre os botões da professora Lorac

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(Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência)

Odair Deters

14/01/2013

As aulas da professora Lorac sempre foram boas, tiveram descontração e aprendizado, porém na cadeira de economia ambiental, a bela colega Nathalie, que quase sempre sentava ao meu lado, sempre olhava para a professora e me comentava: “Hoje ela está com roupa de menina”, ou, “hoje ela está com roupa de menino”, isso dava-se pela característica peculiar das camisas usadas por nossa professora, quando o tom pendia para o azul ou outra cor escura, ela classificava como camisa de menino, quando os traços eram mais delicados ou em cores claras, recebiam a identificação de roupa de menina.

Porém como ainda éramos aspirantes a economistas, não conseguíamos deduzir algumas questões econômicas de forma tão assertiva, e era tão simples identificar se a roupa era de menino ou de menina, pois as roupas femininas são abotoadas a partir da esquerda, enquanto as roupas masculinas o são pelo lado direito.

E a que se deve isso? Aí começa nossa análise econômica: O padrão de roupas femininas é exatamente o oposto do masculino. Isto não seria um problema se este padrão fosse completamente arbitrário, no entanto o padrão masculino parece mais adequado também para as mulheres – Isso se deve ao fato de que 90% da população mundial seja destra, indiferente de ser homem ou mulher – e é um bocado mais fácil para se abotoar uma camisa pelo lado direito.

Como é bom mergulhar nas páginas da história e desvendar este mistério, e chegamos ao século XVII aproximadamente, que foi quando apareceram os botões, considerados um artigo de luxo na época. Naquele período os homens costumavam se vestir sozinhos e as mulheres eram vestidas por criadas. Abotoar as roupas femininas no lado esquerdo facilitava o trabalho das criadas que assim como a maioria da população, eram destras. Já para os homens abotoar as camisas do lado direito fazia todo o sentido, pois a maioria se vestia sozinho e também eliminava substancialmente o risco de no momento em que precisasse sacar uma espada (naquela época se portava com maior frequência espadas) que era carregada no quadril esquerdo e empunhada com a mão direita de ficar presa na camisa. [imagine a cena]

Acontece que atualmente são poucas, muito poucas as mulheres vestidas por uma criada, então por que cargas as roupas femininas continuam com a abotoadura do lado esquerdo? As normas quando estabelecidas, muitas vezes tornam-se resistentes às mudanças, sendo que as mulheres estão acostumadas a terem a abotoadura pelo lado esquerdo, um fabricante que resolvesse mudar o modelo, correria sério risco, as moças de hoje estão acostumadas ao padrão, e novos hábitos e habilidades teriam que ser desenvolvidas para essa mudança. Sobrepondo quem sabe essa dificuldade prática, algumas mulheres também poderiam considerar socialmente incômodas aparecer em público com uma blusinha abotoada à direita, pois poderia dar a entender que estavam usando uma camisa masculina.

Ou seja, a economia explica fatos tão intrigantes como estes, e diz ao fabricante do vestuário, não arrisque.

Contei a história das camisas de menino e de menina da profe Lorac, a uma amiga que passou a ter recentes aulas com essa adorável professora, e eis que ela não se contém e volta e meia no final da tarde, horário em que está por começar a aula dela, eu recebo uma mensagem dizendo ora que a “Lorac está vestida de menino”, ora que ela “está vestida de menina”.

Porém quem de vocês já cuidou os botões da camisa da professora?