O cigarro digital

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Por Odair Deters

Possivelmente você odeia o cigarro e não gosta nenhum pouco de fumantes. Saiba que existe uma grande probabilidade de você ter sido condicionado a pensar assim. Pois é o Instituo Tavistock, planejou muito bem uma situação, como teste de controle mundial, que era: Gerar repugnância pelo cigarro.

Por séculos o vicio do fumo, era tolerado, era normal e ninguém o associava a milhares de problemas de saúde. Hoje ele causa impotência, câncer no pulmão, gangrena nas pernas e tantos outras doenças e problemas. Mesmo ninguém conseguindo justificar porque uma criança pode tão precocemente morrer dos mesmos problemas sem nunca ter tocado em um cigarro ou um adulto fumante chegar aos 100 anos.

Mas discutir os males não é o objetivo aqui. Pois afinal provavelmente você já o odeia e tem aversão ao mesmo.

Imagine as seguintes cenas: Você em um restaurante e um amigo seu sentado a mesa, usufruindo deste vicio e assim lhe dando menor atenção, ou em uma festa, ao invés de aproveitar o momento está temporariamente conectado a este vicio, ou mesmo ter que sair do ambiente para poder assim aproveitar sozinho ele, ou pior: Já notou como esse maldito vicio fica preso nas mãos dos seus usuários?

Meus leitores, no parágrafo acima, eu não estou falando do cigarro. E sim do celular. Releia. Pois é, estamos inseridos em mais um novo vício, apenas vamos substituindo vícios. O cigarro por séculos era símbolo de status, liberdade, comunicação, conexão, aceitabilidade, e não se sabia de nenhum mal que o mesmo causasse. E o celular não representa o mesmo? Um Ipod não seria um símbolo de status? O mesmo não te dá à liberdade de ir onde bem queira? Não o mantêm conectado? E pior de tudo, quem sabe demoraremos em darmos conta dos danos que este aparelho e suas ondas causam em nossos cérebros. Ou como o cigarro, até mesmo afeta sexualmente seus usuários [impotência], tendo em vista que alguns estudos que já consideram esta possibilidade ao carregarmos eles junto ao bolso das calças.
Essa necessidade de estar segurando e usufruindo de algo para estar presente e inserido, é o nosso bom cigarro digital.

Não me excluo dos viciados, embora por algumas vezes consigo me livrar dele, ou ser menos dependente. Se eu vivesse nos anos 70 ou 80 poderia ter chegado até uma menina usando principalmente a desculpa de fumar um cigarro, hoje, usaria o whatsapp ou o facebook via celular. Podemos adicionar uma pessoa no mesmo instante em que a conhecemos numa festa, seria quase como compartilhar o mesmo cigarro 30 anos atrás.

Os viciados modernos têm suas desculpas: “É só uma mensagem”, “preciso responder”, “é urgente”, “você também usa e eu não reclamo”. Porém o cigarro caia menos nas mãos das crianças antigamente, e sempre tinham os que não aderiam ao vicio. Hoje, não duvido que na certidão de nascimento, já conste o número do celular do recém-nascido. E poucos são os não viciados, aqueles que só dão uma tragueadinha por necessidade.

Quem sabe ao estarmos com os amigos ao menos poderíamos diminuir este vicio. Estarei tentando.

Buenos Aires, só mais 40 minutos.

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Por Odair Deters

Após 10 anos voltava a capital argentina. Um céu cinza e frio nos recebia. É final de abril, mas o frio já é de inverno. Brincávamos que havíamos cruzado 4 países sul-americanos em 12 horas [Porto Alegre – Rio Grande do Sul, São Paulo – Brasil, Assunção – Paraguai e enfim Buenos Aires – Argentina], situações que ocorrem quando se opta por passagens baratas. E devido a isto, nosso voo atrasou. Perdemos nosso transporte, e optamos por pegar o transporte coletivo urbano [andar de ônibus em locais desconhecidos é sempre uma aventura]. Eis que questionamos a um dos passageiros, sobre quantos minutos levaríamos até o centro da cidade, e recebemos por resposta 40 minutos, passado este tempo, nos demos conta de que onde estávamos em nada parecia com a área central, e fomos questionar outro passageiro, este nos disse que ainda teríamos mais uns 40 minutos, o tempo passou e resolvemos perguntar a terceiro passageiro, e para nossa surpresa, nos vimos metidos em alguma maldição típica de filme de terror, quando pela terceira vez nos mandaram esperar mais uns 40 minutos. Este terceiro passageiro, um boliviano, a julgar pela boca cheia de folhas de coca, frequentador da igreja universal, situação a qual fomos bem vistos, já que esta “multinacional” tem sede no Brasil. Simpático senhor, apesar de não me simpatizar com sua religião. Ao conversarmos sobre as folhas de coca o mesmo tira e sua mochila um tijolo de folhas, embalado tal qual um tijolo daqueles que costumam ser apresentado no noticiário quando da apreensões de drogas, para espanto de uma de minhas colegas. Bem, passados 3 x 40 minutos, chegamos no centro.

Era pra ser uma aventura mochileira, havíamos reservado um hostel. Ao descermos do ônibus, nos apressamos a acha-lo, pois apesar de frio, o céu cinza nos trouxe chuva. Encontramos nosso albergue quando já estávamos todos com os cabelos úmidos. E que desagradável surpresa ao saber que erramos na reserva, pois apesar de anteciparmos 10% do valor e de termos reservado o transporte aeroporto-hostel, não havíamos confirmado os quartos. E o mesmo encontrava-se lotado. Única alternativa, sair na noite, chuvosa e fria, atrás de outro hostel. Esta foi sem dúvida uma daquelas situações desagradáveis que se tornam motivos de muitas risadas e diversão depois, no transcorrer dos anos. O bom de estar numa situação difícil em outro país com os amigos, é ter mais alguém a quem olhar e dizer: “fudeu”. Porém se diz que o Karma é algo que nos aplicam para nosso próprio bem. Encontramos um hostel com nome de cigarro antigo, o “The Ritz”. E que achado. O cito aqui como dica para quem for a capital portenha.

Na manhã seguinte saímos cedo, a temperatura próxima do zero grau, mas estávamos com o ânimo tão quente quanto um mate, para trotearmos pela capital. Saindo do hostel já avistávamos a Casa Rosada [Palácio do Governo], localizado na Plaza de Mayo, sim, como não lembrar as “mães da Praça de Maio” [que se reúnem na Praça para exigir notícias de seus filhos desparecidos na ditadura entre 1976 e 1983]. Na mesma praça, uma parada para uma foto, junto a estátua do também economista Manuel Belgrano, desenhista da bandeira Argentina. No momento felizmente não presenciamos nenhum panelaço. Sabemos que os portenhos são muito politizados, como ficou evidente nos últimos anos, tamanho engajamento em protestos, passeatas e reivindicações. Portanto não era de se surpreender se encontrássemos algo acontecendo nesta praça. O local é ponto comum e símbolo das manifestações populares que surgem na Argentina. Porém não vimos manifestantes, mas sim seus rastros com muitos cartazes e faixas, alguns acusando os Kirchner, outros os “peronizando” e os idolatrando, alguns reivindicando as Malvinas, outros apenas um emprego.

A crise econômica foi voraz na Argentina, os reflexos são nítidos, lojas fechadas, muitas placas de aluga-se nas áreas centrais e mendicância pelas ruas, mas o tango ainda se ouvia, aquele charme da cidade, não foi perdido.

Apesar dos pesares a capital argentina, continua com suas qualidades, a principal que é ser uma cidade destinada ao turismo. O tango, o clima, a gastronomia e os belos prédios e monumentos que simbolizam suas revoluções e a nobre arquitetura do passado continuam lá, aliados a promoções imperdíveis para quem prefere as compras, deixando brasileiros com os bolsos cheios diante de um Peso tão desvalorizado, para logo serem esvaziados diante de uma refeição com muita carne, nos tradicionais cafés, nas lojas ou nas feiras.

E em se tratando de feiras, que encanto é este de San Telmo? Uma feira em que se pode passar tranquilamente metade de um dia, enchendo a mochila de cacarecos, ali encontramos desde um capacete utilizado na Guerra das Malvinas até uma toquinha de lã da moda. Muita coisa com a cara da Mafalda ou do Homer Simpson. E claro é irresistível não sentar ao lado da filha do cartunista Quino, essa guriezinha tão encantadora por sua legítima rebeldia com o estado atual do mundo, que espera todos os turistas, sozinha em um banco. Tão badala, mas ao mesmo tempo, assim como seus ideais [a humanidade e a Paz mundial], abandonados.

Caso nos perdêssemos, tínhamos um ponto de encontro na Avenida 9 de Julho, bem próximo do nosso hostel, ficava um prédio com um grande desenho de uma cantora, fácil de achar. E assim nos dispersávamos. Percorremos o bairro La Boca, reduto em que se instalavam os imigrantes italianos, foi uma área pobre da Capital, hoje abriga o Caminito, uma restauração que remonta o passado do bairro com casas construídas com chapas de metal e tábuas pintadas com muitas cores. Além de ser um bairro que respira futebol, embora não achei nada especial à visita a La Bombonera, um dos motivos, era o de que nunca gostei do Boca Juniors e outro que eu ainda estava com a final da Libertadores de 2007 entalada na goela. Também cabe citar que não nos pareceu um local muito seguro. Depois, fomos até o cemitério para tomar um café [Sim, o Hard Rock Café de Buenos Aires fica junto ao cemitério], como ver defuntos não nos agradava, rumamos atrás de outras opções. Palermo foi uma delas. É um bairro lindo, reduto dos esportes, natureza, embaixadas, ricos, artistas, políticos e da comemoração do meu aniversário naquele ano. Ao voltarmos pedimos a um cidadão quantos minutos levaríamos até nosso objetivo, e eis que nos voltou à maldição ao nos dizer, que deveríamos percorrer mais uns 40 minutos. Também descobrimos que o grande prédio que tomávamos por referência, era o Ministério da Ação Social, e que a cantora, na verdade era a Evita, mãe dos argentinos e símbolo do populismo e do período Peronista, e que na verdade ela estava discursando e não cantando.

Um dos passeios foi o agradável Jardim Botânico, onde ficamos surpresos por seu um parque habitado por centenas de gatos, possivelmente as pessoas os largam ali. Quem gosta dos bichanos precisa ir até este local [embora já houvesse casos em que as autoridades locais, realizaram a “limpeza”, com o sumiço de vários gatos]. Neste local eles resistem. Alguns ariscos outros dóceis me faziam pensar que a qualquer momento apareceria, virando estrelinhas, a Michelle Pfeiffer [filme: Batman, o retorno de 1992]. Á noite fomos para Puerto Madero, que hoje representa a parte moderna da cidade, e sua turística ponte onde os arcos representam um casal se embalando ao som do tango. Ali esperávamos encontrar e comer algo no restaurante da rede Hooters, com aquelas lindas garçonetes de bermudinhas laranjas, mas tamanha foi nossa decepção ao sabermos que a filial de Buenos Aires havia fechado.

Buenos Aires é a cidade de Jorge Luiz Borges, e transborda cultura, e como me satisfaço ao ver pessoas lendo livros no metrô, ou enquanto esperam um ônibus, a leitura é um bom hábito, no qual os argentinos dão de goleada nos brasileiros, e isso nos remete a livrarias. E atendemos a indicação que tínhamos e fomos visitar a El Ateneo, uma das mais bonitas livrarias do mundo. É um excelente espaço de refúgio: pode-se tranquilamente pedir um café e ficar lendo a vasta coleção de livros. Depois disto fomos atrás de um sorvete de dulche de leche Freddo, ah, o melhor sorvete do mundo. Existem duas coisas que invejo sem tamanho dos argentinos, o sorvete Freddo e as media-lunas.

O transporte público de Buenos Aires é excelente. Um dos mais antigos do mundo, o metrô cobre vários dos pontos de interesse da cidade, mas nada se compara a caminhar e pegar ônibus. Porém se for pegar ônibus junte muitas moedas, sem elas você não vai a lugar algum, os ônibus só funcionam com moedas e durante os finais de semana ou feriados, o comercio evita até mesmo de dar troco em moedas, portanto atenção, ou você vai ter que ir a pé.

O futebol, a desvalorização do câmbio, a crise política, o amor ou o ódio por Cristina e as tradicionais perguntas sobre o Brasil, onde se nota uma tímida inveja, são os assuntos mais em pauta com os portenhos. No entanto os argentinos, mesmos com seus cortes de cabelos que ficaram presos nos anos 80, não deixam sua capital perder a pose. Mantém seus cafés a todo vapor, mesmo que neles falte um ou outro produto; a cultura efervescente, vista nas artes plásticas, na música, na dança, na literatura e no cinema, atendem os visitantes em bom tamanho. Para os brasileiros então, com a desvalorização da moeda deles, a viagem é uma aventura cultural muito em conta. Podendo se fazer muitas compras nas feiras locais que tocam no fundo uma música folk argentina, ou aproveitar os excelentes churrascos dos vizinhos.

Desta vez não fomos a nenhum espetáculo de tango, apesar de para os argentinos isso parecer cafona, [o preferível para eles parece ser algum ritmo mais quente da cultura de periferia do Brasil], sendo mais coisa para turistas, mas dançamos pelas “calles”, desta que é uma das cidades mais europeias do Hemisfério Sul, acredito que em muito semelhante a uma Madrid ou a uma Roma, porém aqui pertinho e a um custo muito baixo. Quando fomos embora, olhávamos para ela, e tudo que pensávamos pera o fato de querermos aproveitar mais, nem que fossem só mais 40 minutos.

Uma revolução na terra do gelo

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Por Odair Deters

Desde meus primeiros conhecimentos de geografia, fui encantado por uma terrinha de nome e clima gelado, a Islândia. Uma ilha de paisagens absolutamente irreais, quase que um pequeno paraíso perdido no velho continente. Invejava os Islandeses, que por anos gozaram de um dos mais altos padrões de vida no mundo, com destacáveis índices econômicos e sociais. Um país com quase metade da extensão territorial do Rio Grande do Sul, mas menos populoso que a cidade de Caxias do Sul.

Um país com criminalidade perto de 0, baixíssimo consumo de drogas,  97% da população é de classe média e, melhor de tudo: quase toda a população consome livros, mais ainda, na verdade, um, em cada dez islandês, é escritor, e pescador quando não profissionalmente, nas horas de folga. Por incrível que pareça lá os pescadores andam de Audi, comem salmão defumado, vivem em residências belas e confortáveis com toda tecnologia necessária, sem falar da beleza das mulheres islandesas [Para alguns, desconte a cantora Bjork, uma das maiores celebridades, descendente de inuites, ou esquimós, e não tão bonita assim].

Porém em 2008 irrompeu a crise mundial iniciada no boom imobiliário dos Estados Unidos [subprime] e que se alastrou. E a Islândia foi o primeiro país afetado. Quase 90% do setor financeiro da Islândia veio à falência na primeira semana de Outubro de 2008. O principal banco do país teve que ser nacionalizado. A Bolsa suspende as atividades. A coroa islandesa desvalorizou 85% face ao euro em poucos meses. O país está em bancarrota. Os banqueiros fogem [principalmente ingleses e holandeses], pois com a crise teriam que pagar diretamente cerca de 3,5 bilhões de dólares. Com isso a proposta do governo é que a dívida fosse repassada a cada uma das famílias islandesas, que pagariam sua parte em 15 anos, com juros de 5,5% ao ano. [Fosse no Brasil, pagaríamos. Afinal, os juros são baixos, seria um bom negócio].

Mas os 320 mil islandeses lembraram de seu sangue viking, e irados, tomaram as rédeas do poder. O governo retrocedeu e acabou fazendo um plebiscito para decidir. Resultado: 93% contra o pagamento da dívida, contra o socorro aos bancos e a favor da nacionalização dos bancos. Foi o que fizeram. Sem dó nenhum. De quebra, todos que ocupavam cargos no governo foram demitidos, inclusive o primeiro ministro. Executivos e dirigentes dos bancos que não fugiram para o exterior foram presos. E o ingresso na União Europeia por água abaixo.

Com isso o povo deu início a uma revolução contra o poder que lhes conduziu a crise. Obrigaram à demissão em bloco do governo inteiro, com os principais bancos nacionalizados, foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto aos bancos estrangeiros, dívidas que haviam sido geradas pelas suas más políticas financeiras. Para isto, elegeram uma nova assembleia encarregada de redigir a Constituição inteiramente nova, que acolhesse as lições retiradas da crise, com a direta participação do povo. Foram então eleitos 25 cidadãos sem filiação política, entre os 522 que apresentaram candidatura. Para esse processo era necessário ser maior de idade e ser apoiado por pelo menos 30 pessoas.

O povo islandês criou um marco para sua nação no momento em que foram para as ruas e tiveram seu pronunciamento e reinvindicações ouvidas diante das mais importantes decisões econômicas. Justamente por se tratar de uma revolução, quase nada foi vinculado na mídia, tal como se o frio polar os tivesse congelados. E fomos todos censurados [mundialmente]. Porém os islandeses deram uma lição à Europa inteira, enfrentando o sistema e dando um exemplo de democracia a todo o mundo.

No entanto pra quem ficou a conta da crise?  Em parte, a população, nem toda ela inocente, pois aproveitaram os áureos tempos de fartura, conquistados pela farra do crédito fácil. De todo modo, quando o Tesouro se pôs a consertar o estrago, também os inocentes receberam a fatura, na forma de impostos, desvalorização da moeda [coroa islandesa], cortes em alguns investimentos e em determinados benefícios sociais, achatamento de salários, um pouco de inflação e desemprego.

Especificamente, nos meses que antecederam a quebra, o governo ficou com papéis furados. Parte deste custo, então será arcado pela população. No entanto o grande rombo foi parar nos credores privados, os bancos internacionais, a maioria deles europeus, dos quais metade alemães. Que se estima, tiveram que escrever com letrinhas vermelhas 63 bilhões de dólares em seus balanços. Nada mais que um doloroso remédio para a ferida que eles próprios causaram.

Passada a crise e as medidas aplicadas, o PIB islandês voltou a crescer, o desemprego diminuí, e até as agências de rating, já dizem que a economia é próspera e estável [apesar de ainda ter uma classificação de rating tal como a da Espanha, ou seja, triplo b negativo]. Os novos bancos nacionais se ergueram em cima das cinzas dos 3 bancos falidos, e já se apresentam lucrativos. E a economia já está entre as que mais crescem no mundo atualmente. Agora a Islândia, tenta reintegrar-se financeiramente na economia global, com certeza desta vez, de modo mais seguro.
A Islândia deu um grande exemplo ao mundo. A mídia abafou, afinal pra que bons exemplos no enfrentamento de quem está no poder? Imaginem o que poderia acontecer se os cidadãos de outros países viessem a seguir este exemplo? E mais uma vez invejei os islandeses, agora não por seu padrão de vida, pelos seus belos fiordes, seus campos verdes e sua educação de alto-nível, e sim pelas suas atitudes.

Separatismo em tempos modernos.

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Um amigo [Celso Deucher] estava desenvolvendo um livro sobre a temática separatista no Sul do Brasil, e pediu uma contribuição que poderia vir a ser utilizada em um cabeçalho de um dos capítulos. E ao pensar no conteúdo para ser expressado nas poucas linhas que ele necessitava, acabei gerando um arcabouço de informações que contribuíram para o desenvolvimento de um texto mais amplo.

No início do século 20, havia apenas 57 nações. Após a 1ª Guerra Mundial [1914-1918], e o fim dos impérios austro-húngaro, na Europa, e turco-otomano, no Oriente Médio, fez com que surgissem novos países, como a Áustria e o Iraque. Já em 1945, após a 2ª Guerra Mundial [1938-1945] este número havia pulado para 74 países independentes. Em seguida ocorrem a independência de ex-colônias da Ásia e da África dividindo ainda mais o mapa. Nessa época surgiram países como Índia e Paquistão [1947] e Moçambique [1975]. Na década de 1990, foi o fim da União Soviética, que fez o mundo ganhar outra leva de nações, entre as quais, por exemplo, a Ucrânia, a Bielorrússia e o Uzbequistão.

A ONU por sua vez possui 192 países membros. Assim, o número 192 é usado frequentemente para representar o número dos países no mundo. Embora este número represente quase todos os países no mundo, há ainda algumas ausências, as mais famosas são: o Vaticano e Kosovo, que não são membros do ONU. Taiwan [Formosa] era um membro das Nações Unidas [até do Conselho de Segurança] até 1971, quando a China a substituiu nesta representação. Taiwan luta para que seja reconhecida como nação pelos outros países membros, mas a China reivindica que ela é simplesmente uma província sua.

O Vaticano, que, apesar de ficar de fora do cadastro da ONU, é um “observador permanente” da entidade, status que dá direito a voto nas conferências. A ONU não contabiliza possessões e territórios. Para ganhar a carteirinha de sócio, o país deve ter fronteiras definidas, sustentação econômica [uma moeda própria ajuda bastante] e soberania nacional. E ainda deve ser reconhecido pelos outros integrantes do clube. Mas a lista da ONU não é a única. Algumas associações esportivas também têm as suas. É o caso do Comitê Olímpico Internacional, com 202 membros, e da Fifa, que tem 205.  Além disso, existem dúzias de territórios e colônias que geralmente são considerados “países”, mas eles são governados por outros países e, portanto não reconhecidos pela ONU. Alguns lugares comumente confundidos com países são Aruba [Holanda], Porto Rico [EUA], Ilhas Bermudas e Ilhas Cayman [Inglaterra], Groenlândia [Dinamarca] e Saara Ocidental [Marrocos]. Também nesta situação, estão a Caxemira, na fronteira entre Índia e Paquistão, e a Chechênia, na Rússia, porém estes estão reivindicando a independência na porrada [conflitos armados].

Para complicar ainda mais, a lista ISO 3166-1 [que fornece a abreviatura para domínios do Internet] inclui 51 não-países tais como territórios e entidades não-independentes, como: Samoa Americana [cedida aos americanos em 1904], Ilhas Falkland ou Malvinas [Inglaterra ou Argentina], Hong Kong [ex-colônia britânica, hoje China], Palestina [Israel, ou seria o contrário?], entre outros. Mas, mesmo com esta premissa, não constam da lista da ISO-3166 a Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, que formam o Reino Unido.

Seria muito país para pouco mundo? Parece que não! Pois existe ainda uma leva muito maior de nações em gestação, como Québec [Canadá], Catalunha e Pais Basco [Espanha], Escócia [Que parece ser um dos mais próximos, pois tem plebiscito em breve – Reino Unido], Córsega [França]. Bom o mapa da Europa tá salpicado de regiões loucas para virarem nação, desde alguns relativamente grandes e prósperos como a Catalunha ou a Bavária [Alemanha], como outros diminutos como o Principado de Seborga [Itália] com seus 339 habitantes. Mas assim como os europeus, todos os países, principalmente os de tamanho continental, estão repleto de regiões em busca de sua autodeterminação, assim acontece, com a Rússia, Estados Unidos, Brasil, Austrália, Argentina, Canadá, entre outros.

Em muitos casos, existem partidos políticos e organizações separatistas fortes, como: Liga Norte e Aliança Nacional [Itália], Sein Fein [braço político do IRA na Irlanda do Norte] Frente Nacional [França], Partido Nacional Britânico e o Herri Batasuna [braço político do ETA, Espanha], também na Espanha, há diversos partidos autonomistas na Catalunha. Até a tolerante Holanda tem o seu partido xenófobo e nacionalista Lista Pin Fortuyna. No Canadá há o Bloco Quebequense que há décadas tenta separar a província francófona do Québec do restante do território canadense de língua e cultura inglesa.

Durante a década de 90 tivemos o advento dos grandes blocos econômicos como a expansão da União Europeia, o Mercosul – Mercado Comum do Cone Sul e Alca – Área de Livre Comércio das Américas, que ainda meio adormecida mas já muito destacada pelos Estados Unidos. Com todos estes blocos parecia que iria de uma vez por todas acabar com os nacionalismos e com os temidos movimentos separatistas. Parecia não mais haver sentido em reivindicar autonomia de uma região, se o próprio país da qual ela faz parte, estava perdendo parte da sua ao se integrar ao continente. E dessa forma, mesmo que a região se tornasse independente, ela ainda estaria dentro do território do bloco e teria que se submeter aos acordos como membro tal qual o país da qual ela se desmembrou. Caso contrário se o novo país decidisse se retirar do bloco, ele perderia muitas oportunidades econômicas. Ocorreu então que os separatistas espalhados pelo mundo não se deixaram intimidar pela adesão de seus países aos grandes blocos econômicos e adaptaram seus programas políticos aos novos tempos. Agora, eles veem outra saída para a independência além das eleições e da luta armada, eles desejam ter assento direto nas organizações e instâncias com o poder de decisão dos blocos ou até mesmo de pularem fora de alguns.

E neste ponto econômico que reside nossa principal observação. Precisamos entender quais os ganhos e quais os problemas associados à dimensão territorial e populacional que um país pode assumir.

No ponto de vista do desenvolvimento econômico, um país muito populoso consegue dividir os custos fixos [aqueles que não aumentam com o número de usuários]. Imaginamos a construção de uma ponte, a qual tenhamos que cobrar impostos de 100.000 pessoas para a construção, agora se para a mesma ponte pudermos cobrar impostos de 1.000.000 de pessoas, diluiria os custos, certo?! Assim organizar uma defesa nacional, construir grandes obras de infraestrutura, como o caso dos 12 colossais estádios de futebol que o Brasil está erguendo para a Copa do Mundo de 2014.

Destacam-se também as vantagens de um grande contingente populacional, que garante maior projeção pelo mundo e também maior segurança, imaginem algum país ter que guerrear contra a China. Os chineses tem gente que não acaba mais, faltaria munição diante de tanto chinês pra enfrentar. Claro a questão da segurança pode ser garantida em alguns casos com alianças, como o caso da OTAN – Organização do Atlântico Norte, assim uma nação pequena ou mesmo sem exército garante uma segurança um pouco maior a seu território.

Países grandes também possuem um amplo mercado interno, que pode auxiliar em crises mundiais ou mesmo garantir ganhos de produtividade. Bem como certa forma de ajuda, imaginem o Estado do Rio de Janeiro separado do Brasil, quando ocorrem as corriqueiras enchentes e desmoronamentos o Governo brasileiro sempre oferece ajuda, ou com a força de segurança nacional em alguns casos para frear a ação de determinados grupos ligados ao tráfico de drogas. Outro exemplo são os auxílios destinados ao Nordeste e Norte do Brasil, que arrecada menos que o necessário e recebe repasse de impostos arrecadados no Sul.

Mas não existem apenas benefícios para os grandes, se fosse à configuração mundial teria apenas poucos países, pelo  contrário, cada vez mais e mais regiões estão querendo gritar sua independência.

À medida que um país cresce, sua população torna-se mais heterogênea, e aparecem gritantemente suas diferenças étnicas, linguísticas, culturais, entre outras. Afinal, qual o gaúcho que não se enche de ódio ao ver a televisão anunciando mais um carnaval fora de época na Bahia, ou um paulista ao saber que seu voto vale 10 vezes menos que o de um acreano, que elege também 3 senadores, em um Estado que não traz nenhum retorno financeiro para a nação. Ou usando mais uma vez o exemplo da Copa do Mundo, quem fora dos Estados como Mato Grosso, Amazonas e Distrito Federal, concorda que devessem ser construídas monumentais arenas em cidades que não possuem nenhuma expressão no cenário futebolístico nacional. Essa crescente dispersão de preferências entre os habitantes de determinado país, dificultam a escolha de políticas públicas comuns a todos.

E quando as preferências dos diversos grupos sociais diferem muito entre si, começa a ser complicado chegarem a acordos sobre as escolhas coletivas, e indiferentes das escolhas o número de descontentes é grande, ainda mais em um país centralizador como o Brasil.

Isto mostra uma grande vantagem em ser pequeno, ou seja, a facilidade na tarefa de dar provimento de bens públicos que estejam em consonância com o desejo de um grupo relativamente homogêneo, exemplo seria se o Rio Grande do Sul conseguisse sua independência. Lembrando neste parágrafo que o separatismo no Sul do Brasil é um dos mais consolidados na América, tanto por parte de movimentos que desejam ver o Estado Gaúcho [República Rio-Grandense] separado, como os bem organizados simpatizantes do Movimento “O Sul é meu País”, que anseiam separar a Região Sul do restante do Brasil.

Certamente os eventos geopolíticos tiveram conforme citado no início deste texto, forte influencia na explicação do aumento do número de países, ainda mais pelo já explicado fato de ser custoso ser pequeno e independente, mas isto não é via de regra.

E um dos fatores que explica este crescimento fenomenal do número de países, em que em cerca de 50 anos, mais do que dobrou, é o crescimento do comércio mundial. Pois este crescimento tornou economicamente viável a existência de países de menor porte. Pois um dos limites existentes aos pequenos países é a perda da eficiência existente em um mercado pequeno, mas em um mundo onde é cada vez mais fácil importar e exportar, a importância da escala dos mercados internos se atenua. Atualmente o mercado consumidor de determinado país tornou-se o mundo.

Então, para aquele meu amigo, do inicio do texto, que me pediu um comentário, justificando o porquê no meu entendimento o Sul do Brasil poderia ser um país, eu respondi, que: No mundo globalizado o fator econômico, acima de tudo, permite com que qualquer comunidade usufrua de relações que permitam seu crescimento econômico, aliado a isto, as necessidades de preservar as culturas, como as sulinas tornadas periféricas no atual cenário nacional e o combate ao histórico esquema centralizador do poder em Brasília, que usurpa determinadas regiões. Colocou esta Região diante do momento em que se faz necessária a busca pela independência, deixando assim, uma herança mais justa as suas futuras gerações.

Os Encantos de Santiago

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Após os atrasos de uma rigorosa aduana, chegamos a uma Santiago já tomada pela noite. Intuitivamente havíamos imaginado que poderiam ocorrer atrasos na viagem, e reservamos um hotel para a primeira noite. Ao chegarmos na cidade, fomos consultar um mapa, tentando achar o caminho até este hotel, quando fomos abordados por um grupo de jovens chilenos que viajou conosco, e que retornava das praias brasileiras, prontamente se aproximaram, nos deram algumas dicas e negociaram com um taxista, para que este não nos engambelasse, devido ao fato de sermos estrangeiros. Eram jovens, queimados pelo sol brasileiro, braços tatuados, cabelos coloridos e ar rebelde, um tipo que normalmente julgaríamos que evitaria o contato com jovens de outra tribo e até com os da mesma, no entanto estes chilenos não se contiveram diante da necessidade de auxiliarem estes turistas que pareciam perdidos na calada da noite. Um pequeno gesto, mas que foi uma grande recepção, um gentil e educado sejam bem-vindos a capital chilena.

Já instalado no aconchegante hotelzinho, ligo a tv, para nova surpresa, no noticiário local, era anunciado oficialmente à erradicação da última favela no país, isto mesmo, os chilenos anunciavam que a última favela existente em Santiago, tinha sido eliminada, através de ações do governo. Frutos que ainda estavam sendo colhidos, graças a medidas econômicas que muito bem foram aplicadas ainda na época da ditadura chilena. Não que não existissem pequenas localidades com casebres e pessoas passando necessidade, mas ao menos o governo não reconhecia mais nenhuma favela. Nada como o aglomerado miserável, tão comum no Brasil. Que recepção, era uma chegada bastante positiva para a primeira noite.

Pela manhã, ao sair do hotel, e ver que aquela bela metrópole encravada nos pés da cordilheira dos Andes, alimentava cada vez mais a vontade de cansar as panturrilhas desbravando-a. Porém não deixamos de fazer uso do metrô [lá se diz, métro]. Ah, sim, o metrô!  Para ter uma ideia, Santiago, representa mais ou menos ¼ da cidade de São Paulo, mais tem quase o dobro em estações e em quilometragem de trilhos em seu metrô, o que permite visitar quase todos os principais pontos turísticos. E como estávamos em nossa maré de sorte ao buscarmos informações com uma senhora sobre como funcionava o metrô, ela prontamente nos auxiliou e ademais nos presenteou com uma tarjeta recarregável [cartão pago], assim evitamos o custo de comprarmos à mesma e nos diminuía o preço das passagens. E como usamos esta tarjeta nos dias seguintes, escolhendo estações aleatórias ou pulando em alguns pontos turísticos pelo centro da cidade. E podemos julgar que se trata de uma metrópole que mantém vivo e vibrante o seu Centro. Uma cidade limpa, exemplo disto vimos que após uma marcha de estudantes, pouco tempo depois seguia atrás uma equipe de limpeza.

A gastronomia chilena é fantástica, e a diversidade de iguarias enorme, fazendo jus às propagandas que diziam: “Chile una potencia forestal y fructífera”. Para relatar alguns pontos, estava passeando pelo belo mercado de peixes, quando vejo um lindo tubarão de pouco mais de 1 metro a venda, e o preço do quilo era muito barato [na época algo como 14 reais], a se eu pudesse, o traria inteiro. E sai pelos restaurantes dentro do próprio mercado, para saber se encontrava um pedaço de tubarão para comer, infelizmente não logrei, tive que me contentar com outros frutos do mar, embora saborosos, mas ainda hoje sinto água na boca ao lembrar-me de um pedaço de tubarão, fiquei na vontade. Também por todos os cantos era possível topar com empanadas e sanduiches feitos em um minuto. Um pouco gordurosos ás vezes, mas saborosas, as empanadas são servidas quentes e com ampla opção de recheios, acompanhado do famoso molho a base de tomates e coentro: molho pebre [se não me engano se pronúncia préve], este molhinho me conquistou com seu sabor marcante, cheguei até a trazer uma versão industrializada que encontrei em um mercado chileno. Comprei muitas coisas, as quais trouxe clandestinamente na mochila, como folhas de coca, sementes de pepinos, estigmas de açafrão [que comprei de uma velinha em uma feira por uma bagatela], uma espécie de milho roxo[maiz-niegro], o qual se faz um suco parecido com o de uva, e que tentei plantar aqui, mas os pés, apesar de nascerem não deram espigas [decepção]. As frutas, o Chile é o paraíso das frutas, não sendo a toa o rigor das aduanas como relatei no inicio do texto, no Chile é extremamente proibido o ingresso de qualquer material de origem animal ou vegetal, de forma a não contaminarem suas plantações e criações. E isto garante uma abundância de frutas, sejam elas de climas temperado ou tropical, sendo considerada uma potência exportadora de frutas frescas, que é também um dos pilares da sua economia. E na região central era muito comum encontrarmos tendinhas que vendiam sucos de frutas, permitindo várias misturas, sucos feitos com frutas frescas, e que amenizava de forma saudável o calor que sentíamos ao estarmos de um lado a outro da capital chilena em pleno mês de fevereiro. Em um supermercado, vim a encontrar uma fruta que pela última vez havia comido em minha infância, a groselha, da qual comprei uma caixinha, que inclusive trouxe [também clandestinamente] e fiz mudas aqui. A única falta que achei foi a de media-lunas, tradicionais no Uruguai e principalmente na Argentina, lá só consegui encontrar algumas de excelente sabor em uma pequena padaria dentro da estação de metro de La Moneda, onde comprei um grande pacote e me diverti comendo em um dos parques junto com um mate, naquela noite não precisei jantar.

Por falar em parque. Santiago tem muitos, ao redor do hotel em que fiquei a maioria dos dias, havia 3, cada um não distante mais que duas quadras. Lá existem muitos parques, praças, grandes praças, plazuelas, plazuelitas, todas muito bem cuidadas e limpas. Eu ia frequentemente após as 10 da noite e ficava até perto da meia-noite mateando sentado na grama em um parque próximo ao hotel, onde encontrava algumas outras famílias fazendo o mesmo, enquanto suas crianças brincavam. Reforçando aquela minha afirmação de que podemos julgar um povo, pelos seus parques e praças e por qual tipo de cidadãos os frequentam. Ali reinava a segurança, o familiar, gente de todas as idades, a descontração. Os canteiros centrais das avenidas, os espaços nas praças, são cheios de flores, nas ruas existem em muitos locais bancos para que os pedestres sentem e descansem [algo que podia muito bem ser usado aqui por nossos lojistas, patrocinarem a colocação de bancos, voltados para suas vitrines, ótimo marketing social].

A cidade de Santiago possui alguns “cerros”. Dois deles muito concorridos por turistas. Um deles é o Cerro Santa Lucía, a poucas quadras do centro da cidade, que possui um pequeno parque urbano, com praças, uma fonte e escadarias que levam a um mirante localizado no topo e que proporciona um belo visual panorâmico da região central da cidade, tendo como pano de fundo a Cordilheira dos Andes. E que merece uma vista. No mesmo local encontrei uma feira de índios mapuches, do qual adquiri uma flauta típica e tomei algumas lições, mas que infelizmente não consegui fazer soar nenhuma canção. Pelo contrário tomei uma advertência no hotel, pois estava perturbando os outros hóspedes nas minhas tentativas, desde então a tenho guardada, apenas como recordação.

Foi um passeio que acima de tudo, a sorte esteve ao nosso lado. Como no dia em que decidimos ir, atendendo as muitas recomendações, prestigiar a troca da guarda no Palacio de La Moneda [construído em 1805]. Sede da presidência da República do Chile, no coração do centro e palco histórico quando as tropas de extrema direita, lideradas por Augusto Pinochet [com apoio de governos exteriores, da CIA e também do Brasil], bombardearam o prédio forçando a renúncia e posterior suicídio do presidente Salvador Allende. Mas no tocante a troca da guarda, acontece a cada 3 dias, e casualmente, sem sabermos fomos justamente no dia em que estava ocorrendo e podemos prestigiar. Embora, tenho que confessar, eu achei um ritual monótono e antiquado. Outro golpe de sorte ocorreu quando fomos ao Museu Nacional de Belas Artes, e conseguimos ir justamente no único dia da semana, o qual a entrada era gratuita.

Aproveitei também minha ida ao Chile para tentar encontra os livros do chileno Enrique Barrios [autor de Ami – O menino das estelas], autor o qual muito procurei, pois no Brasil seus livros estavam esgotados. Um cara que escreveu livros de adultos para crianças, verdadeiras lições de maestria. E me fartei em uma livraria, onde consegui vários exemplares. Alguns deles estavam justamente na seção infantil, com suas pequenas prateleiras as quais eu parecendo uma criança, ajoelhado os procurava. Sai com 6 diferentes exemplares originais.

Assim como terra do estimado Enrique Barrios, o Chile tem outros belos escritores, não é a toa que é o único país das Américas [ou do mundo?] que possui dois poetas com o Nobel de Literatura, a Gabriela Mistral, presente também nas notas de 5 mil pesos e o orgulho nacional, Pablo Neruda.

E o bairro onde Neruda viveu, fica justamente o reduto boêmio da cidade, adentramos a noite nele, sem seguirmos mapas, buscávamos um bom barzinho pra jantarmos e descontrairmos. Porém o único que encontrávamos eram ruas sombrias, alguns bares que pareciam [ou eram] pontos de venda de drogas e/ou prostituição, ou reduto de bêbados miserentos. Quando já decepcionados, decidimos retornar, eis que caímos em uma rua tumultuada de tantos bares, de ponta a ponta, e como estávamos em uma sexta-feira, imaginem o movimento. Optamos pelo Patio Bellavista, um shopping plano e ao ar livre, com pequenas lojinhas e diversos tipos de bares e restaurantes, onde tomamos várias e diferentes cervejas chilenas. Um fato a observar é que para os chilenos o fumo é algo normal, não existe a taxação aqui presente, então fuma-se muito, e em todos os lugares, bares, restaurantes, ou onde mais lhes convier, aqui o Estado-pai não determina o que é certo ou errado neste aspecto, cada um é dono de seu nariz e os incomodados que se retirem.

Em Santiago o novo convive com o velho. Há grandes edificações das primeiras décadas do século XX, não só na região mais central, como também em bairros mais afastados, convivendo em harmonia com edifícios mais recentes O novo convive com o velho também na paisagem humana. Exemplo do que eu encontrava nos parques, muitos jovens presentes, contracenando com pessoas mais maduras, em uma mistura que encantava, pois nos trazia mais hospitalidade.

Algumas pessoas haviam me advertido que assim como os portenhos de Buenos Aires, os santiaguinos também se achavam europeus encravados na América, e eu, concordava que eles possuíssem todo o direito, pois vivem em uma metrópole organizada e com excelente nível cultural, que sem dúvida é uma das melhores capitais da América do Sul para se viver. Porém, esperando pessoas mais arrogantes, o que encontrei foi um povo muito cordial e bem educado.

No entanto, não estou falando em perfeição, em um dos bairros mais nobres, enquanto descansava de uma caminhada, visualizei uma situação muito desagradável, um sujeito pedindo esmolas em uma cadeira de rodas, eis que determinado momento o sol passou a incomodá-lo e este se levantou em pé, empurrou a cadeira até a sobra de uma árvore e voltou a sentar nela. Pensei que por um instante havia presenciado um milagre, um aleijado que passou a andar normalmente. Na verdade, um baita de um pilantra. Outro fator a citar, fomos alertados diversas vezes pelos santiaguinos de ladrões a espreita do descuido dos turistas, mas não fomos vítimas e nem presenciamos nenhuma cena destas.

A viagem a Santiago ainda tem muitas histórias, sobre museus visitados, restaurante, mercado público, ou as duas entrevistas dadas na rua para a CNN em espanhol, bem como sobre as demais belas cidades chilenas que foram visitadas após a semana em que fiquei em Santiago. Mais isto quem sabe renda outros textos.

Na última manhã em Santiago, tive que me deslocar até o metrô, para presentear alguém que fosse comprar uma tarjeta com aquela a qual eu havia ganhado e que ainda restavam alguns créditos não utilizados. Feito isto, como eu estava a duas quadras do Rio Mapocho, que é um pequeno rio que cruza a cidade, e que particularmente eu não via nada de especial nele, a não ser o parque que o serpenteava. No entanto, o mesmo era muito valorizado pelos seus habitantes, quase idolatrado, situação que me fez refletir. Em cima da ponte, vendo a água e as horas correrem, eu percebi que Santiago trata seu rio e seus cidadãos com muito mais respeito do que estamos acostumados. O Mapocho cruza a cidade, embora consideravelmente pequeno em volume de água, ele é respeitado e muito, é ponto turístico e cartão postal. O que de certa forma me trazia uma vergonha em comparar com exemplos parecidos no Brasil. E ademais me senti amigo de Santiago, nem havia partido e já estava imaginando reencontra-la, como um velho amigo, que sempre há o que se conversar, analisar e discutir sobre o hiato do tempo que nos separou em amizade. E uma sugestão a todos os amigos que quiserem tentar firmar esta amizade também, acredito que será muito proveitosa.

A Nova Ruptura

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As bibliotecas administrativas estão repletas de livros e métodos para que os executivos salvem suas empresas quando surge uma inovação que causa uma ruptura no seu modelo de negócio. Ao avistarem uma rival que normalmente oferece algo barato e que sirva de substituto para o seu produto, abraçando um segmento do mercado antes não completamente atendido, surgem às alternativas: ou a empresa opta por comprar esta nova concorrente ou reproduz por conta própria um negócio paralelo que atenda a esta nova tecnologia.

Esta tradicional situação envolve normalmente a substituição do bem produzido por uma alternativa inferior e mais barata, assim a empresa já estabelecida tem tempo de se ajustar e passar a concorrer com a rival que ousou surgir.

No entanto as novas formas de rupturas estão cada vez mais, não aparecendo através de concorrentes em um mesmo setor. Hoje usuários migram em questão de semanas provocando o surgimento ou a extinção de produtos e serviços de forma muito rápida. O pior de tudo, este fator alastra-se por todos os segmentos do negócio, não ficando no atendimento de um público antes periférico ou ignorado. Podendo agora dizimar mercados inteiros da noite para o dia.

O mais interessante disto é que esta ruptura não é intencional e nem planejada na maioria das vezes, não segue as estratégias existentes. E o diferencial é que através desta ruptura surjam produtos que custam menos do que os já disponíveis no mercado, sendo mais integrado a outros produtos ou serviços, desafiando em qualidade o produto estabelecido, ou seja, melhoram a experiência por um preço mais em conta.

Estes novos produtos que surgem como “memes” desafiam os produtos existnetes com características inovadoras, onde seu desenvolvimento é totalmente desimpedido, o crescimento em escala mundial é repentino e praticamente ilimitado, as experimentações são feitas diretamente no mercado e as estratégias são completamente indisciplinadas. As empresas existentes precisam de adequações totalmente novas frente estas situações.

Estas novas características faram os executivos afrouxarem o nó da gravata enquanto suam frio, mas ao mesmo tempo, marcam um momento que oferece um imenso potencial para os que forem capazes de aprender.

Publicado oficialmente em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=151127

E se Nova Iorque fosse no Brasil

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Por Odair Deters

Por estranho que possa parecer o título deste texto, a ideia inicial que os mercadores tinham na Idade Média era de que a “sede” do Novo Mundo viesse a ser no Nordeste brasileiro, tanto que os mesmos fundadores da atual Nova Iorque nos Estados Unidos, antes tentaram desenvolver sua metrópole nas terras do sertão brasileiro.

Loucura? Não, nenhum pouco, desde que se leia nas entrelinhas da história. A Companhia das Índias Ocidentais [Criada em 1621], essa grande multinacional com bandeira holandesa, na sua implantação no Novo Mundo, escolheu como sede a cidade de Recife [Que então estava sob o domínio holandês]. O comandante da empreitada foi Maurício de Nassau [Johan Maurits van Nassau-Siegen], e o objetivo desejado era na verdade, constituir uma base sólida, segura, uma nova sede para os negócios no Novo Mundo onde, vislumbravam, além do paraíso terrestre, o futuro do “business” mundial.

Para isto, começaram a migrar para o Recife [então com 10000 habitantes] a partir de 1635 as primeiras famílias judias de Amsterdam [então local de escape da Santa Inquisição] , lideradas pelo judeu Manuel Mendes de Castro [Manuel Nehemias], que atribuíam o objetivo inicial de criar uma colônia agrícola, mas ao chegarem se dispersaram, e ingressaram no ramo do comércio que logo passariam a dominar, durante o governo do então Conde Mauricio de Nassau [Posteriormente virou príncipe na Europa], entre 1637 e 1944, onde os judeus controlavam no mínimo 40% das exportações pernambucanas de açúcar para a Holanda e a Alemanha, tornaram donos de propriedades açucareiras, mercadores e até mesmo rendeiros na cobrança dos dízimos ou responsáveis por empréstimos.

Cabe apenas o registro de que a presença judaica em Pernambuco é anterior a esta migração, a citar o destacado caso da judia Branca Dias, nova-cristão [atribuição dada aos judeus como forma de evitarem as fogueiras da inquisição], mas que não escapou da acusação de praticas judaizantes pelo Santo Oficio, sendo que a mesma exercia um “rabinato feminino” e foi uma das matriarcas do criptojudaísmo brasílico. Branca Dias veio de Lisboa, onde cumpriu pena pelas práticas judaicas que mantinha no reino. Atribuem como descendentes de Branca Dias inúmeros personagens ilustres na história do Brasil, e que tem na sua 14ª geração pessoas como Ciro Gomes, ex-ministro brasileiro e o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, primos entre si de grau distante, entre outros.

Mas no tocante a imigração na Recife holandesa, foi onde edificaram, no Século XVII, a primeira sinagoga das Américas [kahal Zur Israel], no casarão número 197 da Rua do Bom Jesus, no bairro do Recife Antigo. Também a primeira manifestação literária em hebraico foi escrita em solo pernambucano por Isaak Aboab da Fonseca que foi o primeiro rabino das Américas. A comunidade judaica deixou marcas forte no traçado da cidade do Recife, construções e hábitos ainda hoje presentes. Inclusive no período um judeu chefiou os índios Tapuias Janduis, quando a pedido de Mauricio de Nassau, o judeu alemão Jacob Rabbi, foi para o interior da Capitania, criar laços de aliança política, absorveu hábitos dos indígenas e tornou-se um verdadeiro líder destes.

A tolerância e a prosperidade que os judeus tiveram na colônia duraram até 1644, quando conde Mauricio de Nassau retornou aos Países Baixos, e as coisas começaram a mudar. Os representantes dos proprietários de terra luso-brasileiros iniciaram um movimento para expulsar os exércitos da Companhia das Índias Ocidentais, no que ficou conhecido como a Insurreição Pernambucana.

Os motivos do fracasso foram puramente religiosos, já que os patrocinadores da empreitada, muito tementes ao poderio católico, valeram-se de mercenários da Holanda, calvinistas e judeus, repetindo erros crassos do catolicismo na Idade Média, estes, tentaram impor o credo protestante, à força, aos católicos pernambucanos, que até então mantinham a mais completa indiferença frente aos invasores. Fatos como a profanação de igrejas, agressões a sacerdotes, despertaram o que se pode considerar o primeiro despertar da nacionalidade brasileira, que terminou na expulsão dos invasores a pau, pedras e bacamartes. Após dois meses desde a deflagração dos conflitos, com a cidade do Recife isolada, cerca de oito mil pessoas ficaram sem qualquer acesso aos alimentos produzidos na zona rural. A fome era tal que até ratos foram consumidos pela população. Em tempos em que a ajuda demorava pra chegar, todos tiveram que partir, com eles levando junto todos os prósperos negócios que vingavam na então em construção, sede do Novo Mundo.

Cerca de 400 judeus ou 150 famílias de moradores do Recife voltaram para os Países Baixos em 17 barcos. No entanto os tripulantes do navio Valk, um grupo de 23 judeus adultos e várias crianças acabou tendo sua embarcação interceptada por piratas espanhóis e foi aprisionada na Jamaica. Depois de conseguir escapar com o apoio dos franceses, rumou [em 1654] para o Norte a bordo do barco Sainte Catherine. Na nova terra, um vilarejo com apenas 1500 habitantes, criaram a primeira comunidade de judeus norte-americanos, local que mais tarde ganharia o nome de Nova York. Os descendentes destes judeus portugueses se transformaram em figuras proeminentes na sociedade americana. Um deles, Benjamin Cardozo, já falecido, alcançou o posto de juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Outro, Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova York, é o mais destacado especialista de teoria dos jogos aplicada à ciência política.

Mas o desfecho mais inusitado foi o destino dos judeus que escaparam da Insurreição Pernambucana, e retornaram a Holanda, onde pararam por um breve período até o braço armado da multinacional se reabastecer, dirigiram-se com seus empresários novamente para o Novo Mundo, estabelecendo-se agora mais ao Norte, no mesmo vilarejo chamado então de Nova Amsterdam [homenagem ao porto de origem], o qual os que foram alvos de piratas haviam aportado, onde hoje é a ilha de Manhattan [que foi adquirida dos nativos por algo como 30 dólares].

A partir de então, os mercadores atentaram para não cometer os mesmos erros do Recife, cuidando, zelosamente, para que a colonização do grande país do norte fosse feita à distância considerável do catolicismo, por puritanos protestantes. Esses cuidados intensos com a formação religiosa foram frutíferos e as colônias, mais tarde inglesas, sempre protestantes, continuaram merecendo a atenção e o generoso financiamento dos comerciantes.

Posteriormente [1664], quando o “quartel-general” do então mundo judaico-financeiro migrou da Holanda para a Grã Bretanha, a “filial” americana, ajustando-se aos novos tempos, foi rebatizada de New Amsterdam para New York, pelo Duque de York e Albany, assim permanecendo até hoje. [a cidade brasileira de Natal/RN também era conhecida por New Amsterdam quando estava sobre o domínio neerlandês].

Para Portugal custou caro ter ocorrido a expulsão da elite dos mercadores do Nordeste brasileiro, os lusos tiveram que pagar pela colônia perdida, a Holanda, 63 toneladas de ouro, com pagamento parcelado anualmente que levou 4 décadas para ser quitado, além de ceder o Ceilão [atual Sri Lanka] e as ilhas Molucas, bem como conceder privilégios aos neerlandeses sobre o comércio açucareiro, sob ameaça de ter Lisboa invadida.

No bairro de Chinatown em Manhattan, existe um cemitério dos judeus originários do Recife e seus primeiros descendentes, e é considerado um dos mais bem guardados segredos de Nova York, tendo nele os responsáveis pela metrópole com a segunda maior população judaica do mundo [e maior fora de Israel], depois de Tel Aviv. Algumas de suas tumbas possuem inscrições em português, inglês e hebraico, tendo palavras como “Faleceu” e “Aqui Jaz”.

E o Brasil perdera, por muito pouco, a oportunidade de ser o berço do primeiro mundo, sede do poder mundial. Sendo Nova York e não Recife, o local onde os centros financeiros europeus fincaram profundas raízes nas terras do Novo Mundo e lá começaram a se organizar e a prosperar sempre com a expectativa de lançar sementes e colher o maior entre os maiores instrumentos de poder e da opulência, o controle financeiro.