Ratatouille – Qualquer um pode cozinhar

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Por Odair Deters

Ao retirar o bolo da forma, ele desprendeu inteirinho, parecia ser um caso de sucesso para o primeiro bolo produzido. Porém logo percebi que o bolo, apesar de assado estava de certa forma maleável, era possível enrolar ele quase como se enrola pão de ló para fazer um rocambole. O bolo não se quebrava, havia eu feito um bolo-borracha. Isto resultou da minha dificuldade em encontrar no supermercado coco-ralado, ingrediente necessário para este bolo. Com muita dificuldade consegui encontrar uma embalagem de 400 gramas, da quais 200 gramas eu usaria em minha receita. Ao misturar os ingredientes, vi que ao invés de lasquinhas, era coco em pó, tudo bem, depositei as 200 gramas, um pouco mais, afinal, que faria eu com a sobra de coco em pó, e sendo que coco é tão gostoso, vamos por o pacotinho inteiro, o dobro do que a receita pedia. O bolo foi ao forno, e um aroma intenso de coco se espalhou pelo ambiente. Ao começar a recolher a bagunça, enquanto o bolo assava, vejo que a embalagem de coco, que era pra ser ralado, na verdade era: “Mistura para preparo de SORVETE sabor coco”. E agora? Ao invés da geladeira meti aquilo no forno.

Ok, produzi um bolo-borracha, nem um pouco gostoso. Mas já era uma aventura em tanto, para o jovem que aos 23 anos saiu da casa da mamãe [que era chefe-de-cozinha] sem saber se quer fritar um ovo [sério, fritar um ovo era algo complexo e chato, e que eu desconhecia completamente a quantidade de óleo necessário]. Porém a ida para uma república abriu muitas portas. Eram muitos aventureiros na cozinha. Para se ter uma ideia, tinha a moradora que olhava na geladeira um pedaço de queijo gorgonzola e ao perceber o aspecto e o aroma, prontamente o botava no lixo pensando ser algo estragado, para desespero do dono do queijo, que descobria isso mais tarde. Bom, a vida em comunidade exigia que se apresentassem ocasionalmente alguns dotes, ou você ia parar na pia com a louça suja todas às vezes. Neste ínterim, comecei a prestar atenção nos programas de Jamie Oliver e da bela Nigella, e fui preparando as primeiras receitas, começando com coisas estranhas [melhor dizer, chiques], e arriscando fazê-las, sempre naqueles dias em que os demais moradores estavam ausentes, e não é que um novo prazer foi surgindo.

A partir do momento que se descobre e se sente os jogos de aromas e sabores, aí não mais tem volta. E comida sem tempero, ou com pouco tempero, perde a graça, tira o apetite. Comecei ocasionalmente a cozinhar algumas coisinhas de forma tímida, quando via estava produzindo novos pratos, logo, meus colegas de trabalho estavam experimentando algumas das receitas. Meus sanduiches de sabores e misturas diferentes caíram no gosto de alguns, que me forçaram a revendê-los e se tornaram clientes fiéis. No entanto trabalhar o dia inteiro, estudar a noite e ainda produzir sanduiches diferenciados entre a meia-noite e a uma da manhã, não era uma jornada das mais bacanas, optei por cancelar a empresa.

A venda de sanduiches morreu, mas o gosto pela cozinha havia acabo de nascer. E assim, surgiram risotos, assados, massas, molhos, lanches, entre outros, inclusive aprendi técnicas das mais variadas, como 4 maneiras de descascar e cortar uma cebola sem chorar [tudo bem contarei as 4 alternativas, antes que alguns comecem a me questionar].

Alternativa A, ou opção dos escravos (pela origem da prática): Cortá-la com um palito de fósforo entre os dentes; Alternativa B ou de uma ex-namorada: Colocar com antecedência a cebola no congelador; Alternativa C ou silenciosa: Não engolir a saliva enquanto corta a cebola, e claro ao mesmo tempo não falar com ninguém que esteja ao redor, por ter que ficar com a boca cerrada; Alternativa D ou a melhor: Que é não cortar as raízes da cebola, a parte de baixo da mesma enquanto a descasca ou a pique.

Comecei a encarar as primeiras receitas, e alguns dos amigos que gostavam, volta e meia me questionavam sobre determinada receita que haviam provado, e surgiu a ideia de deixar elas salvas e de fácil acesso para atender a estas necessidades. Ponto de partida para a criação de um Blog, não havendo muito criatividade no nome, virou o “Receitas do Oda” mesmo [http://receitasdooda.wordpress.com/ ], recentemente replicado no facebook [https://www.facebook.com/receitasdooda?fref=ts ].

A partir do momento que alguém acreditou que eu cozinhava bem, fui descobrindo que temperos são fundamentais e que uma boa sobremesa não precisa ser um pote de açúcar, e como que por encanto as receitas foram surgindo. E muitos amigos passaram a compartilhar comigo inúmeras receitas e dicas, que me capacitaram ainda para novas aventuras gastronômicas [assim, como o bolo-boracha, nem todas bem sucedidas]. Hoje, vejo aquele desenho da Disney – Ratatouille [2007] – E se fosse outra época eu poderia dizer que sim, possivelmente um rato cozinharia melhor do que eu, mas atualmente, torno-me um pequeno exemplo, do sentido maior desta animação, o de que “Qualquer um pode cozinhar”. E que outros se motivem!

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