Uma fantasia chamada Senado

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Por Odair Deters

Muito possivelmente já estudaste ou ouviste falar que o Senado Federal é a câmara alta do Congresso Nacional do Brasil e, ao lado da Câmara dos Deputados, faz parte do poder legislativo da União. Sua criação remonta a Constituição Imperial brasileira de 1824. Tendo sido inspirado na Câmara dos Lordes do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, mas com a Proclamação da República do Brasil foi adotado um modelo semelhante ao do Senado dos Estados Unidos. O mesmo constitui-se como uma das câmaras dos parlamentos. Seus membros – os senadores – representam os estados-membros de uma federação e são eleitos diretamente, no Brasil.

Atualmente o Senado conta com 3.516 funcionários terceirizados, pertencentes a 34 empresas cujos contratos custam anualmente R$ 155 milhões de reais e aproximadamente 2.500 servidores de carreira, a um custo anual de 1,4 bilhão de reais. Além dos 81 senadores com mandato de 8 anos (3 por Estado da nação) e todos os cargos de assessoria e confiança que estes demandam.

E se eu te disser que isto não passa de uma grande e louca fantasia?

Para entender a origem do nosso senado, precisamos entender a luta pela independência dos Estados Unidos. Sim, dos EUA, onde as 13 colônias americanas lutaram contra o Império Britânico. Conseguida a Independência, estas 13 colônias se tornaram países, livres e soberanos na ordem internacional. Para representá-los no plano internacional foi criada uma Confederação. A confederação representa os países a ela agregados, mas não lhes retira nenhum atributo da soberania. Sendo que, inclusive, podem deixar esta confederação quando bem lhes aprouver. Portanto, tínhamos a Confederação dos Estados Unidos da América do Norte.

“Estados”, porque desde Maquiavel na sua obra “O Príncipe”, ele passa a denominar por Estado, um país livre e soberano, integrante da Comunidade Internacional. Portanto, as colônias americanas libertas do colonialismo inglês, tornaram-se Estados.

Logo após a declaração de independência dos Estados Unidos em 1776, os principais oficiais das treze antigas colônias britânicas, — agora, Estados dos Estados Unidos — passaram a planejar a instalação de um sistema de governo central, que seria válido para todo o novo país. Até então, cada um dos novos Estados possuía sua própria Constituição, mas não existia uma Constituição que valesse para todos os treze Estados. Em 1781, ainda durante a Revolução Americana, um sistema de governo federal rudimentar foi instalado nos treze Estados, sob as leis e medidas dos Artigos da Confederação.

Os problemas logo iriam surgir em função deste sistema. A Revolução Americana de 1776 havia criado um sério problema para os Estados Unidos: a criação de uma gigantesca dívida por parte do governo americano, construída com empréstimos tomados para a Guerra, através de financiamentos realizados pela casa Rotschild. Porém, o pagamento desta dívida era impossível, uma vez que o governo americano não tinha o poder de coletar impostos no país. O governo americano sofria muito com a falta de fundos, até mesmo para manter um sistema de defesa nacional. E assim, durante os primeiros anos como um país independente, os Estados Unidos enfrentavam uma séria recessão econômica.

Em 1786, a Virgínia persuadiu cinco Estados a enviarem representantes a uma convenção constitucional em Annapolis [Maryland], para discutir temas como o comércio interestadual. Os representantes dos cinco Estados mais a Virgínia decidiram em conjunto que as políticas dos Artigos da Confederação precisavam ser mudadas. Assim sendo, estes seis Estados pressionaram os sete restantes a enviarem representantes a uma nova convenção constitucional, que seria realizada na Filadélfia. Esta convenção constitucional ocorreu durante o verão de 1787. Todos os Estados enviaram representantes com exceção de Rhode Island, que era contra qualquer tipo de intervenção extra estadual dentro de seus limites territoriais. A Convenção Constitucional de 1787 foi presidida por George Washington, por decisão dos oficiais e representantes presentes na Convenção.

O modesto objetivo inicial desta convenção constitucional era a sugestão e mudanças aos Artigos da Confederação. Porém, rapidamente [e secretamente], todos os oficiais presentes nesta convenção começaram a trabalhar em uma nova Constituição, logo após o primeiro encontro. A Constituição proposta pela convenção pedia por um sistema federal de governo. Este governo trabalharia de forma independente e seria superior em relação aos Estados. Este governo teria a capacidade de cobrar impostos, e seria equipado com os três ramos de poder: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Portanto, sabemos que o nome ”Estado”, inscrito nos Estados Unidos, tem a significação de um país. E esta é a razão porque o Estado americano tem mais poder que a sua cópia no Brasil [basicamente províncias].

Não havia nenhuma razão plausível para que se fizesse a proclamação da república no Brasil. Não havia crise, corrupção [conhecida] e coisas do gênero. Havia o interesse de alguns de copiar o modelo americano para ter a oportunidade de sentar na cadeira do chefe. A proclamação da república no Brasil foi feita apenas para copiar os Estados Unidos. É a clássica falta de originalidade que marca a figura do subdesenvolvido.

Como fizeram essa mágica?

Num regime monárquico a soberania está no rei ou imperador, daí vem o nome “soberano”. A república [res publica] cujo nome remonta  também  a Maquiavel era a classificação que os romanos davam ao modelo de governo em Roma. Roma tinha o status rei publica, ou seja: Roma tinha a condição de coisa pública. Maquiavel pega a palavra status [condição, forma], e designa um Estado Soberano. E res publica [coisa pública], vira uma forma de governo em contraposição à monarquia. Ora, sendo a república uma forma de governo em contraposição à monarquia e a etimologia do nome nos envia ao povo [res publica], a soberania nesta forma de governo está no povo. Por esta razão, o artigo mais importante da constituição é aquele que designa o detentor do poder, em nosso caso, a  Constituição de 1988 estabelece em seu Art. 1º, Parágrafo Único: “Todo o poder emana do povo, que exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição”.

Esta é a razão do nome “Estado” na composição do nome dos Estados Unidos. No caso brasileiro, o império não tinha e nunca teve nenhum Estado, como nenhuma monarquia os tem, quem sabe unicamente a República Rio-Grandense e a República Juliana [Santa Catariana] que lograram separar-se já do Império e posteriormente uniram-se ao Brasil por acordos. Seria um contrassenso a sua existência numa monarquia, porque o Estado do modelo americano fraciona o poder, por isso  surge a figura do chamado “Pacto Fundamental” que também copiamos sem nunca ter tido pacto algum.  A primeira constituição republicana brasileira, a de 1891, plasmou no seu artigo 1º – “A Nação brasileira adota como forma de Governo, sob o regime representativo, a República Federativa, proclamada a 15 de novembro de 1889, e constitui-se, por união perpétua e indissolúvel das suas antigas Províncias, em Estados Unidos do Brasil.”

“Art. 2º – Cada uma das antigas Províncias formará um Estado…”

Com isso, as antigas províncias foram promovidas a Estados [países] e no mesmo instante tiveram as suas soberanias cassadas para converter em Estado componente de uma federação.

O Senado Brasileiro, remontemos um pouco mais para melhor compreender. Na Inglaterra, todo gasto que a coroa tinha que fazer era bancado pelos nobres, através dos impostos. O nascimento de um príncipe, o casamento da princesa, a coroação do rei , entre outros. Os nobres estavam fartos de tanto imposto e, aproveitando um momento em que o rei estava fragilizado, julgaram oportuno alterar este sistema.  O rei era o João-Sem-Terra e a transformação se deu quando os barões impuseram ao rei a assinatura da Carta Magna, onde surgiu a figura do orçamento público. No começo do ano, o rei faria a previsão das suas despesas e estas classificadas num projeto de todos conhecido. Assim surgia o orçamento público. Mas, para garantir que o rei iria cumprir o que fora tratado, deixaram em Londres alguns representantes que, caso houvesse alguma ruptura por parte do rei, dariam conhecimento aos demais barões integrantes da nobreza.  Estes representantes eram substituídos periodicamente. Dessa forma, surge na Inglaterra a Câmara dos Lordes. Por se tratar da nobreza é também conhecida como a Câmara Alta – título que alguns como ACM e José Sarney gostam de intitular o Senado Brasileiro, inclusive em sua cor azul predominante [cor da realeza] que, como se está vendo, não tem parentesco nenhum com o original.

Dentro de alguns anos, a plebe iria reivindicar também uma representação no Parlamento, fazendo surgir a Câmara dos Comuns, cujo embrião é o Tribuno da Plebe da Roma Antiga.

Na Inglaterra [uma monarquia], ou seja, um governo unitário e, por isso mesmo,  não tem a figura dos Estados, em seu lugar tem os nobres que sustentam o governo, representado pela Coroa. Os Estados Unidos, ao compor seu governo, retirou o modelo da Câmara dos Lordes transformando-o no Senado, cujo nome vem da Roma antiga. Assim como na Inglaterra a Câmara dos Lordes representam a nobreza, na Federação Americana os Estados são representados pelos senadores e o povo é representado na Câmara dos Deputados.

No Brasil nunca houve estes Estados soberanos do modelo americano nem a Câmara dos Lordes da Inglaterra. Portanto, nunca existiu realmente o tal Pacto Fundamental. Ora, não havendo o Pacto Fundamental, porque nunca houve os Estados como os americanos e nomeados pela Ciência Política, o nosso Senado é uma ficção tão grande quanto à própria federação.

Na Inglaterra a Câmara dos Lordes representa a nobreza; na América do Norte os senadores representam os interesses dos Estados. Se pegarmos outro exemplo, na Alemanha, por exemplo, o senado é ocupado por indicação de cada Estado. No Brasil, os Senadores representam os interesses deles e, não raro, vemos senadores de partidos contrários ao do governador do seu Estado e até inimigos deles. Estes senadores representam o quê?

Portanto, por uma questão de lógica, é preciso extinguir esta fantasia e aliviar os cofres públicos dessa sangria de 81 senadores com mandatos de 8 anos, cujos suplentes na maioria dos casos são seus parentes que não obtiveram votos de ninguém.

É certo que nunca extinguiremos o senado porque isso depende da classe política. Mas é um bom momento para discutirmos a implantação do Parlamentarismo com voto distrital, a redução da câmara dos deputados ou outras medidas. Não sei ainda se o parlamentarismo demonstra-se a melhor opção, mas ao menos nele, não há lugar para duas casas legislativas, e quem sabe amenizaríamos ou extinguiríamos essa fantasia chamada senado brasileiro.

Texto produzido em cima das compilações realizadas por um amigo maçom, com o título “Delenda Senatus”.

A Sociedade Oneida

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Por Odair Deters

A Sociedade Oneida, apareceu-me inicialmente em pequenos registros e frases contidas em antigos livros gnósticos, e despertou-me a curiosidade que sempre nutri por pequenas comunidades, o que me levou a explorar em busca de mais informações, até então raras em português.

Oneida é uma pequena cidade que tem hoje pouco mais de 10 mil habitantes, localizada no Estado de Nova Iorque, EUA. Nesta pequena cidade floresceu uma excêntrica comunidade no século XIX. Nesta comunidade seus membros enriqueceram mesmo desenvolvendo um sistema de coletivismo, as crianças nascidas podiam e eram incentivadas a irem para a faculdade e as mulheres conquistaram os maiores direitos de igualdade possíveis naquela época, no entanto o fato de maior relevância existente nesta comunidade foram os métodos de relacionamento sexual apresentados pelo fundador da mesma o americano John Humphrey Noyes.

John Humphrey Noyes, nasceu em 1811 em Brattleboro, Vermont, diplomado em Dartmouth, primeiro dedicou-se ao estudo da lei, depois da teologia em Andover e posteriormente em Yale. Sob influência do movimento reavivalista [fenômeno sociocultural que ocorreu muitas vezes ao longo da história universal e que procura resgatar princípios e tradições de tempos passados, para enfrentar desafios aparentemente insolúveis de sua própria época], onde passou por uma experiência de conversão espiritual, passando a crer que era possível aos homens não apenas serem salvos, mas se tornarem perfeitos — ou aperfeiçoados — nesta vida, o que levaram eles a ganharem a denominação de perfeccionistas.

Em 1834 Noyes retornou a Putney, Vermont, onde seu pai era um banqueiro, casado com a neta de um congressista, e lentamente juntou um grupo de pessoas, no princípio principalmente seus familiares mais íntimos que não apenas o seguiram em convicção como compartilharam as mesmas experiências e convicções, passando seu tempo em estudos bíblicos e oração. No curso de dez anos o pequeno grupo de perfeccionistas desenvolveu seu próprio corpo de doutrinas, ganhou alguns convertidos e correspondentes ao longo da Nova Inglaterra e Nova Iorque. Em 1846 eles passaram a viver juntando todas as coisas em comum. Neste momento eles despertaram a ira dos cidadãos de Putney sendo expulsos da cidade.

Em 1848 os perfeccionistas compraram quarenta acres e uma casa velha em Oneida ao norte de Nova Iorque. Oneida era um lugar pobre, os edifícios estavam caindo aos pedaços. No princípio havia menos que cem pessoas que podiam trazer relativamente pouco dinheiro na fundação da comunidade. Porém, eles logo passaram a produzir na terra, adquiriram acres, tornando-se capazes de se alimentar autonomamente, após isso adotaram um programa cuidadosamente planejado de desenvolvimento industrial diversificado em pequena escala. Eles passaram a vender o excedente da colheita para fora, gado, frutas, legumes, geleias, marmelada, mobília produzida na fazenda, tecidos em lã e seda, armadilhas para caça, bolsas e caixas de fósforos, montaram uma fábrica e uma loja de ferramentas. Mais tarde eles começaram a produzir, no princípio à mão, utilidades que eles mesmos inventavam e que se tornaram os mais lucrativos de seus empreendimentos industriais naquele tempo. Noyes identificou, “que se todo mundo trabalhasse em conjunto três horas por dia, não haveria necessidade de ninguém trabalhar mais do que isso”.

Originalmente a comunidade começou com 87 membros, fundaram-se em seguida os ramos de Wallingford e do Brooklyn, e cresceu para 172 em fevereiro de 1850, 208 por 1852, e 306 por 1878. Os ramos foram fechados em 1854, exceto para o ramo de Wallingford, aberto até 1878. O ramo do Broolyn se seprarou em 1874, ficando a comunidade com 219 adultos, sendo aproximadamente 20% a mais mulheres do que homens e sessenta e quatro crianças. Na comunidade também existia por este período cerca de 260 trabalhadores contratados para atividades na fazenda, cerca de 1 empregado por menbro da comunidade, eles atuavam como coletores de frutas, trabalhavam nas lojas e as mulheres contratadas, com o processamento da seda. Em cerca de 20 anos os colonos de Oneida tornaram-se modestamente ricos, vivendo suas vidas com elevado grau de satisfação tanto materialmente, culturalmente, como espiritualmente, mais do que qualquer outra colônia religiosa. Oneida apresentava-se como um lugar completamente agradável para se viver. Esse sucesso notável provavelmente ocorreu devido à alta qualidade dos colonos e especialmente ao seu líder, um homem dotado de uma inteligência e força de vontade verdadeiramente excepcionais, em alguns casos, atribuído como produto da melhor educação de seu tempo, tinha o hábito de não pedir para ninguém fazer qualquer coisa que ele mesmo pudesse fazer e assim trabalhou como fazendeiro, ferreiro, administrador, vaqueiro, e eventualmente todos os outros empreendimentos da comunidade.

Noyes também foi um místico do alimento, a maioria das pessoas na comunidade eram vegetarianos. Eram servidas duas refeições por dia. Ele tomavam café e chá, mas nada que continha álcool, nem usavam qualquer tabaco. No entanto o registro mais destacado a esta pequena sociedade, é o chamado “experimento”, relacionado principalmente pela forma de relacionamento sexual praticada pelos membros da comunidade, chamado de “Carezza” [do italiano, carinho ou carícia], basicamente esta prática sexual definia que orgasmo e ejaculação são coisas distintas. O método carezza, pressupõe um amor profundo no casal e o desejo de ir além da sexualidade alcançando um plano diferente. Posteriormente J. William Lloyd, um estudioso do carezza, compara a união sexual com ejaculação a um fogo de artifício interrompido pela inabilidade do fogueteiro, que faria explodir de uma só vez todo o estoque de foguetes. Para ele, ainda, ejacular mata certeiramente o amor verdadeiro e impede sua sublimação. Afirmou também que “esse contato magnético é eficaz para fortalecer os fracos e curar os doentes” e quando é praticado com sucesso “os órgãos genitais ficam aplacados, desmagnetizados como que por uma ejaculação. Enquanto emanam dos corpos dos amantes forças maravilhosas e uma alegria consciente, eles repousam com doce satisfação, como após um jogo bem sucedido”, sendo invadidos por saúde, pureza, vitalidade e “em contrapartida, após a ejaculação, a constatação geral é que, passados os primeiros instantes de relaxamento, segue-se um sentimento de ter sofrido uma perda, de ter enfraquecido.

Assim como os gnósticos, a Sociedade Oneida, via o sexo não somente como força mantenedora da espécie humana, mas como algo muito mais transcendental, porém divergiam no método carezza [ou método Diana]. Pois os gnósticos defendem o sexo entre casais devidamente constituídos, enquanto que a Sociedade Oneida, tinha como método mais famoso o “casamento complexo” [Complex Marriage], ou matrimônio grupal, ou seja, todo mundo estava disponível para todo mundo, mas o emparelhamento real dos pares estava sob a orientação da comunidade [ou de Noyes]. No entanto a fazia-se a exigência da “continência masculina”, retirando-se sem ejaculação, podendo vir a ter orgasmo sem ejaculação. Tais funções são possíveis, pois são controladas por dois conjuntos diferentes de nervos [Porém não é objetivo deste texto, explicar ou estudar a técnica em si].

A colônia com seu amadurecimento introduziu a ideia de procriação eugênica controlada, chamada por eles de estirpecultura [do latim “stirps”, que significa: “estoque, caule ou raiz”]. Apenas àqueles que fossem julgados melhor dotados de qualidades físicas e mentais, para desenvolver geneticamente a produção de uma raça superior através das gerações, foram permitidos à geração de crianças. Noyes e um comitê especial, após uma longa observação na comunidade, escolheram alguns, instruindo-os para que se acasalassem independente das uniões prévias que pudessem ter praticado [hoje esta ideia de eugenia é extremamente repudiada por ter sido um dos pilares do nazismo].

Os resultados do experimento com a estipercultura na Comunidade Oneida durou de 1869 à 1879, participaram 53 mulheres e 38 homens neste programa, sendo produzidas 58 crianças, sendo que 13 destes foram registrados como concepções acidentais. E estas crianças foram muito diligentemente atendidas, como nutrição, educação e cuidados. As Onedidas mantiveram detalhados registros do crescimento e desenvolvimento das crianças, as mesmas mostraram-se muito inteligentes e foram encaminhas para estudar em faculdades da época e insentivadas a alcançarem o sucesso mundano, e em geral viveram até idade muito avançada.

A educação destas crianças foi outro método excêntrico desenvolvido. Normalmente elas viviam até 12 ou 15 meses com a mãe, quanto à amamentação era retirada e elas eram criadas comunitariamente, ou seja, não especificamente por seus pais biológicos. Eram criadas sobre a supervisão dos membros da comunidade responsáveis por tal tarefa. As crianças eram levadas para em uma “Casa da Criança”, que era uma sucessão de quartos. Algumas vezes elas podiam continuar indo dormir com suas mães, mas passado certo período eram desencorajadas disto.

Dentro da sociedade, as mulheres com mais de 40 anos de idade agiam como “mentoras” sexuais dos adolescentes do sexo masculino, uma vez que estes relacionamentos tinham chance mínima de conceber. Além disso, essas mulheres se tornaram modelos religiosas para os homens jovens. Da mesma forma, também, os homens mais velhos muitas vezes introduziam mulheres jovens ao sexo.

O papel da mulher na Sociedade Oneida foi muito relevante, principalmente para a época. Esta sociedade trabalhou para mudar e melhorar a visão que a sociedade em geral tinha das mulheres. Dentro da sociedade elas possuiam liberdades não encontradas fora dela. Entre os privilégios, aparecia o de não ter que cuidar dos próprios filhos, liberdade ao não terem gravidezes indesejadas com a prática da continência masculina de Oneida. Além disso, elas podiam usar roupas funcionais, como calças, saia nos joelhos, quantidade menor de roupas íntimas do que era comum naqueles dias [como coletes, espartilhos, anáguas, pantalonas e bustiês], também podiam manter os cabelos curtos e participavam em praticamente todos os tipos de trabalho comunitário, inclusive exploravam posições em negócios e vendas, ou como artesãs, bem como atuação na definição da política comunitária, participando das reuniões religiosas e de negócios.

O governo da comunidade era exercido por uma vasta engrenagem de comitês e interlocutores, o que permitia uma gama considerável de iniciativas, sempre sujeitas a reuniões com a participação de toda comunidade; se uma divisão acontecesse, a decisão, era adiada até que a unanimidade pudesse ser alcançada. Mesmo que a comunidade em sua maior população chegou ao máximo em cerca de 300 pessoas, eles tinham uma burocracia complexa, composta de 27 comissões permanentes e 48 seções administrativas.

A ideia principal da sociedade Oneida girava em torno de que era perfeitamente possível ser uma pessoa boa, atuando com bondade, consideração e respeito ao indivíduo. E que a doença era um tipo de pecado, passível de correção através do auto aperfeiçoamento e inclusive, viam a possibilidade alcançar todas as qualidades dos patriarcas do cristianismo, através da técnica disseminada por Noyes.

Indubitavelmente os ensinamos de Noyes, em partes, no tocante a continência masculina, encontrou outrora e atualmente grande respaldo. Como encontrados em inúmeras passagens e textos, principalmente em linguagem simbólica, tal como na Bíblia em Provérbios [5:15]: “Bebe a água da tua própria fonte e os filetes de água do meio do teu próprio poço… Sejam tuas águas apenas para ti e não para os estranhos. Mostre-se abençoado o teu manancial, e alegra-te com a esposa da tua mocidade”. Mais recentemente o fisiologista Brown-Séquard, com sua teoria das secreções internas, e o neurologista Sigmund Freud, com sua teoria da sublimação da libido, foram os primeiros a introduzir as verdades alquimistas nos domínios da Ciência ocidental, passando a partir daí a surgirem conclusões científicas que comprovam a revitalização orgânica mediante “águas” ou energias sexuais estimuladas mas não expelidas. Hoje, todo endocrinologista sério sabe que as glândulas sexuais são cápsulas que excretam e incretam hormônios [que do grego, significa: “ânsia de agir, força de ser”]: excretam para reproduzir, e incretam para revitalizar. Portanto os hormônios sexuais não exteriorizados inundam o sistema sanguíneo e chegam às diferentes glândulas de secreção interna. Com isso, ocorre uma superestimulação responsável pela produção maior de lisossomos, que animam todo o sistema nervoso, ampliando nossos sentidos, percepções, e substituindo a doença por saúde. Seguindo absolutamente o que os estudos da época dos Oneidanos, que comprovaram a revitalização cerebral, a ampliação da potência sexual e o desaparecimento de várias enfermidades.

No entanto, é curioso que não só a Bíblia, mas outros livros, revelam sutilmente esta prática. E cabe nos aqui mencionar o segredo contido em As Mil é Uma Noites, clássico árabe, que tem a história do rei Xariar, que, desiludido das mulheres [pois foi traído pela esposa], ordenou ao assessor que lhe trouxesse uma donzela por noite. Depois de possuí-la em leito de luxúria, mandava matá-la na manhã seguinte. Por fim, chegou a vez de Xerazade, a formosa filha do assessor. Esta, porém, utilizou uma estratégia. Noite após noite contava ao rei uma história fascinante; mas, interrompendo-a habilmente ao clarear o dia e retomando-a ao cair da noite, conseguia manter sempre vivo o interesse do monarca, que sempre adiava a morte de Xerazade. Neste conto, “adiar” pode ser entendido como “deixar, eternamente, a morte para amanhã”. Não é por acaso comum entre os franceses chamarem o orgasmo de “petit mort” [pequena morte]. Noyes buscava o mesmo, ao fornecer mais vitalidade ao organismo, adiando dia após dia as enfermidades.

Porém as mudanças no temperamento público dos Estados Unidos são bem ilustradas pela reação da sociedade dominante contra os Oneidanos. As objeções mais fortes não eram contra o comunalismo ou contra as políticas radicais, mas aos estranhos costumes da colônia, como: casamentos complexos [grupais], estirpecultura, igualdade das mulheres, e, não menos, a maneira de vestir [mais simples]. Mas os oneidanos também estavam entre os radicais políticos mais avançados de seu tempo, com ativa participação.

Justamente o fato de ter abolido a casamento na comunidade, onde possessão e relacionamentos exclusivos eram malvistos, desencadeou aparentemente o fracasso da mesma. O ponto crucial para todas estas pressões foi à campanha de perseguição incitada pelo Professor John Mears do Hamilton College. Ele convocou uma reunião de protesto contra a Comunidade Oneida, que teve a participação de quarenta e sete clérigos. John Humphrey Noyes foi informado pelo conselheiro de confiança Myron Kinsley que um mandado de prisão sob a acusação de estupro ou adultério era eminente. Noyes fugiu da comunidade e do país [indo para o Canadá] no em 1879, para nunca mais voltar para os Estados Unidos. Pouco tempo depois, ele escreveu para seus seguidores de Niagara Falls, Ontário, que recomenda que a prática do “casamento complexo” [Grupal] fosse abandonada.

Noyes tentou passar a liderança da comunidade para seu filho, Theodore Noyes. Este intento não foi bem sucedido, porque Theodore era considerado um agnóstico e faltava-lhe o talento de seu pai para a liderança. Iniciaram-se dentro do município, debates sobre quando as crianças deveriam ser iniciadas no sexo, e por quem. Houve também muitas discussões sobre suas práticas como um todo. Os membros fundadores foram  envelhecendo ou morrendo, e muitos dos comunitaristas mais jovens optaram por casamentos tradicionais. Em 1879, depois de pressões externas da comunidade local, parceiros conjugais normalizaram seus status como casais, com quem eles estavam coabitando no momento da reorganização, em uma celebração de casamento tradicional de mais de 70 menbros da comunidade. Alguns dos menbros se reencontravam de forma anônima e secreta.

Dali em diante, pouco a pouco, a colônia rapidamente se desintegrou, e o complexo de propriedades foi distribuído. Em 1881 Oneida tornou-se uma companhia acionária, a empresa de fabricação de armadilhas para caça foi vendida em 1912, a de produção de seda em 1916, e a de conservas interrompida por falta de rentabilidade em 1915. A partir daí, engajou-se principalmente na fabricação de objetos de prata [iniciada em 1877], tornando-se, nos EUA uma marca famosa de talheres e afins, e assim continuou até 2005, quando anunciou que acabaria com todas as operações de fabricação nos EUA, pondo fim a uma tradição 124 anos. Se os ex-colonos tivessem mantido suas ações, enriqueceriam, mas o negócio tornou-se um empreendimento capitalista, bem distante de uma democracia de trabalhadores, como eles mantinham.

O último membro original da comunidade, Ella Florence Underwood [1850-1950], morreu em 25 de junho de 1950 em Kenwood, Nova Iorque perto de Oneida, Nova Iorque. Em 1993, os arquivos da comunidade foram disponibilizados para os estudiosos pela primeira vez. O prédio principal da sociedade, a Mansion House [8.600 m²], ainda está em Oneida, Nova Iorque, contando com 35 apartamentos, 9 dormitórios, museu, sala de reuniões e refeitórios, a “Oneida Community Mansion House” foi declarada Patrimônio Histórico Nacional dos EUA em 1965, atualmente o museu e partes da casa estão abertas para os visitantes.