O Corneteiro morreu.

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Por Odair Deters

Lá pelos idos do ano de 743, os árabes invadiram a península ibérica. Entre sucessivas investidas, em uma delas, os reis espanhóis designaram para o enfrentamento dos árabes Dom Afonso Henriques, que conseguiu por fim, vencer os mouros em 1139 [Batalha de Ourique].

Porém quando os espanhóis achavam que haviam reconquistado o território, Dom Afonso, subitamente declarou que aquelas terras tornar-se-iam um reino, o qual ele seria o rei. E assim nasceu um novo país, chamado Portugal.

Como forma de manter seu império, Dom Afonso tinha que ser tolerante com seus soldados-súditos, então permitia que eles saqueassem a região vencida, porém o saque tinha que ter uma ordem. Nada de bagunça.

Então, após a conquista, um dos soldados era designado como corneteiro. E este, tocava a corneta em sinal de que o momento do saque chegou. A partir dali, até o encerramento com outro toque de corneta, o saque estava liberado. Valia estuprar, roubar, assassinar, e carregar o que fosse possível. Assim que o toque de encerramento era dado, tudo se restabelecia a ordem. E o roubo, estupro e todos os outros atos que caminham juntos, voltavam a serem crimes.

O Brasil veio séculos depois a ser colonizado pelo país inventado por Dom Afonso, e com ele todo o jeito de ser e ver a vida, bem como a cultura portuguesa vieram juntos. Portanto, todas as batalhas dos séculos passados travadas por aqui, existia a figura do corneteiro. Partindo disto, já que o corneteiro não podia fazer o saque, como beneficio, foi criada a regra de que os soldados que fossem músicos [corneteiros] não seriam mortos durante os combates.

Situação que veio a fazer diretamente parte da história brasileira. Inclusive pelo lendário evento ocorrido nas guerras que resultaram na independência do Brasil [1822], principalmente pelo caso conhecido como o “Corneteiro Lopes”. Onde, encontrando-se a Bahia sitiada pelas tropas portuguesas, e já com as forças de resistência enfraquecidas, não tendo mais o que fazer o comandante [General Labatut] ordena que o corneteiro português [Que servia nas fileiras baianas] Luiz Lopes, tocasse a “retirada”. A batalha estava perdida e o jeito era escapar, mas, diz que por falta de entendimento ou mesmo por desobediência, o corneteiro altera para o toque de “avançar cavalaria, a degolar”. O resultado que se viu, foram o desespero e a fuga desordenada das tropas lusitanas que imaginavam que os inimigos já dominados haviam conseguido reforços. Deste modo a Batalha de Pirajá, que marcou a independência Bahiana foi ganha.

Porém anterior ao episódio, em que a tradição jogou contra os portugueses, outro acontecimento, diz-se que ocorreu por aqui, envolvendo um corneteiro, e com impacto muito maior na história e formação do Brasil.

Em uma das batalhas vencidas pelo Rei Luso, ainda contra os indígenas brasileiros, o corneteiro tocou a ordem de “iniciar o saque”, e o roubo público legitimado começou. As tropas tinham direito a saquear, até o corneteiro soar o toque que desce fim ao saque. Mas fruto de algum acontecimento que não sabemos o qual, o corneteiro não conseguiu tocar o “fim do saque”, para encerrar a bandidagem.

Fruto deste acontecimento, e o de até hoje ninguém ter voltado a tocar, anunciando o fim do saque. O Brasil travestiu o saque de corrupção e o institucionalizou nas fissuras de sua cultura. Virou o país do “jeitinho brasileiro”. Cobramos dos outros ouvidos apurados, enquanto o nosso é surdo como o corneteiro que morreu. Tudo é perdoado, desde que não seja descoberto. A culpa não é nossa, cadê o segundo toque? A culpa toda é do corneteiro.

É preciso reeducar nossa tropa, para que juntos, possamos soprar, dentro de nós, aquela maldita corneta. Não haverá por aí alguém que conheça o toque?

 

 

O louco mundo em mudança

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Por Odair Deters

Eis que o sujeito desperta restabelecido de um coma que consumiu 10 anos de sua vida.

A filha já está debutando e quase nem reconhece mais o pai. Será que o esquecimento se deu pela ausência do pai, que estava em coma, ou é um esquecimento característico dos jovens? De quebra o pai fica sabendo que sua linda menina já está namorando, e vem a conhecer, “ela”, a namorada dela. Surpreso, fica sabendo que situação parecida foi tema de recentes novelas, que incentivaram a filha a abandonar o medo e assumir o namoro. Mas superior às transformações culturais, as econômicas são as que despertam fortemente os sentimentos do pai de família. Após os afagos com a esposa, e ao vê-la comentar que não foi fácil manter a família com o salário mínimo vindo do governo. O que permite com que ele questione se o salário mínimo já alcançou os 100 dólares como era promessa de um candidato na época anterior ao seu coma. A esposa comenta que o salário há muito tempo já ultrapassou os 100 dólares – a mais de 8 anos – e que hoje vale bem mais que 300 dólares. O marido não entende como então ela poderia estar falando em dificuldade, após tão grande conquista.

Minutos depois o marido lembra-se da questão tecnológica, e da distração que tinha, assim como os demais amigos, de jogar o jogo da cobrinha no seu celular de telinha amarelada. Pergunta se a filha teria um e se poderia emprestá-lo, ela prontamente alcança um Iphone, e diz que de jogo tem Candy Crush e Angry Birds. O pai ainda sem entender os nomes, começa a tentar acionar um celular sem teclas. Desiste.

A filha já entediada decide ir de ônibus para a casa da namorada, ao que a mãe lhe alcança 10 reais para as passagens. Ele abismado com tanto dinheiro, com certeza a mãe está sendo precavida e querendo já antecipar uma semana de transporte público para a garota. Afinal, a inflação estava sobre controle.

Desacordado tanto tempo, logo quer saber como está o mundo. A guerra do Iraque já terminou? A esposa, responde que sim, de certa forma, e que agora o conflito está na Ucrânia, o marido assombrado, pergunta: Os árabes resolveram invadir a Europa? Só pode. A esposa calmamente responde que não, e que muito longe disto, os únicos que estão tentando invadir o velho continente, parecem ser os americanos.

E meu irmão, que muito queria ir viver nos altos padrões de vida da Irlanda. Certamente está lá? Não, voltou já faz alguns anos, a Irlanda quebrou. A Irlanda e mais alguns quantos países Europeus: Itália, Espanha, Grécia…E voltou com vários amigos europeus que se arranjaram em empresas brasileiras, atualmente 1/25 avos dos novos empregos são preenchidos por estrangeiros.

Ainda pensativo, olha para a sala hospitalar onde repousa, e vê um lindo quadro de vidro escurecido, o qual comenta com a mulher que não entende como a arte parece cada vez mais degenerada. Ao que ela com um comando de voz: “Smart TV ligar” faz a tela de LED se acender. Para surpresa do marido com uma década a menos, aquilo era um televisor. Mas ele se recobra do susto, ao ver que nem tudo muda, lá está a Rede Globo, ainda captando olhares e mentes. Na tela, as imagens de um belo e gigantesco estádio de futebol construído em Manaus, ao que o marido, sobressaltado pergunta se o Nacional ou o São Raimundo foram comprados por algum magnata do petróleo, ou se estão na série A do brasileirão? Tamanho estádio. Ao mesmo tempo que questiona os investimentos que fez de seu FGTS nas ações da Petrobrás, de certo ele tem uma fortuna em alguma conta na Caixa Econômica Federal. Ao que a mulher diz não saber dos times amazonenses, pois não acompanha o futebol, aliás, passado este tempo todo ainda nem veio a entender a regra do impedimento. Mas pelo que comentam não tem time por lá não. O estádio é porque o Brasil vai sediar a Copa do Mundo. Para brilho nos olhos do maridão, ainda mais por saber que lá a frente está o Felipão, bah o homem deve ter ganho as últimas duas copas, só pode. Somos hexa! E quanto a Petrobrás, a mulher alerta, até pode ter um boa reserva, mas fazem 3 anos que ela só dá prejuízo, e é uma empresa com uma das maiores dívidas do mundo.

Ao conseguir a alta do hospital, sai aos passos lentos. E questiona para a mulher com uma cara adversa, se ela continua com aquele problemático carro da década de 90. Ao que ela responde, não agora tenho um carro completo, vidros e travas elétricas, air-bag e todos os demais opcionais. Por um instante ele não entende como teria conseguido dinheiro para comprar um carro destes, tampouco sabe que apesar de barato ele está disponível em 60 parcelas. Quando ela comenta tratar-se de um “Jack”. Ele pergunta é importado? Americano? Ela sim, importado, mas chinês.

Ao entrar no carro, ele diz para a esposa que ainda recorda do telefone dos amigos, e se poderia através do celular dela ligar para eles [claro, desde que ela o ajudasse]. No entanto metade deles dá como inexiste e a outra metade não atendem. Ao que ela comenta: Ninguém mais tem telefone fixo, melhor procurar eles no whatsapp.

No caminho visualizam o café que o marido frequentava, quem sabe poderia ali encontrar alguns amigos dos tempos idos. Na cafeteria, querendo mostrar estar recuperado, solicita dois cafés, um para a esposa e outro para ele. E a moça do caixa pergunta se será débito ou crédito? Meio sem jeito ele caminha com os cafés até a mesa, no qual ao ver a mulher e apesar de amar, não deixa de notar que ela aumentou de peso, e seu cérebro automaticamente faz uma alusão com um recente comentário dela, de que havia comprado um apartamento menor. Quando ele rapidamente pensa, nós crescemos e a casa diminuiu.

Alcança o café para a esposa, procura visualmente alguns amigos, e nada encontra. A cafeteria está cheia, muitas pessoas compartilhado mesas, casais de namorados em algumas, mas ninguém diretamente conversando, todas estão mergulhadas na tela de seus celulares. Que estranho!

Olha para a esposa, em um momento de doce silêncio, afinal sem 10 anos de assunto, não se pode dialogar muito. Para ela o silêncio diante de olhares já é algo incomodativo – tempos atuais – Se ao menos, para puxar assunto, ele soubesse o que está sendo compartilhado no Facebook.

 

O cachorro é o nosso filho, o frango o nosso almoço e o boi o nosso sapato.

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Por Odair Deters

Certa vez minha irmã, quando pequena, decidiu comprar um pintinho, pagou centavos pelo bichinho amarelinho em um agropecuária. Passados alguns dias ele começou a criar penas e a devorar a horta da minha mãe, ocasiões, que lhe garantiram o nome de Radicci [alimento que ele adorava]… E o pintinho virou um baita frangão branco, tão ou mais esperto que um cachorro, atendia chamados, obedecia [ás vezes], nos seguida e virou um xodó. Até o cruel momento em que seu tamanho e o incomodo que causava, fazia com que o imaginássemos misturado com arroz em uma panela. Mas foi cruel ter que acabar com o Frango Radicci, ele já era da família.

Isto me remete a indaga-los: Como comemos uma codorna e não um papagaio? Como fazemos carinho num gato e não num gambá? Mais do que isso, como um laboratório é invadido e destruído para salvar um punhado de cães beagles e um frigorífico ou aviário segue aí com métodos cruéis, enchendo nossas barrigas gordas.

Em nenhum momento quero fazer aqui uma defesa vegana, pois não abro mão do meu churrasco. Mas o ponto é outro. O de que a grande maioria das pessoas morre de amores por um cachorro, mesmo que vira-lata, por um gatinho, por um casal de periquitos. Os classificamos como animais de estimação. Enriquecemos pet shops e veterinários, pois como não tratar bem um membro da nossa família. Mas e porque não os transformamos em nossa próxima janta?

Acredito que em todos os 27 Estados brasileiros, até mesmo em um desabitado Acre, devam existir leis que proíbam qualquer crueldade com animais. Exemplo maior: Os circos, local onde conheci e acariciei um urso polar quando pequeno, ou vi um elefante expirar em algumas pessoas [foi fantástico], também não podem mais usar animais em seus espetáculos.

Agora isto não tem valor, se nos garante carne, leite, ovos ou couro. Aí, podemos sem restrição alguma submeter estes animais a tratamentos que se fossem aplicados a um gato ou cachorro nos levaria a prisão e a humilhação pública.

Temos um bem instituído sistema de fazendas-fábricas que para baratear o custo da alimentação, não tem nenhuma restrição legal em aplicar maus tratos aos animais. E claro, como a indústria sabe que gostamos de animais, o que eles precisam é esconder ao máximo do público como estes animais são tratados. Onde uma galinha de tão confinada, passa a vida inteira sem poder se quer levantar uma asa, ou que perus criam um baita peitoral devido ao confinamento em gaiolas com estatura inferior a eles, e que ambos tem os bicos derretidos em chapas quentes, para não se auto mutilarem em revolta a miserável vida que levam. Nem correrem o risco de se alimentarem umas das outras, pelo incentivo da alimentação animal que lhes é fornecida. Muito comum moerem ossos de bois, para misturar na ração de outros bois em engorda. Tudo pelo objetivo de nos garantir uma refeição mais barata.

Imagens de uma vaca malhada em um pasto verde, ou uma galinha ciscando a terra, simplesmente não podem ser associadas, se nossos produtos foram adquiridos em um supermercado.

Agora, vamos à questão mais intrigante. Imaginem por um momento, que lhes convido para um delicioso jantar. Está entusiasmado? O cardápio, um delicioso arroz com pedaços suculentos de salsicha de labrador e umas patinhas de pug a passarinha. Porque fizeste esta cara de repugnância? Tudo envolve a percepção. No caso deste cardápio, ofereci um estímulo (as carnes de labrador e pug), logo, seu cérebro fez a ligação através das suas percepções e crenças de que isto não era um animal comestível, em seguida lhe veio um pensamento de um cachorro vivo e bonito, o que por consequência, lhe causou esta feição de repugnância através de seus sentimentos, que traria por fim, a sua ação de recusa e relutância em comer. Diferentemente aconteceria na China ou na Coréia, certamente. Onde um cachorrinho vira um prato especial, ou em regiões do Peru, onde um gato pode tornar-se uma iguaria. E bobos são os indianos que não transformam suas vacas em gordas picanhas sobre as brasas de um domingo.

E todas as nossas escolhas estão intrinsicamente ligadas à economia, e por meio das informações que recebemos e que formam a nossa percepção. Posso fazer um joguinho que funcionará com a maioria dos leitores. Se eu lhes pedir para pensar na palavra “enfermagem”, com toda certeza vem em sua mente uma mulher vestida de branco trabalhando em um hospital, mesmo, quando muitos dos profissionais de enfermagem sejam homens e ainda que trabalhem fora de um hospital. Tudo são esquemas. Posso também pedir que pensem em um martelo de alguma cor em específica. Pensaram? Certamente a grande maioria imaginou um martelo da cor vermelha. Isso decorre de generalizações, que nos induzem a certos esquemas. Os esquemas são sistemas de classificações mentais. Assim aprendemos a classificar um animal como presa, predador, praga, bicho de estimação ou comida. E assim caçamos, fugimos, exterminamos, amamos ou comemos [Com uma ou outra sobreposição, em alguns casos].

E nossas percepções são formadas diante de manipulações que sofremos e que direcionam e condicionam nossas reações, criando certa eficiência de mercado. Assim cachorros dão mais dinheiro como animais de estimação do que se resolvêssemos cria-los para o abate e produções de bifes assim como os bois servem mais para churrascos e porcos para bacon.

Afinal comer um punhado de ovas de peixe, é algo pavoroso, até termos conhecimento de que isto é chique e glamoroso e se chama caviar.

 

 

 

 

Como não entender à inflação, com Ana Maria Braga.

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Odair Deters

Sempre tingi críticas a programas de auditório e outros programas de sucesso na TV pública. Querendo ou não são meros programas de descontração, mas ai tem vezes que eles querem fazer o bem público [ou não querem fazê-lo], e invadem áreas e discussões que exigem um pouco mais de conhecimento. E como adoram opinar, principalmente, sobre a economia, parece que todos dominam o assunto, muito possivelmente pela segurança social que o dinheiro representa, como já comentado em meu artigo Instinto Moderno [https://horadomate.wordpress.com/2013/11/05/instinto-moderno/].

Tempos atrás, a Ana Maria Braga [programa que não assisto, mas que de vez em quando pego relances], apareceu usando um colar feito de tomates, devido à inflação que assolava este produto. Porém inflação de um determinado item agrícola, como este fruto, é facilmente corrigível nas safras seguintes. Ela teria usado muito mais proveitosamente eles em uma de suas receitas.

Mas a ideia de ir contra a suas vocações de entretenimento e adentrar o que para muitos parece ser o descomplicado mundo da economia, de imediato, me gera um mau pressentimento. Muito embora eu defenda que economia, política e religião devam sim ser discutidas. O fato de proibir que alguns assuntos sejam discutidos remete a uma concepção que nos foi criada durante a inquisição. Então todos os assuntos merecem ser objeto de nossos estudos. Até mesmo a lúgubre ciência econômica.

Porém não temos o direito de dizer que conhecemos um determinado assunto, unicamente pelo fato dele ser vulgarizado pela mídia. E neste sentido, acho que não tenho sorte nas vezes em que pego relances do programa da Ana Maria. Olho e lá está ela envolvida com a questão econômica. Não sei se a economia é um assunto tão presente no programa matutino, ou se por estar familiarizado com o tema, acabo identificando ele em diversas ocasiões. Mas eis que nossa apresentadora, defendendo as donas de casa, resolveu trazer a tona o abusivo aumento das mensalidades escolares. Que não sei onde, acho que em São Paulo, teria subido absurdos 12%. Os diretores das escolas foram taxados de gananciosos e indiferentes, pois estavam aumentando as mensalidades em 12% em um período no qual a inflação divulgada pelos órgãos oficiais era de apenas 6,5%. Estes queriam lucrar ao reajustar as mensalidades escolares para quase o dobro da inflação do período.

Mas imagino que ninguém tenha explicado a Dona Ana Maria, que a inflação oficial é constituída de um índice de preços, por exemplo, o IPCA. Este índice é uma média ponderada de diversos preços. Neste caso tendo como base o orçamento de famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos. Na composição deste índice, entram vários preços tomados, como: o açúcar cristal, o tomate, o cigarro, as passagens aéreas, o cafezinho, o estacionamento, a lavadora de roupas, o feijão, o transporte e as mensalidades escolares, dentre muitos outros itens.

Aqui entra a questão principal, de que a escola, tem que responder á variação nos seus custos e em sua demanda, e não à variação do IPCA, que é um índice de preços ao consumidor. A própria mensalidade escolar é um dos componentes do índice. Portanto a inflação no período de 6,5% foi em parte pelo reajuste de 12% das mensalidades escolares, como pelos 40% do alho, pelos 38% da cebola, pelos 200% do tomate. As escolas nunca enfrentaram gastos semelhantes à cesta de bens e serviços às quais as famílias se submetem.

Fora o fato de que cada pessoa tem sua própria cesta de produtos e serviços, ou seja, o impacto da inflação é diferente para cada consumidor. Houve momento em que o cigarro foi o vilão, e, portanto não fui impacto, assim como o preço das mensalidades não me afetou, no entanto com o aumento dos tomates, cebolas e alhos, fui vitima direta.

Agora imagine qual vai ser o assunto da desavisada da sua vizinha na próxima roda de mate, após assistir Ana Maria Braga. Para a apresentadora, alguns produtores e prestadores de serviços são muito gananciosos e quiseram ganhar mais do que a inflação, enquanto que outros reajustaram seus produtos, abaixo da média, preocupados com o bem dos consumidores. Diante deste terrorismo, jamais o cidadão normal deste país vai entender o que é a tão comentada inflação.

E o jornaleiro enganou o sujeito (i)racional

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Odair Deters

E aí sujeito racional! Racional?

Digamos que você deseja assinar um jornal, pegamos por exemplo o Jornal “O Bairrista”. Sucesso no Rio Grande do Sul.

Suponhamos, que o jornal O Bairrista tenha três opções de assinatura:

a)      Assinatura online por R$ 29,90

b)      Assinatura impressa por R$ 59,90

c)      Assinatura impressa + Versão online por R$ 59,90

Qual opção você escolheria?

Acreditem, um estudo similar, não usando O Bairrista, mas sim a The Economist, mostrou que 84% das pessoas escolheram a assinatura impressa + online e 16% a assinatura online.  Isto é, as pessoas, na média, preferiram a opção “c” à opção “a”. Ninguém escolheu a opção “b”, afinal, não faria sentido pagar R$ 59,90 para ter somente a assinatura impressa tendo em vista que, pelo mesmo preço, você pode ter as duas assinaturas, mesmo que você não pretendesse acessar o jornal na versão online.

Agora imagine que o Bairrista forneça apenas duas opções:

a) Assinatura online por R$ 29,90

c) Assinatura impressa + Versão online por R$ 59,90

Isto faria alguma diferença na sua escolha?

Neste mesmo estudo, ao apresentar apenas as duas opções, as preferências mudaram! 32% das participantes escolheram a assinatura impressa + online e 68% a assinatura online. Isto é, agora as pessoas preferem “c” a “a”.

Ocorre que houve uma violação na consistência das preferências. Acontece que o comportamento das pessoas, em geral, não está associado a uma grande habilidade para comparar preços de forma absoluta, mas sim, de forma relativa. Portanto, pagar R$ 59,90 por uma assinatura impressa e online é um bom negócio?  Olhando apenas as duas opções, “a” e “c”,  pode parecer caro, pois esta opção é mais do que o dobro da outra, em um mundo em migração para o digital. Mas, ao colocar a opção “b”  com o mesmo preço da opção “c”, isso induz o consumidor a achar que, ao escolher “c”, está levando de graça a assinatura online , e em nossas cabeças, esta opção passa a ser um excelente negócio. E nós passamos a usar e abusar da nossa irracionalidade. O jornal passa a vender mais edições impressas, o que neste caso era o seu objetivo. Portanto aquela história de que em economia somos sujeitos racionais perde força.

Cabe, em tempo, um esclarecimento, de que, Sim, o bairrista, até onde eu sei, tem somente edição on-line. Mas o usamos como exemplo para trazer o problema para próximo do nosso dia-a-dia. Afinal quantos produtos não compramos pois levamos outros de brinde graças a esta compra. Será que seria “de brinde”?

Passagem do Monge João Maria

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Odair Deters

João Maria é o nome pelo qual ficou conhecido, um mestre que andou pelas terras do Sul do Brasil, residindo principalmente no Rio Grande do Sul. Por alguns, tido como discípulo de Jacobina Mentz Maurer, dos Muckers, por outros, como sendo um nascido no oriente médio e que não se sabe como veio parar no Brasil e em alguns relatos, mesclando estes dois arranjos. Foi um grande sábio que levou esperança a um povo humilde em uma época conflituosa do século XIV. Tem-se um relato em 1897, onde diria sobre seu nascimento: “Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires” [não seria este relato possuidor de um grande simbolismo?].

Eis que no início do Século XX [1911] reaparece um ser, que toma os aspectos deste, mas que não passava, conforme atribuído por historiadores, de um ex-militar, desertor condenado por estupro, que com a roupagem do velho monge, provocou a eclosão da Guerra do Contestado. Cabe ressaltar que este monge mais moderno, chamado normalmente de José Maria, nada tem a ver com o primeiro.

Ao primeiro, inúmeros relatos surpreendentes lhe são atribuídos por pessoas simples do interior dos 3 Estados sulinos, que ainda hoje o reverenciam de certa forma.

Conta-se que certa feita, quando na beira de uma pequena sanga, reuniu-se com alguns jovens sedentos de inquietudes. Apesar das inquietudes espirituais destes jovens aldeões, a filosofia pregada pelo Monge, que consistia em uma libertação radical, que os livrasse de todas as ilusões, assustava de certa forma os atentos jovens. Tanto que um deles indagou o Monge “Caro senhor,…o senhor tem me demonstrado através de seus exemplos, verdades incontestáveis, fala nos de libertarmos e vermos além, algo que tampouco conseguimos imaginar, mas para isto, temos que renunciar a tudo e a todos. Porque necessitamos esta renúncia? Como, por exemplo, momentos tão alegres, me possam ser tão danosos?”

O Monge calmamente recolheu um pouco da água cristalina da sanga, e a colocou sobre o fogo, enquanto refletia sobre uma resposta ao jovem inquiridor. E instantes depois começou a relatar uma história, mais ou menos da seguinte forma: Certa vez, um ousado aventureiro precisava através todo o Continente de São Pedro [Rio Grande do Sul], e a travessia envolvia, desde trilhas, até mesmo áreas de matas nunca antes desbravadas, muito densas, ao ponto de ocultarem até mesmo a luz do sol. No entanto ia ele feliz com seu empreendimento, sem ter que se preocupar com a pressa, admirava os animais, as plantas e os aromas que ia conhecendo. Era primavera e tudo exalava vida. No entanto, a alegria e despreocupação que lhe acompanhavam, de súbito desapareceram, quando este se viu acuado por uma onça-baia [leão-baio, puma], que dali em diante buscaria transformar o ousado aventureiro em uma deliciosa refeição.

Para o aventureiro, não restou outra opção que sair correndo, sendo seguido ferozmente pela onça. Enquanto fugia, livrar-se desta perseguição e sofrimento era o único que importava, e a cada baforada da onça que vinha logo atrás, lágrimas de desespero já escorriam de seus olhos.

Em determinado momento, a onça, chegou muito próximo, e atacou o aventureiro com suas garras e dentes, atingindo e rasgando a mala-de-garupa [espécie de mochila] que o aventureiro carregava, mas este não parou de correr, e com o rasgo, todos os seus pertences iam caindo pelo chão, com isto a onça perdeu um pouco a velocidade, atrapalhada pelos objetos que se desprendiam do aventureiro. Desesperado em salvar sua vida, pouco se preocupava com os objetos, e seguia em escapada. Mas logo à frente, depara-se com um derradeiro recorte na Serra, um despenhadeiro, com vários metros de largura e profundidade, impossível de atravessar saltando.

Com os olhos aguçados pelo instinto de sobrevivência, enxergou vestígios de uma pequena pinguela, pensou em usá-la, mas só restavam pedaços de frágeis de cordas desgastadas pelo tempo e quase imprestáveis, penduradas, como se fossem cipós, evidenciando que outrora uma pequena ponte existia no local. Ficando sem muita opção. Não parecendo ter melhor alternativa, fez uso de um destes pedaços de corda, que se não o colocar do outro lado, pode ao menos aproximá-lo da extremidade inferior do desfiladeiro, lhe colocando a possibilidade de escalar o mesmo pelo lado contrário que se encontra a onça, o que permitiria fazer com que seguisse sua jornada longe do felino que o atacara.

Eis que o aventureiro salta com toda determinação e coragem que lhe restam, e apesar do forte tranco, vê se momentaneamente salvo, pendurado em um pedaço de corda, tentando alcançar a outra margem no momento em que vê o antigo perseguidor apontar na ribanceira oposta. No entanto o grande felino não quer perder sua refeição tão fácil, e fica com suas patas tentando vitimar o aventureiro que balança, ora tentando ir de encontro à outra margem, que lhe colocaria em segurança, ora mais próximo das garras afiadas que o querem. Como alcançar a outra margem está um tanto difícil, pois a cada tentativa fica também mais próximo da boca da onça, o mesmo pensa em optar por descer através da corda, alguns metros até o fundo do desfiladeiro, então para de se balançar e quando olha para baixo com mais calma, antes de iniciar a descida, para sua agonia, observa no fundo da fenda outras duas onças, já a espera dele. Se já estava difícil escapar de uma onça, agora eram duas.

Neste momento ele agarra-se com mais força a corda, e vê como alternativa subir até os galhos que a prendem, quando observa que na ponta da amarra, não podendo esperar maior falta de sorte, vê dois ratos, um branco e outro preto que estão a roer a corda. Sem perder tempo, tenta subir o mais depressa possível pela corda, antes que os roedores o coloquem em contato com as onças que o espreitam. Mas suas mãos suadas pela angústia o fazem escorregar. Neste macabro momento, ele olha os ratos a roer incessantemente sua última tentativa de manter-se vivo, em uma margem uma onça faminta, abaixo outras duas onças rugindo a sua espera. Um único sentimento lhe toma conta – o medo – e o suor escorre por todo o seu corpo, é subir ou morrer. Usando toda a sua força na subida, faz com que os galhos da árvore que sustentam a corda, se sacudam. E os movimentos nos galhos, provocam balanços em uma cachopa de abelhas, da qual escorre uma porção de mel. O aventureiro que estava a subir, com a boca ofegante, recebe o brinde de umas gotas de mel em sua boca. Aquele pouco e doce mel que lhe cai na boca, permite com que esqueça por um instante, todo o sofrimento. Não se preocupa por um momento com as onças, os ratos, a escorregadia corda em que se firma. Aquele pouco mel que lhe pingou na boca, por um instante, ganha toda a sua atenção.

Porém após tão breve momento de prazer, ele volta à dura realidade, não tendo noção de quanto tempo ficou distraído com a gota de mel, mas parece ter sido tempo suficiente para os ratos darem cabo de roer a corda, amaldiçoando sua própria falta de sensatez, sente a leveza da corda que cede, e ele cai, podendo unicamente sentir as onças que o aguardavam o devorar.

Então o Monge retornou o olhar para o jovem que o indagava, afirmou que o relato era verdadeiro e perguntou o que ele achava deste relato. O ouvinte menciona que está história é um tanto triste, e não gostaria nem para os piores moradores da região. O velho Monge dá um leve sorriso e começa um novo relato.

Em que o aventureiro relatado é todo homem ou mulher que nasce e vive neste mundo desde tenra infância até a velhice. A mata fechada é o mundo material e suas maravilhas, e atravessar a mata, representa os caminhos que temos, com todas as suas possibilidades e limitações. Em nenhum momento existe liberdade total, apenas uma liberdade aparente, pois desde o nascimento, precisamos construir a nossa vida dentro de certas possibilidades, fornecidas pelos nossos ancestrais e pela sociedade a qual nascemos. O aventureiro no percurso poderia criar uma nova trilha, a custa de maiores dificuldades ou buscar trilhas que outras pessoas criaram no passado. E ao iniciar a sua caminhada o aventureiro está feliz, se maravilha com cada achado que a natureza lhe fornece. Uma alusão à infância dos homens e mulheres, período de ingenuidade, despreocupados de tudo, tanto que aqui necessariamente dependem dos pais para sustenta-los, ou morreriam.

Mas as crianças crescem, tornam-se jovens, e aí percebem aos poucos como a vida na realidade é dura, não é fácil ficar vivo, e é preciso lutar diariamente. Esse é o instante em que a onça o ataca ferozmente, não sendo ela, nada mais, do que a representação da morte, e é inegável, que mais cedo ou mais tarde ela o alcançara. As baforadas sentidas no inicio da fuga, nada mais representam do que a fragilidade que as pessoas possuem durante a sua infância e inicio da adolescência, onde os corpos em formação são uma desvantagem frente ao mundo e os adultos. Tornando a morte muito próxima para quem se é muito jovem. Até que o ataque do tigre atinge a mochila com os pertences e desacelera a sua perseguição. Um clara representação das primeiras desilusões que todos vamos tendo, e que toda aquela visão maravilhosa do mundo vai sendo abandonada à medida que a fase adulta espreita. E ao abandonar estas fantasias, permite com que aumentem as chances da pessoa sobreviver na fase seguinte. Se o aventureiro resolver catar seus objetos que caem, mais facilmente será abatido pela dureza da sua existência. Indiferente de se ser rico ou pobre, de ter uma fazenda, ou ocupar a beira de uma sanga, carregando consigo todos os seus pertences, que pouco representam [alusão a vida que o próprio Monge levava].

Ao se distanciar um pouco da onça e ingressar na fase adulta, afasta-se um pouco da morte, mesmo assim suas expectativas não continuam muito melhores. Neste momento preocupamo-nos com o que faremos na nossa velhice, e quanto mais nos aproximamos dela, mais nos damos conta da gravidade da situação, e de que o precipício é muito largo, não há como pular. O jeito é virar e encarar a onça que se aproxima, numa representação de quando temos que nos virar para no auto-sustentarmos, não se conta mais com pais para proteção, moradia, comida e roupas. Aqui a pessoa começa a trabalhar ou a cultivar sua própria terra. O jeito é agarrar-se a corda, que representa o fio tênue da vida, a árvore do qual a corda pende, representa Deus.

Para escapar da miséria a qual se encontra, e fugir dos sofrimentos físicos e emocionais, precisamos alcançar a árvore. Mas a corda que nos leva é escorregadia, e representa as diversas dificuldades que temos que enfrentar. Ao olhar para baixo, na esperança de descer e escapar vê que outras duas onças o espreitam, simbolizando a fatalidade intransponível da vida, que sempre acaba em morte. Indiferente da luta, a morte chegará, mais cedo ou mais tarde. Mas a esperança existe e ao olhar para cima, na tentativa de subir pela corda, para chegar ao galho da árvore, nota que um rato branco e outro preto estão a roer a corda. Simbolismo do tempo, sendo o rato branco o dia e o preto a noite. Os anos vão passando, com o dia e a noite se alternando, levando embora a vitalidade, a saúde, a sanidade e todas as forças das pessoas.

Faz-se necessário agir o mais rápido possível, se quiser alcançar a divindade, o galho salvador. Mas no meio de toda a loucura, algumas gotas de mel caem na boca do aventureiro, o deixando extasiado, nesse momento de êxtase ele simplesmente esquece todo o perigo, toda a urgência, todo o esforço que precisa fazer, ele não lembra mais das onças, nem dos ratos que estão roendo sua única forma de salvação. Apenas o doce mel e seu prazer o dominam. Aqui nada mais temos que a representação dos efêmeros prazeres que as pessoas sorvem, tal como a comida, as festas e principalmente o sexo. Ao terminar o prazer da gota de mel, o aventureiro volta à realidade e se arrepende profundamente, pois perdeu muito de seu tempo com a misera gota adocicada, e agora só o amargo arrependimento o domina, pois os ratos já terminaram seus serviços, levando o aventureiro a ser devorado pela morte.

O Monge, para finalizar, disse que, essa insensata trajetória nada mais é do que um circulo vicioso, pelo qual passamos muitas vezes, enquanto não nos acordarmos. E questionou o jovem, se este havia entendido a necessidade de renunciar a tudo? Virando-se o velho monge ainda comenta que a água colocada sob o fogo, já está quase fervendo, e convidou-o a tomar um mate com ele, como era seu hábito. Enquanto o jovem balançava suavemente a cabeça em sinal de concordância, despertando agora para uma nova realidade.