A mão invisível de luvas. Antibióticos, saltos altos e chifres.

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Odair Deters

O pai da economia, o escocês Adam Smith, criou uma, se não a mais famosa das ideias econômicas, a da Mão invisível [A Riqueza das Nações], como forma de descrever como em economia, o “cada um por si” [economia de mercado] gera uma determinada ordem, boa para todos. Bom, então a melhor forma de regular um sistema socioeconômico, seria a auto regulação? De acordo com a teoria, parece que sim, pois a competição sem restrições produz sempre o melhor possível para todos.

No entanto, faz-se necessário deixar bem claro que a perseguição do auto interesse nem sempre é suficiente para um promover um interesse coletivo simultâneo. Vamos analisar a questão dos chifres dos alces [by National Geographic], a prescrição de antibióticos [by minhas últimas consultas] e o uso de saltos altos entre as mulheres [by algumas de minhas leitoras].

Os chifrudos alces, assim como os elefantes, leões marinhos, bois-almiscarados [e alguns homens], costumam lutar entre si pelo acesso ás fêmeas. E no caso dos alces, ao contrário dos homens, quanto maior o chifre, neste caso principal arma de batalha, maior é a vantagem na luta e melhor o resultado na obtenção de parceiras, estendendo assim seus genes a próxima geração. Porém os mesmos chifres que promovem um número maior de encontro com belas fêmeas alces, também tornam mais difícil para eles escaparem dos lobos e outros predadores nos seus habitats. Assim a seleção natural, que tende a empurrar cada vez os genes de maiores chifres as próximas gerações, promovendo o aumento destes pela seleção genética, é o que mais tornam eles suscetíveis e vulneráveis aos predadores, ao não conseguirem escapar em áreas arborizadas, gerando um ponto de equilíbrio. [fico pensando aqui se soltássemos alces no Pampa, teríamos pela seleção natural alces que não iriam conseguir nem andar, devido o tamanho dos chifres].

Fracassada a ideia de criar alces na região do Alegrete, para estes bichos, o ideal seria que o tamanho dos chifres fosse reduzido pela metade. Isso propiciaria um aumento substancial nas possibilidades da população de alces escaparem dos predadores, e ao batalhar pelas fêmeas, o resultado continuaria a ser decidido da mesma forma, já que o fator chave é o tamanho relativo dos chifres. Na impossibilidade, segue aquele fenômeno denominado: “inteligência para um, estupidez para todos”. O que ganha à fêmea hoje, ferra aquele que amanhã terá que escapar do lobo.

Mas não é só o bicho alce afetado. Já fui duas vezes consultar um médico com fortes dores da garganta, as duas vezes saí com uma receita prescrevendo o uso de antibióticos [em nenhuma delas usei, preferi os métodos caseiros]. Claro, se a infecção for causada por bactérias, o tratamento com os antibióticos agiliza a recuperação. No entanto cria bactérias mais resistentes. Por motivos como estes muitos países criam campanhas para se reduzir o uso de antibióticos. No entanto, os médicos parecem normalmente não respeitarem isto, mesmo estando eles conscientes do impacto do uso de antibióticos e no aumento de estirpes de bactérias mais resistentes. Assim como os alces, os profissionais da saúde perseguem seus interesses individuais sem restrições e contribuem para a deterioração do interesse coletivo.

No frio inverno gaúcho, um médico prescreve um antibiótico para a minha forte dor de garganta, isso só, não originaria uma bactéria superpotente, mas o conjunto de todos os médicos receitando, ou seu efeito agregado, sim. Embora com certeza existam por aí alguns médicos mais coerentes [não tive a sorte de encontra-los], a grande maioria, corre o risco de ao se recusarem tratar infecções menores desta forma [com aplicação de medicamentos/antibióticos], correm o risco de ver seus clientes rumarem para outro médico, ou até ser desacreditado profissionalmente, devido a maior lentidão na recuperação do paciente [e como os brasileiros gostam de um remedinho né?!]. Bom, ao agir de acordo com a teoria do velho Smith, nos cuidados com a saúde, a perseguição do auto interesse vai piorando as condições de todos, com estirpes mais resistentes de vírus e também financeiramente com a necessidade de novos medicamentos. Calcula-se que no Brasil que 70% das prescrições sejam totalmente desnecessárias, a isso se junta 15% dos enfermos que se automedicam. No próximo inverno a bacteriazinha vem com a capa do Super-homem.

Outro exemplo atinge as minhas leitoras [que são maioria], e devem sentir como ninguém o desconforto e a dificuldade de andar com o salto alto. Além de que o uso prolongado pode lesionar os pés, joelhos e a coluna. Então, porque elas continuam com seus toc-toc-toc? Meu amigo C. Beaux, após umas heinekens bem geladas parece ter a resposta: “Rasteirinha é tão brochante”. E justamente, o uso de saltos altos aumenta a probabilidade de chamar a atenção sobre si, de uma forma positiva. E também faz elas parecerem mais altas, e aumentam o seu sex appeal, ao arquearem as costas e puxarem o peito pra cima, acentuando a silhueta.

Assim como o alce que ganha com seus chifres, mas perde no coletivo, o interesse individual de cada mulher entra em conflito com o interesse coletivo. Se todas as mulheres usarem saltos altos, a vantagem de utilizar saltos tende a desaparecer. Se colocarmos uns centímetros de salto em todas, a média relativa seguirá a mesma, porém com consequências de desconforto e problemas de saúde.

Os chifres dos alces, a prescrição de antibióticos, e o uso de saltos altos, indubitavelmente são exemplos contrários a Adam Smith com a Teoria da Mão Invisível. Aonde a ganância e o egoísmo conduzem a problemas coletivos. Com certeza o leitor poderá também buscar outros exemplos, apesar disto, o autor, não deixa de ver no livre mercado ainda a melhor alternativa, porém sem a ingenuidade do melhor dos mundos, ciente de que o ego presente no ser humano tende sempre a criar inúmeros casos de danos ao coletivo.