Quer aprender, estude por 400 anos.

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Por Odair Deters

O imperador francês, Napoleão Bonaparte, sem auxílio de estudos sociológicos e apelando tão-só à evidência, repetia que a educação de uma pessoa começa 400 anos antes de ela nascer. Apesar de parecer soar um pouco estranha essa afirmação hoje ela recebe o nome de “nomencracia”, e parece ser um fenômeno muito natural.

Recentemente a Universidade da Califórnia, empreendeu um estudo dos nomes de famílias pouco frequentes. Estes nomes são mais facilmente identificáveis nos registros antigos e permitem analisar com facilidade a continuidade familiar, onde se verificou a estabilidade do nível social das famílias, independente do país ou do período histórico considerado.

O estudo [elaborado por Gregory Clark] parece determinar que o sucesso na vida de alguma maneira está determinado pelos ancestrais que viveram há muitos séculos, ou seja, pela tradição familiar. Malgrado as aparências em contrário, a estabilidade das famílias vem de muito longe. O Brasil com seu repeteco de sobrenomes lusos, não é diferente, estudos já comprovaram que os herdeiros das capitanias hereditárias ainda hoje estão no poder no Brasil, fácil de comprovar ao analisarmos as composições das câmaras municipais, que correspondem à porta de entrada mais fácil para os filhos de políticos tradicionais, como forma de perpetuar o poder da família.

Aliado a estes estudos, a revista inglesa The Economist, identificou que são necessários por volta de 300 a 500 anos para que as famílias de classe social elevada ou baixa tenham descendentes capazes de subir ou descer e poder ter igualdade de oportunidades visando os mesmos ordenados.

O estudo efetuado na Califórnia, tomou por base a análise dos antepassados de nobres famílias inglesas, identificando que quem tem um nome de família pouco comum, sobretudo aristocrático, com um antepassado rico em 1800, certamente terá nove vezes mais chances de estudar em Oxford ou Cambridge, e que vai viver dois anos a mais do que a média das pessoas normais na Inglaterra, e ainda vai ser mais rico e terá mais chances de se tornar doutor ou advogado. O professor Clark, demonstrou que em 2011, os nomes de famílias aristocráticas estavam seis vezes mais presentes entre os nomes de advogados, do que os nomes de famílias populares inglesas. E este fenômeno também ocorre na sociedade sueca, considerada um paradigma de sociedade igualitária, com quase total mobilidade social. Na Suécia, entre 70 e 80% das famílias transmitem seu status social de geração em geração durante muitos séculos.

Estas revelações, confirmadas por muitas outras, parecem por em cheque as conquistas das sociedades modernas. O cientista social francês Xavier Molenat, coloca que a ideia de estabelecer igualdade no ponto de partida da educação para que cada um construa seu futuro com igualdade de chances é uma ficção forjada na década de 1960. Para este, a mobilidade social sempre existiu, mas não depende da igualização da sociedade. Sendo que o Estado Previdência e o Sistema Social Igualitário mostraram-se incapazes de impor o igualitarismo social. Hoje, apenas as desigualdades de patrimônio e a propriedade da terra estão um pouco mais distribuídas do que na Idade Média. Mostrando que os esquemas democráticos redistributivos das riquezas não são absolutamente inúteis na tentativa de induzir ao igualitarismo econômico, mas são impotentes contra as desigualdades naturais.

Outros economistas que aplicaram técnicas de análise semelhantes descobriram estabilidades comparáveis. Sejam, na Espanha, na Suécia, na China, ou no Brasil.

No entanto este não deve servir como um desestímulo a educação, mas qualquer crescimento ou reforma, precisa atingir a cabeça das crianças, modificando sua visão do mundo e os objetivos finais de vida, e não falo de uma mudança no cerne da natureza humana em busca do igualitarismo, e sim uma modificação de cada célula humana habitante do sistema. Seria, cada um mudando a si mesmo, transformando-se, para assim impactar no todo. E se a mudança exige que a educação se comece séculos antes do nascimento, porque não começarmos agora. Quem comprovará que não seremos nós mesmos a sermos beneficiados com ela lá na frente?