Tudo sabia. Mas não sabia que nada sabia.

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Indubitavelmente, para melhorarmos, precisamos conhecer nossos defeitos. Mas este seria o passo inicial, o começo, sendo que a mudança concreta passa a existir a partir do momento em que substituímos o conhecido defeito por uma determinada virtude, contraposta a este. Portanto, qualquer mudança em nossa vida, depende do conhecimento que temos de nós mesmos.

Uma observação franca de nós mesmos, consequentemente nos entrega o fato de que cotidianamente não temos o controle de nós mesmos. Mediante um elogio que recebamos, ficamos animados, alegres e orgulhosos, se contrariamente recebamos uma crítica ou insulto, a tristeza nos toma, o desânimo governa, e não muito raramente, acabamos irados e revidamos. Tornamo-nos vitimas das circunstâncias, a temperatura, o clima, a televisão, as pessoas à nossa volta, influenciam diretamente nossos estados emocionais, e grande parte das vezes, de forma negativa.

Vivemos em oscilações de humor, e constantemente mergulhamos em seus extremos, esta simples oscilação, migra por todos os campos de nossas vontades, assim, somos rotineiramente incapazes de sustentar esforços concentrados por longos períodos, ou manter certas disciplinas. É como se nossa mente fosse um ônibus, cheio de passageiros, e a cada instante um destes passageiros, passa a assumir a condução, em determinados momentos é um desejo em específico, dali a pouco uma inclinação, seguido de uma tendência, sobrepujado por um anseio, advindo por uma capacidade, ao revés de uma qualidade, acompanhado de uma limitação, puxado por uma fraqueza.

O único caminho que se abre, é passar a ter conhecimento da nossa própria ignorância, e que na verdade, não conhecemos muito de nós mesmos. Muito embora seja fácil para alguns leitores contestarem mentalmente esta afirmação, reafirmo, que muito do que conhecemos de nós mesmos, não passam de suposições ou crenças que desenvolvemos ou abraçamos.

Recordo um acontecimento da década passada, quando em uma entrevista de emprego, o empregador, questionou-me, quais seriam meus defeitos. E instantaneamente ficou surpreso, quando eu respondi: “todos”. Como de nada serviria eu dar-lhe o conhecimento medíocre de psicologia que eu acreditava ter, tive que selecionar um trio de defeitos, para deixa-lo satisfeito. Muito embora eu dizia a mim mesmo, que tinha todos os defeitos, isso tão pouco me servia para uma melhora. Quem sabe como passo inicial me era útil abraçar essa crença de que eu era representado e conduzido em grande parte das minhas ações por defeitos ou por uma inteligência subjetiva. Mas precisa algo mais, que era realmente conhecer esses defeitos, sua origem, seu desenvolvimento, seu emaranhamento, e o oposto a sua alimentação, ou seja, a virtude praticada que viria por cortar o alimento à este defeito.

É atribuído a Sócrates [Atenas, 469 a.C. – 399 a.C. Filósofo da Grécia Antiga, creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental], a frase que sintetiza todo este meu texto: “Só sei que nada sei” [Livro A República de Platão]. A frase é simples, mas que acredito ainda, poucos conseguem compreender a fundo o significado. Dos poucos, que conseguem compreender, um grupo menor ainda, consegue manter esta compreensão viva na memória, tornando-a um estilo de vida, de modo a encarar o mundo de forma diferente da visão comum e corrente.

No entanto, experiência viva do autor em inúmeras situações, mesmo que concordemos com esta ideia, no fundo, sempre acreditamos que sabemos algo, e pior, agimos como se soubéssemos tudo. Acreditar que já sabemos é a pedra maior no caminho do conhecimento de si mesmo. Sendo que o conhecimento de nós mesmos enseja o conhecimento de tudo.

De fato nos conhecemos de forma tão limitada. E o fato de darmo-nos conta de nossa própria ignorância é a fonte para encarnar a sabedoria. Assim como exemplo, mais comum para ilustrar, temos no universo do intelectualismo, o fato de que quanto mais estudamos e mais especializados nos tornamos em determinado assunto, mais ânsias de adquirimos novos saberes surgem, e cada vez mais notamos que temos tanto a apreender, o mesmo se reflete no que podemos chamar de espiritual ou pessoal, ou seja, no conhecimento de nós mesmos.

A vida nos apresenta momentaneamente situações, que nos permitem o assombro, tal como uma curiosa criança, e assim podemos ir transformando as situações e pensamentos em oportunidades de nos auto observarmos, de forma a podermos identificar a ação de respectivos defeitos, muitos deles, algumas vezes, tão recorrentes que nem mais os classificamos como defeitos, e em algumas oportunidades até os endeusamos como virtudes. A capacidade de reconhecermos que não sabíamos e ademais, nem sabíamos que nada sabíamos, é toda nossa, o pode ser fonte de uma transformação e aquisição de conhecimentos surpreendentes.

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