A iniciação alquímica no desenho a Bela e a Fera

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Por Odair Deters

A Disney sempre se empenhou em trazer grandes obras para as telinhas, muitas delas donas de grande simbologia alquímica, esotérica ou mística, sem contar um que outro filme em que ocultamente aparecem ricas simbologias maçônicas. Alguns bons exemplos são: A Bela Adormecida, Cinderela, Pinóquio, Peter Pan, Aladdin, Hércules, O Corcunda de Notre Dame, Atlantis: O Reino Perdido e A Espada Era a Lei [meu preferido]. Todos sem sombra de dúvidas, magníficos.

Porém fui motivado por uma amiga [Luíza Tavares @smileland_ ] a terminar um breve texto sobre as questões iniciáticas que envolvem o desenho A Bela e a Fera, animação de 1991.

Baseado no conto de fadas de mesmo nome de Jeanne-Marie Le Prince de Beaumont. O longa é centrado em um príncipe que é transformado em uma fera e uma jovem mulher chamada Bela que ele “aprisiona” em seu castelo. Para se tornar príncipe novamente, a Bela deve amar a Fera e ele deve ganhar seu coração, ou será Fera para sempre.

O filme se passa na França do século XVIII. O conto relata a história de um príncipe jovem e rico que vivia em seu magnífico castelo. Em uma noite fria de inverno, uma velha mendiga bate na porta e oferece a ele uma rosa, em troca de abrigo. O príncipe recusa, por achá-la muito feia, e a mendiga se transforma em uma feiticeira de grande beleza. O príncipe implora perdão, mas a feiticeira – para castigá-lo pela falta de amor em seu coração – o transforma em uma fera horrenda. A rosa que a mendiga oferecera era encantada e floresceria até o seu vigésimo primeiro aniversário. O feitiço só poderia ser quebrado se o Príncipe aprendesse até o findar deste período a amar alguém e a ser amado em retorno, mas quando a última pétala da rosa caísse, o feitiço já não poderia mais ser quebrado.

Paralelamente se desenrola a história da filha mais nova de um rico mercador, que tinha três filhas. Enquanto as filhas mais velhas gostavam de ostentar luxo, de festas e lindos vestidos, a mais nova, que todos chamavam Bela, era humilde, gentil, generosa, tratava bem as pessoas e era amante de livros. Certo dia, o mercador perdeu toda a sua fortuna, com exceção de uma pequena casa distante da cidade. Bela e seus irmãos aceitaram a situação com dignidade, mas as duas filhas mais velhas não se conformavam em perder a fortuna e os admiradores, e descontavam suas frustrações sobre Bela, que humildemente não reclamava e ajudava seu pai como podia.

Um dia, o mercador recebeu notícias de bons negócios na cidade, e resolveu partir. As duas filhas mais velhas, esperançosas em enriquecer novamente, encomendaram-lhe vestidos e futilidades, mas Bela, preocupada com o pai, pediu apenas que ele lhe trouxesse uma rosa. Quando o mercador voltava para casa, foi surpreendido por uma tempestade, e se abrigou em um castelo que parecia abandonado. Ao partir, pela manhã, avistou um jardim de rosas e, lembrando do pedido de Bela, colheu uma delas para levar consigo. Foi surpreendido, porém, pelo dono da roseira, uma Fera pavorosa, que lhe impôs uma condição para viver: deveria trazer uma de suas filhas para ficar em seu lugar. Ao chegar em casa, Bela, mediante a situação resolveu se oferecer para a Fera, imaginando que esta a devoraria. Porém, ao invés de a devorar, a Fera mostrou-se aos poucos como um ser sensível e amável, fazendo todas as suas vontades e tratando-a como uma princesa. Assim, apesar de achá-lo monstruoso, Bela se apegou a Fera. Certa vez, Bela pediu que a Fera a deixasse visitar sua família, pedido que foi concedido, a muito contragosto, com a promessa de ela retornar em seguida.

Bela visitou alegremente sua família, mas as irmãs, ao vê-la feliz, rica e bem vestida, sentiram inveja, e a envolveram para que sua visita fosse se prolongando, na intenção de Fera ficar aborrecida com sua irmã e devorá-la. Bela foi protelando sua volta até ter um sonho em que via a Fera morrendo. Arrependida, voltou imediatamente, mas encontrou a Fera morrendo no jardim, pois essa não se alimentara mais temendo que Bela não retornasse, e acaba ainda atacado pelas costas por uma facada de Gaston, um aldeão apaixonado por Bela.

Neste momento, com a Fera a morrer em seus braços, Bela, compreendeu que amava a Fera, que não podia mais viver sem ela, e confessou ao monstro sua resolução de aceitar o pedido de casamento, no mesmo momento em que a última pétala da rosa encantada cai. Mal pronunciou essas palavras, a Fera se transformou num lindo príncipe, pois seu amor colocara fim ao encanto que o condenara a viver sob a forma de uma fera até que uma donzela aceitasse se casar com ele. Uma chuva mágica e colorida cai dos céus e a Fera retorna à vida, na sua forma humana. Bela o reconhece por causa dos olhos azuis que a Fera tinha.

Como fiquei sabendo pela minha amiga, que me sugestionou finalizar este texto, o filme “A Bela e a Fera”, foi o primeiro longa animado a ser indicado ao Oscar como melhor filme, e está entre os 25 maiores musicais do cinema. Mas fora as características técnicas, vamos aquelas que estão ocultas aos olhares e as mentes despercebidas.

A simbologia alquímica, mostra-se presente no conto a partir da ruína do pai de Bela, uma vez que este perde toda sua fortuna num negócio mal sucedido. Daí a partir desse fracasso, Bela, diferentemente de suas irmãs, se compadece do pai, abdicando de sua vida para ajudá-lo, mostrando sua ligação ao Pai, sua relação com o criador e a abdicação de oferecimentos mundanos [cortejos por rapazes], ao mesmo tempo esta simbiose com o pai, pode representar metaforicamente, um estado de caos, de inconsciência.

O processo de diferenciação, de busca por algo espiritual, se dá a partir do momento em que o pai de Bela parte em viagem, em busca de reaver sua riqueza. O interessante é que antes de partir, oferece um presente para cada uma das filhas e enquanto as irmãs pedem bens materiais (joias e vestidos), Bela pede apenas uma rosa. O simbolismo da rosa é extremamente rico, visto que a rosa esta associada aos mistérios de Isis, como também ao culto da deusa Afrodite (ou Vênus). Além, disso a rosa, como as demais flores, por terem formato circular, representam a totalidade, a busca pela perfeição através do processo de individuação.

No conto, a rosa é o elemento instigador de todo o drama que se seguirá, pois é a partir de seu roubo[tomar um conhecimento velado a poucos] se dará toda a transformação da personagem principal. Ao pegar a rosa de um castelo desconhecido, o pai de Bela se depara com a Fera que o condena a morte por seu ato. Porém, diante das súplicas de misericórdia do pobre homem, a Fera poupa-lhe a vida com a condição que uma de suas filhas fosse morar em seu castelo. Mostrando a necessidade de a consciência habitar a mente.

A partir do contato com a rosa, tem início a difícil missão da “heroína” que é viver num novo mundo e conviver com a Fera. Essa difícil missão é o anúncio da opus alquímico, o prenúncio da transformação. O trabalho solitário do alquimista a separação do que lhe é familiar, de forma que a luz cinda nas trevas. Ao mesmo tempo, Bela, foge das tentações do jovem aldeão Gaston, que aqui representa o prazer temporal, a juventude e a cobiça das jovens.

A Fera é a representação de num animus animalesco, o ego interno, é um príncipe transformado em fera devido a seu ego, em uma maldição do qual ele é o culpado. O encontro de Bela e a Fera seria assim uma alegoria do contato entre a consciência e o ego animal. Ao entrar em contato com Fera, uma criatura repugnante, Bela sente medo, mas com o passar do tempo é construído um vínculo entre os dois personagens. Como prova de confiança, a Fera deixa Bela visitar sua família. O retorno ao lar de Bela representa a regressão do ego diferenciado, transformado em essência, ao inconsciente original, o que se assemelha a operação alquímica solutio.

Ao retornar, as irmãs materialistas de Bela, ardilosamente, fazem tudo para agradá-la e para que esqueça de retornar ao castelo da Fera, querem deixa-la ao mundano, pois a transformação da irmã as inveja. Porém, Bela pressente [intuição, sonhos lúcidos] o chamado da Fera, e ao voltar depara-se com a Fera agonizando de tristeza [operação mortificatio, na alquimia]. A partir desse momento, Bela percebe o sentimento de amor.

A partir da vivência dos opostos, o animalesco, sombrio, morre, torna-se humano. Assim, o feitiço que condenou o príncipe a viver como Fera é quebrado. A morte do monstro simboliza o domínio ou repressão de impulsos instintivos primitivos, ou egóicos.

Assim como em grande parte dos contos de fada, o final feliz termina simbolizado pelo casamento. O casamento representa um novo status, o desdobramento de uma nova psique. Na alquimia a união entre opostos é comumente representada pelo casamento entre figuras masculinas e femininas, o que é denominado de coniunctio. A coniunctio alquímica simboliza uma união transformadora de substancias dessemelhantes [o tão buscado coniunctio oppositorum alquímico], unidos pelo casamento, a transformação, a iniciação alquímica ocorre, como tão bem ilustrada no conto de fadas A Bela e a Fera.