A revolta do alemão batata. Quando o Brasil quitará a sua dívida?

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Por Odair Deters

Durante a minha infância, na época em que bullying não existia, era comum um descendente de alemão ser chamado de “alemão batata” [que tem por origem o formato do nariz de alguns descendentes de alemães], que nem era bem o meu caso, pois meu nariz é um pouco mais aquilino. No entanto não escapei de ser assim chamado algumas vezes. Claro isto não acontecia quando eles queriam que eu repartisse a merenda gostosa que eu levava para a escola [pois a alimentação na minha casa, assim como grande parte dos imigrantes, quase sempre foi farta].

Esta passagem, simples evidencia em escala macro, todo o descaso que a nação brasileira teve em nunca reconhecer o estrondoso sucesso da imigração alemã.

Tudo começa muito cedo, quando os portugueses saiam para as suas grandes descobertas, precisavam de parceiros corajosos, e para isto contrataram uma guarnição de artilheiros alemães [desde 1489]. Também tiveram que trazer os pioneiros que documentavam a flora e a fauna brasileira. Os empreendedores que desenvolveram os engenhos para a cana-de-açúcar[1535]. O conquistador que fundou a cidade do Rio de Janeiro[1567]. E outros tantos que foram bandeirantes, padres, comerciantes, cientistas, médicos, músicos e militares. Inclusive responsáveis por fundarem o exército brasileiro, fato de quando os Brummers vieram para o Sul do Brasil [1676], para garantir as fronteiras dos espanhóis, onde ganharam a designação de “libertadores do Rio Grande do Sul”. Sendo esta a primeira vez em que foi introduzida uma maneira prussiana de exército aqui. Até mesmo a cor amarela da bandeira brasileira deriva do casamento de Dom Pedro de Bragança [cor verde] com a cor amarela que representa a casa Lothringen-Habsburg, da qual era procedente o pai de Leopoldina, o imperador alemão Franz II [Franz I da Áustria]. Em São Leopoldo [RS] começou uma nova forma de colonização com os alemães [1824], bem diferente da maneira de economia dos latifúndios. A grande vitória no maior conflito em que o Brasil se envolveu, a guerra do Paraguai, foi alcançada graças a bateria alemã de artilharia[1866]. Fora todo o desenvolvimento industrial trazido, que fazem hoje, por exemplo, de São Paulo, a maior cidade industrial alemã do mundo inteiro, segundo o número de empresas alemãs ali instaladas.

No entanto a nação brasileira ainda não tomou conhecimento disto. Parece que a única coisa grande que vieram dos imigrantes, foi o Nazimilitarismo [1969-1979] Institucionalização da tortura, genocídios, Operação Condor, por Médici [italiano] e Geisel [alemão]; querendo condenar assim o Rio Grande do Sul por inteiro como a região de mais forte influência nazi-fascista da América Latina. Quando sim, alguns sulistas apoiaram o regime alemão durante a segunda guerra. Mas lembramos de que o Governo Brasileiro na pessoa de Getúlio Vargas, também apoiou, e só mudou de lado, após vergonhosamente ter se vendido aos Estados Unidos [Aqui muito exaltamos os argentinos que derrubaram seu governo quando este quis cometer semelhante ato].

Quando o fracassado Getúlio Vargas se vendeu, iniciou a campanha nacionalista, implementada em seu governo entre 1938 e 1945. Através desta campanha houve repressão à publicação e ao ensino da língua alemã, proibição de falar outra língua senão a oficial em público, fechamento de instituições e associações comunitárias e culturais, perseguição aos membros das igrejas, confisco de bíblias e livros, assim como a destruição de propriedades. Oficiais do governo e a população, assustada com a política de Hitler, desprovidos de conhecimento, quebravam tudo o que tinha marca ou escrita alemã. Roubavam dos imigrantes as máquinas, navalhas, relógios, concertinas e armas. Até mesmo os epitáfios nos cemitérios sofriam ações. Os comerciantes alemães precisavam ficar armados vigiando as vendas e mercearias, alvos de saques pelos brasileiros, que também ameaçavam de morte os colonos. Meus avós contavam que lhes eram tomados até os panos de prato que minha avó com dedicação bordava em alemão os dias da semana e as datas especiais como Páscoa e Natal. Aconteceu uma verdadeira pilhagem pelos brasileiros, que cobiçavam o que os imigrantes conseguiam com muito esforço, fruto de seu conhecimento e trabalho.

Muitos eram presos por serem pegos falando alemão, o mesmo acontecia frequentemente com os italianos e japoneses neste período. Muitos foram parar em campos de concentração. Sim, no Brasil existiram campos de concentração também, e para lá iam presos: alemães, italianos e japoneses. Aliado aos resultados da 2ª guerra, tão explorados pelos filmes hollywoodianos, tornaram os alemães eternos pecadores. Embora muitos dos personagens que os condenam usufruam hoje de conquistas descobertas pelos nazistas durante a guerra, seja para sua saúde, entretenimento ou comodidade. E principalmente nesta terra tropical, não se dão conta que os conquistadores do Brasil e das Américas [portugueses e espanhóis] cometeram genocídio muito maior com os povos indígenas e que até mesmo por séculos perseguiram e mataram judeus. Sem contar uma grande diferenciação dos alemães em relação a outros imigrantes. O alemão que veio para cá veio para criar o seu Heimat o colonizador original português não teve o mesmo amor à nova terra. O Seu amor na boa parte das vezes era explorar, enriquecer e voltar à terrinha Lusa.

Os alemães além de virem com a ideia de aqui se manterem definitivamente, ao chegarem o primeiro que edificavam era uma igreja e uma escola. Em um país onde ainda hoje a educação é uma ilusão. Não é a toa que o IDH das pequenas cidades do Sul seja muito superior ao de outras regiões, e poderia ser muito melhor. Não fosse o maior crime cultural levado á cabo no Brasil, representando um atraso imensurável para todo o país – a campanha nacionalista e o cerceamento dos limites do povo alemão por conta dos resultados de II guerra – Porém os criminosos que iniciaram isto acabaram por impactar também no desenvolvimento do Brasil. Estes criminosos cometeram algo contra as suas próprias gerações. Conseguiram em seu tempo roubarem muito dos imigrantes [alemães, italianos e japoneses], inclusive um dos maiores roubos da história deste país, que foi o da autoestima de um povo. Por isso ainda hoje encontramos alemães muito fechados, envergonhados, tímidos [eu mesmo considero que sofri muito com isto até meus 20 anos aproximadamente, quando reconheci as causas e resolvi enfrentar a mim e a todos, principalmente estudando e esclarecendo a história]. A origem histórica disto encontra-se nas limitações impostas neste período.

A bem da população de origem alemã no Brasil, estimada em torno de seis milhões de brasileiros, diga-se que esta população não teve a mínima participação, direta e nem indireta, nos horrores da Guerra na longínqua Europa e, muito antes de algoz, foi vítima de uma execrável política de discriminação étnica. Das muitas etnias que formam o caldo de culturas do Brasil, nenhuma delas pode, honestamente, orgulhar-se de ter amado mais sua nova pátria e contribuído mais intensamente para o seu progresso do que a etnia alemã. Mesmo diante de um xenófobo povo brasileiro.

Hoje representando cerca de 3% da população brasileira os descendentes de alemães, são quase que basicamente uma minoria segregada. Porém nunca cobraram do governo serem igualados, nunca pediram que lhes perdoassem publicamente, que sejam chamados de germanodescentes. Nunca exigiram vagas nas universidades a não ser se seu mérito próprio e suas economias permitam. Caso isto não aconteça continuam lavrando a terra uma vida inteira e enchendo as mesas de comida, inclusive daqueles burocratas filhos das mesmas oligarquias que há décadas usurpam este solo. Nunca brigaram por serem chamados de “alemães”, mesmo tendo sido nascidos nesta terra. Quando bem poderiam dizer que isto constituiria uma forma de racismo e xenofobia. Nunca se incomodaram em processar expressões de cunho pejorativo associadas a eles como “coisa de alemão”, “alemão teimoso”, “só podia ser alemão”, “comedor de chucrute”. Não exigiram que o dia 25 de Julho virasse o “dia da consciência germânica”, ou que o 25 de novembro seja do “dia nacional do orgulho alemão”. Muito menos que tivessem um ministério que lutasse pelo dia da igualdade alemã e conta a germanofobia, proibindo que uma criança seja chamada de “alemão batata come queijo com barata”.

Aliás, os alemães Respeitaram o dia da consciência negra, sem nunca terem cometido qualquer atrocidade contra negros neste território, na verdade, sem preconceitos, se for contabilizar, foram mais vítimas destes. [aqui aos racistas enrustidos, lhes dói ler isto, pois não analisam os números, apenas as emoções]. Mas o povo alemão geralmente não ficou naquele ressentimento passivo, comum a milhões de brasileiros, que olham o escândalo na televisão e exclamam “que horror”. Descobrem o roubo de um político e falam “que vergonha”. Encontram a fila de aposentados e comentam “que absurdo”. Assistem os programas de domingo na televisão e falam “que baixaria”. Eles buscaram aos poucos ir trabalhando, acreditando ainda em uma transição neste país, indo do ressentimento passivo à participação ativa, podendo ser esta quem sabe uma simples atitude, através de uma das mais tradicionais tarefas que lhes coube, plantar uma roça que permite que muitas bocas sejam alimentadas.

Até o momento o único reconhecimento que receberam foi o de “nazista”. Mesmo que a grande maioria nunca o foi. Sendo que não faltaram motivos para isto. Pois o Brasil nunca reconheceu a contribuição teuta a sua formação.

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One thought on “A revolta do alemão batata. Quando o Brasil quitará a sua dívida?

  1. Até eu, que não tenho nenhuma descendência alemã direta (somente galego e italiano), sempre fui chamado de “alemão batata” nos tempos de escola, imagina vocês, ‘germanodescendentes’?! A ÚNICA solução é a autonomia dos povos do Sul, para florescer o reconhecimento de quem construiu as bases econômicas atuais desse pais, cujo laços sanguíneos estão tão ou mais ligados aos castelhanos que o resto dos ‘brasileiros’.

    Um abraço de um irmão de causa, orgulhoso paulista de nascimento, mas residente no Sul e determinado a contribuir (com a vida, se preciso) para construir aqui nessa porção de terra um modelo desenvolvimentista que tanto nos negam!

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