Não tinha nada, mas perdeu tudo com a enchente.

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Por Odair Deters

No Brasil, as enchentes atingem algumas regiões, em outras as encostas dos morros desmoronam, e noutros locais a terra se torna árida. E é preciso ter uma alma muito fria para não ficar sensibilizado ao vermos na televisão, todas estas catástrofes e as famílias que se tornam vítimas. Acima de tudo, pois geralmente os atingidos são pobres.

Mas o Governo de certa forma está preparado para socorrer as vítimas. Facilmente destinam-se alguns milhões em ajuda e incentivos para os afetados. Mas e se analisarmos as consequências deste benemérito ato governamental?

As famílias pobres [me nego a chama-los de humildes] precisam em muito controlar seu orçamento. Assim as suas aquisições geralmente são de produtos mais baratos, sejam roupas, alimentos ou mesmo moradias. E este “mais barato” os condiciona a virem muitas vezes a residir em áreas de risco, sujeitas a inundações e desmoronamentos, ou até mesmo no árido sertão nordestino. Arriscando-se assim a uma eventual devastação diante de eventos da Natureza, se o imóvel for suficientemente barato. Então normalmente numa enchente os mais afetados, são as populações mais pobres.

Todas as cidades possuem seus riscos, alguns bairros dentro das cidades, apresentam riscos maiores que outros, tal como, cada local também apresenta seus confortos e claro seus preços de moradia. As pessoas podem fazer escolhas de onde viver. Seja morando em um lugar barato, embora perigoso, pagando menos para isto. Podendo inclusive como é comum no Brasil, invadir uma determinada área e diminuir ainda mais o custo da moradia. Como poderiam optar por residir em outros locais, arcando com um preço maior para isto. Notamos aqui claramente que o risco afeta diretamente o preço de um imóvel.

No entanto as políticas de auxilio pós-catástrofes que os governos das 3 esferas costumam empregar, tendem a eliminar essa escolha, brindando muitas pessoas aos riscos de inundações e inclusive, fazendo com que imóveis em áreas de risco sofram valorização. Se as ações do Governo ao invés de beneficiar os atingidos, fossem destinadas a diminuir o preço [facilidades] para que residências fossem ocupadas/construídas em locais que ofereçam menos riscos. Assim você poderia escapar do risco de uma inundação, mudando-se para outro bairro, cidade ou mesmo Estado.

Os milhões em ajuda mantêm os necessitados em áreas críticas e continua a fomentar novas residências em áreas de risco, e ainda taxam em tributos aqueles que optaram por pagar mais para viver em uma região mais segura, unicamente pelo risco assumido por outros.

As pessoas pobres buscam de forma desproporcional, moradias baratas, e elas são prejudicadas de maneira proporcional quando políticas de assistência como as que normalmente os governos empregam para as vítimas de catástrofes, e que continuam a gerar valorização para suas moradias. Tornando mais cara sua residência e não diminuindo o problema.

Claro, incentivar as pessoas a se realocarem, por exemplo, em outra cidade, induz a um custo de desenvolvimento que permita a empregabilidade destas pessoas lá. Sim, nossa maior preocupação é que as pessoas pobres não deveriam ser tão pobres, mas não devemos esperar pela enchente para abordarmos esta questão.

Então, quando ocorre uma enchente ou o desmoronamento em uma área, e os governos fornecem ajuda a estes menos favorecidos; estaríamos mudando a realidade deles para melhor? Ao estarmos tirando recursos que poderiam ser empregados de outra forma, estamos encarecendo os imóveis das regiões catastróficas onde estes residem, dificultando o abandono e ainda incentivando com isto a expansão de ocupação destas regiões.

Mas não podemos recusar de ajudar os pobres desabrigados nestes casos. Sim, com certeza seria perfeito darmos uma vaquinha holandesa com largos ubres para todos mamarem. Mas ao assegurar à assistência as populações que vivem em áreas sujeitas a inundações, afetamos estas mesmas pessoas, em tributações e no encarecimento de suas próprias moradias. Estranho, mas ao ajudar um pobre, de maneiras como esta só estamos lançando um fardo maior ainda sobre eles. São benefícios cheios de prejuízos, justamente sobre os que nada tinham, mas que perderam tudo com a enchente.

A igualdade do bocó

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Por Odair Deters

Parece estar faltando um pouco de entendimento de economia a boa parte dos brasileiros. Simples, se entendessem um pouco mais do funcionamento do mercado livre, saberiam que certas discriminações aos consumidores melhoram o uso dos recursos escassos.

Causou alvoroço recentemente uma denúncia em rede nacional de jornalismo, de que um curso pré-vestibular estava cobrando preços diferenciados para os alunos ocuparem determinadas classes, conforme a disposição delas nas salas de aulas. Quanto mais próximo do professor, mais caro custava o acento.

Quem quisesse ficar nas primeiras filas na sala de aula, teria que comprar o que a escola chamava de “assento personalizado”. A sala tinha um total de 300 cadeiras, separadas em 3 conjuntos de 100 cadeiras cada. Sendo que fica difícil o aluno prestar atenção em uma sala de aula com 300 alunos. Entre optar por diminuir a turma, a escola resolveu cobrar por um acento privilegiado, tal como ocorre em um voo, onde se pode por alguns reais a mais, optar por um acento com um pouco mais de espaço. Neste caso os alunos que optavam por sentar mais próximo do professor, pagariam mais. Assim um aluno que optasse por chegar mais tarde à aula, teria um lugar a seu contento, para isto necessitava desembolsar uma quantia a mais de dinheiro. Isso não foi algo arbitrário e abusivo, o curso dispôs alternativas de assento, a contento do aluno, e teve interessados em ambos.

Claro, em se julgar por Brasil, advinha onde isso foi parar? Nos órgãos de defesa do consumidor, gerando reações do PROCON e do Ministério Público, e claro no nosso medíocre jornalismo. E a escola em questão teve que parar com a prática.

No entanto os reclamantes em questão será que nunca foram em um show musical, onde existem fileiras VIPs – um tanto mais caras – ou em estádios de futebol, sambódromos, ou nunca realizaram viagens de avião? Por que raios só algumas atividades podem ser consideradas ilegais?

Ora, ocorre que no Brasil, prevalece sempre uma medíocre mentalidade igualitarista, fruto de um coletivismo socialista, cujo alvo é nivelar as pessoas em todos os aspectos da vida. Aqui me lembro de um treinador de rugby [estrangeiro] que tive, que em certo treino disse que deveríamos nos nivelar pelos melhores condicionados fisicamente, e que os que estavam abaixo e possuíam um tempo maior de realização das provas, logo, teriam menor tempo de descanso entre um e outro exercício, logo isto exigia mais dos menos preparados. Mas infelizmente no Brasil a melhor alternativa é sempre nivelar por baixo.

Casos como o deste curso se assemelham a medidas que frequentemente são impostas pelo Governo, como querer emplacar a lei do Marco Civil da Internet, uma expressão bonita o suficiente para acobertar uma censura, e fazer com que todos tenham a mesma velocidade de tráfego de dados. Ou o Estatuto do desarmamento, que remove a capacidade de um cidadão se auto defender, quando mais do que comprovado se mostra que o problema não é o fato de possuir armas, e sim quem as possui. Também recentemente a campanha de vacinação contra o HPV, ou seja, eles automaticamente estão condicionando que todas as menininhas entre 11 e 13 anos são ativas sexualmente e que estão a contrair diversas doenças.

Assim como estas medidas, muitos louvam o fato de proibirem o sistema de cobrança de assentos privilegiados do cursinho citado. E não se dão conta, em sua ignorância, que casos de discriminação como estes do mercado, trazem benefícios.

As discriminações existem, por uma questão fundamental da teoria econômica. A de que os recursos são escassos. Dentro desta teoria mãe da economia, existem os preços diferenciados para regular a demanda. Existem então restrições para os consumidores, situações que permitem aos que mais necessitam determinados bens [ou serviços], pagarem mais. E este simples fato faz com que o preço torne-se mais barato para os demais.

Logo, por mais pobre que eu seja, posso ir ao mercado e pedir aquele belo pedaço de picanha, sou livre para escolher entre a picanha e a carne do pescoço do boi. Mas para isso terei que arcar com um diferencial no preço. Agora se todos os pedaços do boi passarem a ter o mesmo preço, sem sombra de dúvida, pobre algum teria acesso aos cortes tidos como nobres. Processos similares podemos dizer que existem com os acentos grátis em viagens para idosos, ou a meia-entrada nos cinemas em que os custos são jogados para os outros passageiros ou espectadores.
Portanto as descriminações praticadas pelo mercado apresentam consequências benéficas para os consumidores, muito diferente das discriminações impostas pelo Governo, que sempre costumam serem voltadas para o atendimento de determinados grupos de interesse. Afinal, qualquer aluno poderia aceitar no caso deste curso, pagar ou não pelas cadeiras mais valorizadas, ou ainda, procurar outro curso que atendesse melhor suas expectativas. Afinal, as discriminações que o mercado impinge necessitam do aceite dos consumidores, bem diferente das discriminações praticadas pelo governo. Nada melhor então, antes de questionarmos as discriminações do mercado, nos atentarmos a analisar melhor as situações e não sermos bocós querendo igualdade.

Vamos jogar Atari e assistir o Jaspion? A economia da calda.

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Por Odair Deters

Jaspion, Jiban, Spielvan, Changeman, Flashman, Spectreman, Cybercop, Lion Man, Jiraya, Black Kamer Rider, Winspector, Solbrain, Google Five, Metalder e MachineMan…Se você está na faixa dos 30 anos sabe do que estou falando; caso contrário eu apenas adianto que todos estes foram fantásticos super-heróis japoneses que entretiveram a criançada na inicio da década de 90. Eis que recentemente após uma saudosa conversa com alguns amigos, relembrando estes seriados japoneses, fui para a rede mundial de computadores atrás de alguns vídeos. Encontrei muita coisa. Entre meus achados uma página que oferecia DVDs com todos os episódios destes heróis, no cabeçalho da página havia à inscrição: “Faça seu pai feliz, presenteando ele com seus heróis favoritos”. Eu que ainda canto a juventude, me senti num piscar de olho muito velho.

E exatamente sobre este fenômeno – não o de estar envelhecendo – e sim o de encontrar algo deste estilo, um produto que ninguém gostaria de ter em seus estoques por longos anos, simplesmente esperando que uma criança descobrisse ser este o esquecido herói de grandes feitos que acompanharam a infância de seu pai, que foi definido como o efeito “Cauda Longa” na economia.

Este efeito identifica que a economia está mudando seu foco de atenção dos megassucessos de massa, para os nichos de consumo. Dentro deste conceito, a economia tradicional [economia de escassez] começa a dar espaço para uma nova economia [a economia da abundância]. No modelo “antigo”, a produção e a distribuição de produtos custa caro, e então, todos os esforços são concentrados em produzir e distribuir produtos com forte apelo popular. E desde que começaram a moverem-se as engrenagens da Revolução Industrial, fomos submetidos a essa economia de massa.

No entanto, na nova economia, com custos reduzidos de produção e distribuição, há espaço para que os produtos afastados da “cabeça” da curva, isto é, os produtos que não são megassucessos. Os que em um gráfico ocupam aquele espaço representado pela extensão da curva em declínio, chamados de calda longa pelo jornalista Chirs Anderson, em seu livro: A Cauda Longa – Do mercado de Massa Para o Mercado de Nicho.

Basicamente este fenômeno ocorre devido à tecnologia, que garante uma facilidade e redução nos custos de produção. Pela Web, que faz com que o consumidor tenha acesso fácil a todos os produtos. E um último fator interessante de ser citado, é o fato de que a facilidade de busca e principalmente as recomendações fazem com que a demanda se espalhe pela cauda da curva, não estando mais limita à meia dúzia de sucessos estrondosos.

Basicamente parece que este conceito está relacionado a produtos da era digital, como músicas e filmes. Pois bastaria apertar o botão para iniciar o download e em segundos ou minutos estamos com o produto em nosso disco rígido. Mas posso citar o exemplo recente, em que consegui moedas islandesas para minha coleção, compradas em uma página chinesa na internet. Ou o sistema de recomendações que se instalou, e atende ao fato de que todos gostamos de dar palpites e achamos que temos opiniões inteligentes e importantes sobre os produtos que consumimos. Colabora também diretamente, a tecnologia, afinal quando compramos um livro pela internet, logo abaixo aparecem recomendações como: “leitores que compraram este livro também compraram [título de um livro qualquer]”. E vamos entrando em contato com produtos antes desconhecidos. Não convivemos mais com a meia dúzia de sucessos estrondosos. Felizmente no meu caso, estou livre de ter que escutar somente um sertanejo universitário ou um funk carioca, e consigo facilmente um CD com músicas guaranis ou uma valsa do André Rieu. Enquanto que um morador de uma cidade qualquer no interior do RS pode adquirir o mais recente “batidão” carioca.  Aliás, cabe citar o comentário interessante que uma amiga me fez em um café, em que ela acredita [e eu achei bacana a ideia] que estamos migrando de um mercado da propaganda para o da indicação.

E uma evidência de que esta nova economia não se resume unicamente a produtos digitais, pode ser o do Atari. Atari fora um console, fora de circulação há uns 20 anos, mas com um séquito de fiéis. Quando estava entrando na minha adolescência, busquei vender meu Atari, consegui com muito esforço negociar ele na época por R$ 3,50, se inflacionarmos até hoje, podemos dizer que quando muito, o vendi por uns R$ 20,00. Mas buscando em sites como MercadoLivre,  os modelos mais baratos que encontramos, hoje, estão na faixa dos R$ 500,00. Isso nos mostra que ainda hoje existe uma demanda para estes, e o mais interessante é que os fiéis do extinto Atari, ainda estão a consumir cartuchos e jogos antigos e – pasmem – novos também. Existem programadores que produzem novos jogos e distribuem os cartuchos fabricados, atendendo um nicho de mercado que antes seria impossível de ser encontrado. E eles existem graças à Web, e os vários sistemas de recomendações, principalmente blogs, que imprimem um papel primordial na disseminação de recomendações confiáveis. Esta nova economia se aproveita de nichos. Hoje através da Web, o mercado consumidor passou a ser o mundo.

O problema está na plateia.

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Por Odair Deters

O Brasil sempre foi um grande circo, seja ele político, econômico, social. Circo do qual batem palmas uma grande plateia.

E entre a plateia, tempos atrás fui cruel com uma amiga. Estava ela a reclamar de algumas questões políticas, quando aproveitei a oportunidade para de forma que parecia despretensiosa, lhe pedir, se sabia me dizer o nome de um dos personagens do programa Big Brother Brasil [BBB]. Rapidamente ela esqueceu as questões que reclamava e não me citou apenas um nome, foram vários, quando estava pelo 5º ou 6º personagem, pedi que parasse. No mesmo momento lhe pedi qual era o nome do atual vice-governador do RS. Ela foi tomada de súbito espanto, mantendo um quase eterno silêncio. [aos que também se mantiveram pensativos, informo que o atual é Jorge Alberto Duarte Grill, mais conhecido como Beto Grill]

Com base nisto, podemos observar, que das transformações que nosso país enfrenta a pior delas, é claramente a de inversão de valores. Não nos preocupamos em aplaudir as coisas erradas, ou darmos ibope a pessoas que não o merecem. E no final, ainda reclamamos.

Se temos um bando de homossexuais se beijando na novela, uma marcha de vadias no Rio de Janeiro, uma de maconheiros sei lá onde, outros roubando cachorrinhos beagle, traficantes de morros se achando heróis no noticiário, ou a loiraça do BBB mostrando a xoxota. Para tudo isto, geramos muita audiência e participação. E justamente essa audiência é a fonte única de valorização destes. É com a nossa atenção que eles crescem.

Nunca vi a capa de um jornal trazendo a final do Campeonato Gaúcho de xadrez, ou alguma olímpiada estudantil, mas a bunda de uma funkeira já. Chegamos ao ponto de que quem consome noticias em jornais e em telejornais, acaba ficando desinformado.

De nada resolverá sair às ruas pleiteando mudança ou fazendo arruaça, se não nos mudarmos internamente.

Aos rebeldes de apartamento, lhes termina a energia, quando acaba o Nescau fornecido pela mamãe, sinto informar, mas discordo que eles venham a trazer mudanças. O país só mudará se a população em sua maioria mudar o seu foco. Do contrário os políticos continuaram iguais e os problemas os mesmos.

Quem está determinando o sucesso deste espetáculo é a plateia. O espetáculo encontra seu fim, quando a plateia, ou seja, nós a sociedade, pararmos de aplaudir. Por melhor que sejam os atores ou o enredo deste circo, eles não são o problema maior. O problema é a plateia que os aplaude.