A maçonaria que é alemã de berço

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Por Odair Deters

Acredito que todos que tenham lido ou estudado algo relacionado à maçonaria, sempre se tenham perguntado sobre sua real origem. Na maioria das vezes ela está relacionada a um conhecimento herdado de um passado remoto, seja da Mesopotâmia, Egito ou Caldéia [o que acredito, eu, tenha uma estreita ligação]. No entanto a origem mais aceita é que a maçonaria moderna descende dos antigos construtores de igrejas e catedrais da Idade Média [chamada maçonaria operativa].

É evidente que a falta de documentos e registros dignos de crédito, envolve a maçonaria por vezes numa penumbra histórica, fazendo com que a data tida como a de sua origem seja em 24 de junho de 1717, na Inglaterra. Formando a primeira Grande Loja, composta por quatro Lojas que já existiam, possivelmente então se encontra aí, a existência de uma maçonaria organizada antes da fundação da conhecida primeira Grande Loja [chamada a partir daqui de maçonaria especulativa].

Com a expansão do Império Britânico, as lojas maçônicas tinham dupla função: ofereciam um oásis inglês com jeito de “club” aos aventureiros ingleses que perambulavam pelo Império e os mantinham na linha, obrigados pelas rigorosas regras da maçonaria, e ao mesmo tempo permitia cooptar as elites locais e facilitar o contato dos agentes comerciais ingleses com as classes dominantes das colônias em bases sólidas de confiança fundada o vínculo de fraternidade maçônica.

Neste sentido, o porto hanseático de Hamburgo na Alemanha, estava por sua localização, com estreitas relações com Londres, o que o colocava em relação direta com a maçonaria inglesa. Portanto, relata-se que em sua forma moderna, a maçonaria apareceu nos países germânicos em 1737, data em que a primeira loja é criada em Hamburgo. Conhecida inicialmente como a loja de Hamburgo, ela assume em 1741 o nome de Absalom.

Aqui eu abro um pequeno espaço após esta breve explicação ao leitor sobre o passado maçônico, para discorrer sobre os motivos que levaram o autor a pesquisar este assunto. A pesquisa nasceu indevidamente, em meio aos estudos genealógicos da família a qual herdo o sobrenome [Deters]. Quando encontrei o mais antigo registro deste sobrenome, ainda presente, na igreja St. Martini de Braunschweig [Brunsvique, localizada no Estado da Baixa-Saxônia, Alemanha], onde também pode ser encontrado o primeiro registro do Brasão da Família Deters [com duas facas cruzadas sobre o coração]. Contextualizando um pouco mais: Sobre a cidade e a igreja de Brunsvique, a primeira menção escrita do nome na época, “Brunesguik” foi no ano 1031. Mas em escavações arqueológicas, encontraram nesta região restos de igrejas, as quais se estimam, foram construídas entre os anos 850 e 900. No entanto a igreja de St. Martini começou a ser construída em aproximadamente 1190 e têm registros de sua conclusão em aproximadamente 1225, tendo sido erigida por vontade do Duque Henrique, o Leão, primo do Imperador do Sacro Império Romano, Frederico Barbarossa. E justamente as pesquisas em cima desta igreja, onde econtramos o Brasão dos Deters, e a mais antiga citação desta família, que me conduziram a pesquisar sobre os construtores desta igreja e sobre algumas palavras, que surgiram na pesquisa, como: Steinmetzen, Steinmaurer, Steinhauer, Metzen, Metzel e Bauhütten. Curioso em tentar entender o significado destas palavras, aprofundei a pesquisa e acabei chegando as informações da criação, do que poderíamos chamar de a Primeira e Verdadeira Grande Loja Maçônica.

Para isto, precisamos entender antes, que a difusão do cristianismo [catolicismo] por toda a Alemanha exigia a construção de inúmeras catedrais pelas regiões germânicas, aí é que prosperaram os colégios maçônicos na Alemanha. Onde estas instituições, eram geralmente conhecidos como Steinmetzen, ou Canteiros, algo semelhante às Guildas na Inglaterra ou as Compagnonnage na França. Estas fraternidades maçônicas levantaram igrejas e catedrais por toda a Europa continental. E dentro desta Sociedade de Canteiros, existia uma grande variedade de classes e ocupações. Estas incluíam Steinmaurer ou assentadores de pedras, Steinhauer ou cortadores de pedra, bem como Steinmetzen, uma palavra derivada de Stein ou pedra e Metzen, um derivado da palavra Metzel ou entalhador, uma arte mais detalhada e refinada que os cortadores de pedras. A construção do Bauhütten ou lojas situadas junto às igrejas em construção serviu como estúdio de projeto, local de trabalho e quarto de dormir.

Um dos mais antigos registros de lojas maçônicas se encontra na cidade alemã de Hirschau [atual Hirsau no estado de Baden-Württenberg, Alemanha]. As lojas Maçônicas instituídas na cidade de Hirschau no final do século 11 trabalhavam sob a ordem beneditina da Alemanha, e foram as primeiras a estabelecer o estilo gótico de arquitetura. E a partir de 1149, as primeiras Zünftes alemãs ou sindicatos de pedreiros se desenvolveram em cidades como Würzburg, Speyer e Straßburg [Estrasburgo, hoje França, na época Alemanha] e Magdeburg. Aliás, está última, é a cidade que possui a catedral gótica mais antiga da Alemanha.

Com isto em 1250, surge a primeira Grande Loja dos Maçons, que se formou na cidade de Colônia [Köln]. A Grande Loja foi formada como parte do imenso empreendimento para erguer a catedral de Colônia [a qual eu usaria como imagem para estampar este texto, não fosse à significância do brasão postado, que será explicado em seguida]. A Grande Loja de Colônia, ou Oberhütten, designação também empregada às outras grandes lojas que começaram a surgir em Viena, Berna e Straßburg, onde nesta última ocorreu o primeiro congresso maçônico, no ano de 1275. Outros tantos congressos foram realizados nesta cidade, incluindo os anos de 1498 e 1563. Época na qual os primeiros brasões de Armas de Maçons foram registrados na Alemanha, curiosamente, representando quatro compassos posicionados em torno de um símbolo do sol pagão, e dispostos em forma de suástica ou roda solar ariana, conforme imagem que ilustra esta postagem [e agora, Arnaldo?!]. As Armas Maçônicas da Alemanha, traziam outrora uma suástica e também exibiam o nome de São João Evangelista, santo padroeiro dos maçons alemães.

A Oberhütte [Grande Loja] de Colônia, e seu grão-mestre, era considerada a cabeça das lojas maçônicas de toda a Alemanha do norte. O grão-mestre da Straßburg, era chefe de Lojas Maçônicas de todo sul da Alemanha, Francônia, Baviera, Hesse e as principais áreas da França.

As Grandes Lojas de Maçons na Alemanha recebiam o apoio da Igreja e da Monarquia. O Imperador Maximiliano revisou o congresso maçônico de 1275 em Straßburg e proclamou a sua proteção ao ofício. Entre 1276 e 1281, Rodolfo I [Rudolf] de Habsburgo, um rei alemão [isso, da famosa família Habsburgo], tornou-se membro da Bauhütte ou Loja de St. Stephan. O Rei Rodolfo foi um dos primeiros não-operativos, também chamados membros livres ou especulativos de uma loja maçônica.

Os estatutos dos maçons na Europa foram revisados em 1459 pela Assembleia de Ratisbonne [Regensburg], cuja revisão preliminar tinha ocorrido em Straßburg sete anos antes. As revisões descreviam a exigência de testar irmãos estrangeiros antes de sua aceitação nas lojas através de um método de saudação estabelecido [aparentemente internacional ou europeu].

A primeira assembleia geral de maçons na Europa ocorreu no ano de 1535, na cidade de Colônia, na Alemanha. Ali, o bispo de Colônia, Hermann V, reuniu 19 lojas maçônicas para estabelecer a Carta de Colônia, escrita em latim. As primeiras grandes lojas dos maçons estiveram presentes, o que era costume na época, e incluíam a Grande Loja de Colônia, Straßburg, Viena, Zurique e Magdeburg. A Grande Loja Mãe de Colônia, com o seu grande mestre era considerada a principal Grande Loja da Europa.

Após a invenção da imprensa, os maçons [Steinmetzen] da Alemanha, reuniram-se em Ratisbona em 1464 e imprimiram as primeiras Regras e Estatutos da Fraternidade de Cortadores de Pedra de Straßburg [Ordnung der Steinmetzen]. Estes regulamentos foram aprovados e sancionados pelos Imperadores sucessivos, tais como Carlos V e Ferdinando.

Com o monge alemão Martinho Lutero e seu protesto contra a Igreja Católica em 1517, dando origem ao protestantismo, onde muitas catedrais católicas tornaram-se protestantes, permitindo com que algumas das lojas maçônicas da época fossem liberalizadas.

Em 1563, tiveram-se a renovação dos Decretos e Artigos da Fraternidade de Canteiros na Loja Mãe em Straßburg. Estes regulamentos demonstram elos importantes com a Maçonaria moderna. a) Os aprendizes eram chamados de “livres” na conclusão do serviço a seu Mestre, o que sem dúvida é a origem da palavra Freemason  ou “franco-maçom”; b) A natureza fraternal da loja era retratada em uma série de regulamentações, tais como o atendimento aos doentes, ou a prática de ensinar um irmão sem cobrar [“Nenhum Mestre ensinará um companheiro por dinheiro”]; c) Os maçons utilizavam um aperto de mão secreto como meio de identificação; d) A entrada na Fraternidade era por livre vontade e indicava claramente os três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre na fraternidade maçônica alemã; e) Exigiram que se fizesse um juramento e que os pedreiros se reunissem em grupos chamados ‘Kappitel’ [Capítulo]. As regras instruíam os maçons não ensinar Maçonaria a não-maçons.

Isto evidência, que as lojas ou grandes lojas maçônicas alemãs existiam antes da formação da Grande Loja de Inglaterra em 1717. Assim como o uso de apertos de mão secretos, o uso do termo “livre” e sua aceitação de não-operativos [pessoas que não eram pedreiros]. O uso de alegoria e simbolismo em camadas, que torna exclusivo o sistema maçônico fraternal, também era evidente nas lojas alemãs da época, conforme mostrado com a simbologia presente nas esculturas de pedra e estilos arquitetônicos das igrejas e mosteiros que eles construíram.

Algumas teorias colaboram com as informações acima, e contestam que a Maçonaria moderna, tenha sido originária dos Cavaleiros Templários ou da maçonaria inglesa, mas a ligam a instituições maçônicas que existiam na Alemanha, que por sua, tinham recebido estes conhecimentos de organizações muito mais antigas [99º of Freemasonry, evidencia isto].

Alguns fatos que suportam esta teoria, são: O manuscrito régio, mais antigo reconhecido pela maçonaria, faz referência a quatro mártires coroados, que estão possívelmente relacionados com a lenda dos maçons sob o Sacro Império Romano de Nação Germânica. O uso mais antigo registrado do esquadro e compasso, no escudo de Armas dos Corpos Maçônicos da Alemanha. A existência de lojas[Steinmetzen] no século XIII, que inclusive incluíam ensinamentos alegóricos. Eleição de Grão-Mestres dos maçons, no século XIII e criação de graus de aprendizes, companheiros e mestres no século XII, ou ainda anteriormente. Estabelecimento de estatutos e regulamentos impressos da Ordem antes da criação dos estatutos britânicos. Convite e aceitação de membros não-operativos [especulativos], tal como o Rei Rodolfo I, no século XIII. Primeira exigência em grande escala de lojas utilizando métodos de aperto de mão secretos. Alegoria de símbolos da instituição em obras de arte da cultura alemã do período.

Muito embora, foi-se condicionado como berço das origens da maçonaria mundial, a Inglaterra e a Escócia, devido as grandes organizações modernas e atuais estarem profundamente interligadas a Ilha Britânica, sendo hoje, seu líder o primo da Rainha da Inglaterra, HRH Príncipe Edward, Duke de Kent. Acredito que possa se olhar muito além, analisando a formação da primeira Grande Loja de Colônia, e quem sabe transportando a semente que fez germinar a maçonaria no coração do Velho Continente, para terras germânicas.