A pandemia social

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Odair Deters

29/11/2013

Virulências atuais e não biológicas

Acaso alguma ou algumas vezes você não questionou como alguns produtos, serviços, situações, palavras ou atitudes viram moda da noite para o dia? Como, e porque isto ocorre? Casos como o do Tamagoshi, do Iphone, do livro 50 tons de cinza ou da saga Crepúsculo, a cor do seu vestido nesta estação, bem como o fato de ser um vestido a moda, o whatsapp e o Snapchat, as manifestações sociais que tomaram conta do Brasil recentemente e as que derrubaram governos com a Primavera árabe ou mesmo frases como, “menos a Luíza que esta no Canadá” e aí estão criados os memes [meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma auto propagar-se, e podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma]. Então já imaginou que tipo de mudança faz, por exemplo, com que livros desconhecidos se transformem em best-sellers?

Um jornalista britânico [Malcolm Gladwel] respondeu dizendo que: “Idéias, produtos, mensagens e comportamentos se espalham como ví­rus”, criando então epidemias sociais entre as pessoas.

Uma afirmação desta situação encontramos na Matemática em que podemos tentar explicar isto partindo do princípio de Pareto [ 80/20], em que se afirma que para muitos fenômenos, 80% das consequências advém de 20% das causas. Simplificando e exemplificando, podemos dizer que 80% do trabalho é feito por 20% dos empregados ou que 20% dos clientes respondem por 80% dos lucros de qualquer negócio.

Assim, uma epidemia depende de um pequeno número de pessoas para se deflagrar, caso típico da AIDS ou dos comuns surtos de gripe, e para que isto ocorra, existe um momento único, um instante crítico em que surge a mudança que, embora pequena, surte um efeito extraordinário que permite a propagação.

Basicamente este instante que permite tirar algo da exclusividade para o patamar de contagioso ocorre por 3 fatores:

– Os Portadores da Mensagem: Onde pessoas dotadas com talentos sociais, sejam elas nossos amigos, pessoas que admiramos ou famosas, são os percursores do vírus. Podendo serem hábeis comunicadoras as quais conseguem por meio de seus laços de amizade e contatos espalhar um determinado meme. Em algumas situações experts sobre um determinado assunto ou produto, com a capacidade de conectar você a um determinado mercado por exemplo, aqui está incluído aquele amigo o qual você questionaria agora para pedir informação sobre determinado restaurante, o qual você deseja ir, e ainda dentre os “portadores” entram os vendedores, capazes de usar a persuasão para venderem uma marca, ideia, ou produto.

– A aderência da Mensagem: A fixação é a parte que garantirá o maior sucesso para a mensagem, normalmente é constituída de pequenos e aparentemente insignificantes elementos, mas que possuem um grande poder. Aqui reside a inovação e entrariam exemplos como o uso de contornos do corpo feminino em carros esportivos de luxo, de forma a atraírem inconscientemente os compradores masculinos, ou mesmo jingles como aquele de uma empresa que vendia gás para uso residencial e que era comum circular com seus caminhões tocando a musiquinha: “o lacre azul do cachorrinho”. Aqui é o fator que vai ficar na sua mente.

– O contexto da mensagem: Residem no ponto em que podemos mudar nossas atitudes dependendo do contexto em que estamos inseridos naquele momento. Sendo que o ambiente influencia mais do que nossos comportamentos e pensamentos padrão. O conhecido efeito manada entra aqui, em que em uma partida de futebol, se ocorre um tumulto e pancadaria, pessoas relativamente tranquilas e que jamais imaginávamos em meio a confusão, tornam-se irreconhecivelmente violentas. Ou o fato positivo em que cidades que com pequenas atitudes como limpeza e coibição de pichações, combate a pequenos furtos e violações, entre outros, conseguiram reduzir a criminalidade de forma elevada, pois estas ações acabaram com a sensação de abandono e caos que existia, trazendo a ordem ao local. Portanto uma epidemia pode ocorrer com pequenas alterações do ambiente.

Claro, as epidemias sociais, ou novidades contagiantes podem ser maléficas ou benéficas. Basta imaginar uma epidemia de usuários de uma nova droga artificial, ou de suicídios entre jovens, ou no meu ver a modinha do sertanejo universitário e do funk [desculpa aos amigos que eu desagrado], mas isso passa, assim como “é o tcham” passou. [Ainda bem que certos vírus a cura surge com o tempo.]

Bom, seria então possível controlar intencionalmente tais processos? Não só se mostra possível, como obviamente estão usando em muito, principalmente em nossa relações de consumo.

Por que então esta virulência não pega em certas ações que julgam-se boas, como as fortes campanhas antitabagistas e suas horrendas fotos no verso das embalagens, no entanto o fumo continua crescendo entre os jovens, principalmente entre as mulheres. A única explicação para isto, reside em que as pessoas não foram estimuladas de forma a aderirem, o que constitui mexer com os elementos certos, na hora certa e de forma correta.

E não se tem como não ligar a virulência não biológica as redes sociais virtuais o que pode causar uma imunidade a formas tradicionais de comunicação, e a partir desta imunidade contrabalancear por um certo desprezo que tende a crescer pelas redes sociais, existindo uma nova tendência de se recorrer aqueles com quem possuímos admiração e respeito e que a relação de confiança tem fortes laços, reforçando padrões do marketing boca-a-boca, de tal modo a preceder um poderoso marketing da indicação.

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KRAMPUS: O NATAL DO DEMÔNIO

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Por Odair Deters

26/11/2013

É Natal, estamos na primeira metade da década de 90, em um distrito interiorano chamado de Colônia Municipal [Buriti], localizado no interior de Santo Ângelo [Rio Grande do Sul], próximo à fronteira com a Argentina.  Local onde antes da virada do século, encontramos algumas das últimas celebrações natalinas com características mais morais do que comerciais.

Onde um Papai Noel ainda com vários atributos germânicos se fazia presente, sem o molde americanizado e do bondoso apelo comercial. Era um senhor que metia medos e com certeza marcava o inconsciente das crianças presentes naquela pequena escolinha que abrigava não mais do que 30 alunos.

As vésperas do Natal, várias famílias de moradores das proximidades reuniam-se na pequena escola. E eis que surgia no horizonte, rengueando devido à longa jornada, com rosto nada amistoso, o Papai Noel. Sem ostentar a marcante expressão de velhinho bonachão e idealizador de sonhos, carregava além do rústico saco de presentes, uma face bruta, clara identificação com o demônio Krampus. Krampus vem de Krampen, palavra para “garra” do alto alemão antigo, e que designava o antigo companheiro de São Nicolau (o nosso Papai Noel), que trazia junto um chicote para punir as más crianças.

Esse Papai Noel que percorria os recôncavos deste distrito mesclava o divino e o diabólico [Krampus e São Nicolau], punia e corrigia, para isto tinha uma enorme vara de madeira, símbolo de poder e ferramenta para punir aqueles que mantiveram um péssimo comportamento, fazendo ameaças com a mesma, conseguia com que quase todas as crianças chorassem, o ambiente perdia um pouco da chamada doce magia atualmente atribuída a esta data e também não eram entoadas canções natalinas, pois estas eram originárias do costume de bêbados agressivos que nos primórdios da nossa tradição ameaçam as pessoas de porta em porta em busca de comida e bebida.

Mas na celebração que ocorria neste rincão de colonização germânica, o choro das crianças era tradicional. O que pode estranhar muito aos pais que hoje mimam seus filhotes, mas acredito que fatos assim implicam em um desenvolvimento de caráter muito mais forte nestas crianças, pena que a tradição morreu neste rincão ao abraçar-se com a tradição moderna, composta de presentes, regalias, mimos, sorrisos e renas voadoras. Quem sabe este cantinho de colonização teutônica, perdido no mapa do Rio Grande do Sul, foi um dos últimos que viu Krampus apresentar-se sem sua veste tipicamente comercial. Fato é que o demônio continuou vermelho, mas agora muito mais sedutor, encantador, porém será que com a mesma capacidade de apresentar e cobrar das crianças valores morais?

Celeste, a seleção gaúcha na Copa

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Por Odair Deters

22/11/2013

Os nossos irmãos orientais[nome herdado por encontrarem-se na faixa leste do Rio Uruguai], demonstram no futebol a bravura do povo gaúcho. Afinal, um país com pouco mais de 3 milhões de habitantes, dono de duas Copas do Mundo e ainda capaz de fazer frente a grandes seleções como Itália, Argentina, Inglaterra e Brasil.

Enquanto que na Europa vivendo em um país semelhante [cultura da bravura, população e área territorial], os escoceses acreditam que justamente a falta de população prejudique o desenvolvimento de uma seleção forte capaz de enfrentar sem temer as potências futebolísticas do Velho Mundo, principalmente os ingleses. Os uruguaios por sua vez já tiveram bons embates contra os vizinhos da outra margem do Rio da Prata, possuindo 15 Copas América, contra 14 dos rivais [Brasil tem 8] e a mesma quantidade de Taças Mundiais. Diante dos canarinhos pentacampeões a história também é de respeito, pois já levaram a Copa de 50 em pleno Maracaña contra o Brasil e na última Copa do Mundo ficaram com a 4ª colocação [muito a frente de Brasil, Itália, Argentina e Inglaterra], e será cabeça de chave na Copa de 2014 aqui no Brasil [algo que o Brasil só conseguiu por ser país sede].

Existe os que tentam ensacar uruguaios e argentinos juntos, pois estes tem o mesmo idioma, cultura gaúcha e a raça nos campos como características, a mesma raça que no Brasil só é valorizada em campinhos no interior do Rio Grande do Sul, quando daí pra cima prefere-se a firula. Mas a diferenciação dos uruguaios nasce na sua história, o fato de que durante a colonização europeia, a Cisplatina foi disputada por portugueses e espanhóis. Os primeiros queriam evitar que os últimos tivessem pleno domínio do rio da Prata [território teoricamente espanhol]. O tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo, manteve a Colônia do Sacramento, [cidade localizada à frente de Buenos Aires], para os lusitanos. Com as independências sul-americanas, Brasil e Argentina disputaram os campos orientais, até o Uruguai conquistar sua independência. Por isso no combinado nacional da Celeste, é possível encontrar muitos jogadores com sobrenome português [Silva, Pereira, Oliveira, Coelho…], a composição étnica também se diferencia um pouco da argentina, por possuir menos descendentes indígenas e mais negros e mulatos [Álvaro Pereira, Arévalo, Abel Hernandez, Zalayeta…].

Além dos desfechos históricos, umas das explicações para a força do futebol uruguaio, reside na cultura futebolística, os uruguaios são fanáticos por futebol. Assim como a excelente carne do Pampa e o hábito de tomar chimarrão os uruguaios se hermanan com o Rio Grande do Sul no futebol, com o fanatismo, com a raça interiorana, e onde dois grandes clubes polarizam o cenário. Para os orientais o futebol, é dividido entre os carboneros do Peñarol e os bolsos do Nacional, os demais clubes em sua maioria assim como Buenos Aires, superpovoam a capital, normalmente dominando seus respectivos bairros.

O fato de sediar a primeira Copa do Mundo ajuda muito, pois os uruguaios valorizam sua história, bem como o orgulho de ter sido o primeiro campeão do mundo e é indispensável uma passada pelo estádio Centenário quando de uma visita a Montevidéu.

Montevidéu que está envelhecida foi-se a época em que o Uruguai era a Suíça Sul-americana, sua população jovem migrou muito, a ditadura militar e o recesso econômico ajudaram, sua cultura sofre um esmagamento por viver entre dos gigantes Brasil e Argentina, mas com garra segue um país com excelentes condições de vida e muito futebol, inclusive simpatizando com o futebol brasileiro, não é difícil ver pessoas ostentando camisetas de clubes brasileiros, principalmente do Grêmio que gera uma queda absoluta nos cidadãos charruas.

Energizada com mate, os uruguaios constituem a seleção gaúcha na Copa do Mundo de Futebol, com uma característica muito marcante, onde podemos dizer que se os brasileiros são apaixonados pelo futebol, os uruguaios o Amam.

Dá-lhe Celeste!

Como eu crio mundos

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Por Odair Deters

20/11/2013

Um mundo como vontade e representação [Arthut Schopenhauer]

E eis que cruza na história da filosofia o “Cavaleiro solitário” [definição cunhada por Nietzsche], seu nome: Arthur Schopenhauer [1788-1860], cavalgando um dos pensamentos mais instigantes e marcantes da filosofia.

Como ele mesmo afirmava: Faria os homens tremerem, assim escreveu sua mais destacada obra: “O mundo como vontade e representação”, dando nos a entender que o mundo é minha representação e minha vontade.

Partindo do pressuposto de que o conhecimento reside em nós mesmos e sem rodeios Schopenhauer nos traz a lucidez de que não conhecemos determinada coisa, e sim que conhecemos o que percebemos dela, ou seja, o que conhecemos a nossa volta é apenas fruto da nossa representação [“o mundo é minha representação”], em um mundo onde as coisas tem existência meramente relativas. Antes que alguns se considerem perdidos e desesperançosos na “matrix”, cabe ressaltar que os sujeitos são identificados como os responsáveis que garantem o sustentáculo do mundo. Neste caso: se todos os habitantes deste mundo desaparecessem, o mundo também desapareceria, pois ele é unicamente a representação dos sujeitos que nele habitam [existência = perceptibilidade].

Qualquer objeto unicamente existe quando percebido por um determinado sujeito, pelo menos um sujeito tem que percebê-lo, e o conhecimento da coisa-em-si, a mônada primordial, o absoluto, seria incognoscível para nós. Sendo que a essência da coisa em si, seria a Vontade, representada pela força vital, pelo impulso, um querer viver incessante, sendo característica em todo o universo, e este, portanto uma expressão da Vontade.

O mundo como representação é a vontade tornada objeto; é à vontade objetivada.

Assim a vontade schopenhaueriana se objetiva em graus mais baixos com forças como a gravidade, solidez, elasticidade, eletricidade, magnetismo…fenômenos todos associados a manifestações imediatas da vontade. E esta vontade se objetiva também em graus cada vez mais elevados, partindo do reino inorgânico, passando pelos reinos mineral, vegetal, animal e encontrando no humano a expressão extrema de sua objetividade. Mesmo assim seria errado entender que no homem existiria “mais vontade” do que em uma planta.

Mas este elevado estágio, lhe permite buscar a coisa-em-si. Sendo o corpo físico o instrumento que permite o acesso, pois ela [a coisa-em-si] é uma e indivisível, estando presente em uma pessoa, em um cachorro ou em uma pedra, em um pinheiro ou em milhares de pinheiros, portanto bastaria unicamente aprendermos a essência  de um único ser e teríamos a essência de todo o universo. Constituindo então para este filósofo um erro partir de fora ou buscar fora o conhecimento.

O homem pode então, encontrar em outros corpos a mesma vontade que habita em si, una e indivisível. Esse encontro se dá através do bi conhecimento que possui do seu próprio corpo, que é, a representação e a vontade, podendo assim penetrar na essência de toda a natureza, dando se conta que todo o mundo a seu redor foi criado por ele mesmo.

Robinson Crusoé: O Capitalista ilhado

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Odair Deters

19/11/2013

 No final do século XIX,  nenhum livro na história da literatura ocidental tinha mais reimpressões, e traduções [até mesmo para idiomas como inuíte, copta e maltês] do que Robinson Crusoe, com quase 700 versões incluindo edições infantis sem texto. Este romance escrito por Daniel Defoe, foi publicado em 1719 no Reino Unido, e trata-se de uma obra com um tom confessional e didático, sendo uma autobiografia fictícia do personagem que dá nome ao livro, que após naufragar, passou 28 anos em uma remota ilha caribenha, entre Trinidade e a Venezuela [possivelmente Tobago], convivendo com canibais, cativos e revoltosos até ser resgatado.

Indiferente da real influência que o autor possa ter recebido, os relatos trazidos nos processos de caça, agricultura e submissão dos nativos, constituem uma alegoria muito profunda se comparada à produção capitalista [acumulação primitiva].

Robinson Crusoé na visão de um economista encarna a capacidade e o instinto da espécie humana de sobrepujar a natureza – A lei do mais forte – Com conquistas, escravidão, exploração e crimes. No romance um britânico que acumula riqueza possuindo e explorando mão-de-obra em uma plantação de cana-de-açúcar no Brasil e posteriormente empregando o mesmo método na ilha a qual naufraga, mostrando assim o surgimento de um capitalismo primitivo baseado numa economia agrícola colonial onde as conexões espontâneas de igualdade entre as partes vai deixando de existir.

Embora normalmente as histórias de náufragos trazem sujeitos que precisam de engenhosidade e esperança para sobreviver e mesmo no caso de Robinson, nos trazem a ideia de que o personagem precisa contar consigo mesmo para sobreviver, não é bem assim que acontece na fictícia autobiografia. Onde Crusoé continuou dependente de outros para manter-se, mostrando a natureza profundamente social da produção, onde mesmo o indivíduo isolado se conecta ao capitalismo tal como um grupo devidamente organizado socialmente de trabalhadores.

O nosso personagem, neste caso acumulou mesmo ilhado muitas riquezas, que não sonhava adquirir antes do naufrágio, pois suas propriedades no Brasil continuaram zelosamente sendo mantidas e valorizando-se enquanto que na ilha perdida ele desenvolveu um sistema econômico que lhe conferisse riqueza e poder.

Com Robinson na ilha, Defoe[o autor] não nos traz apenas um herói aventureiro em sua ilha deserta, mas sim consegue desenhar processos da dinâmica capitalista, como: solidão, privação, incerteza, dependência e medo. Afinal os longos anos de solidão do naufrago podem ser paralelamente comparados a também insuportável alienação capitalista.

Mas assim que Robinson sai da solidão, seu desejo de controle e acumulação ressurge. É apenas enquanto explora sua própria força de trabalho que ele para de medir as coisas nesses termos. Isto nos dá o entendimento de que o dinheiro e o capital são relações sociais fundadas sobre o poder. Independentemente do que sentem os capitalistas quando contemplam seus estoques, é o poder sobre o outro que eles contam e acumulam – certamente nos daríamos conta disso se, como Robinson, ficássemos sozinhos.

Por que hoje investimos tanto em segurança, condomínio que são fortalezas e sistemas de proteção como grades, muros, alarmes? Isso bem explica o isolamento de Robinson Crusoé, que faz com que sua mente reaja com suspeita diante da presença de um visitante, ou seja, uma alienação do indivíduo possessivo.

No romance, Robinson salvou a vida de um nativo [o Sexta-feira], e administrou sobre este uma metodologia para torná-lo um subordinado, marcando a posição de superioridade, de domínio, sem a necessidade direta do uso da força [espingarda], para que este mesmo sendo subalterno encontrasse em seus sentimentos o sentido de ser “livre”.

Entre o encontro de vestígios de presença humana até o encontro com Sexta-feira, transcorre um período de 10 anos, em que Robinson praticamente reduz suas atividades produtivas, não havendo a necessidade de demonstração de poder. Eis que surge um sujeito, que após conquistado, recebe todo o tipo de tarefas, tornando novamente Robinson um Homo economicus, onde o trabalho encontra seu pleno valor. E Robinson passa a desenvolver novas atividades produtivas, empreender, construir, contabilizar e acumular.

Com o tempo novos personagens vão desembarcando na ilha, Robinson usa aí de seu monopólio sobre os meios de produção e dita às leis aos que chegam, e claro à medida que seu pequeno império cresce, com ele crescem os problemas, tendo que recorrer ao terror, religião, a delimitação de fronteiras e delegação de autoridade real para que outros o ajudem a manter a sua ordem.

O capitalista pintado por Defoe naufraga em uma ilha deserta situada fora do mercado, mas não fora do mundo. Uma ilha onde se pode ver os primórdios do capital, podendo ser identificados a ilusão coletiva e a ampliação do mesmo pela força e pelo trabalho de outrem. A natureza do capital de Crusoé não difere muito das grandes fortunas e suas origens coercitivas.

Onde para Sexta-Feira, tínhamos o trabalho, para Robinson, tínhamos o capital, preconizadores da inovação, da organização e da constituição de um império. No entanto se não tivesse Crusoé conquistado seu sistema, o que teria sido de Sexta-feira? Teria morrido? A prosperidade da ilha como teria ficado? Indagações que levantam amplas discussões, mas asseguram que Robinson Crusoé antecedeu em quase um século o barbudo Marx nas suas preocupações quanto à acumulação capitalista, explicando de forma divertida e romanceada questões que o barbudo com seu intelectualismo replicou, porém recheou de erros.

A utopia de Marx

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Por Odair Deters

08/11/2013

Incontestável é a identificação por Marx do caráter predatório do capitalismo. Onde no século XXI conseguimos já identificar e em partes mensurar as ações predatórias que devastaram parte do planeta e que possuem íntima relação com o capital.

No entanto o velho barbudo, judeu e ateu [incongruência], falou muito e errou muito. E não apenas em situações, como a previsão de que os salários dos trabalhadores iriam cair mais e mais e que assim seria deflagrada a queda do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Mas sim uma ordem de erros tão grandes, que apodreceu a base de sua teoria.

Marx queria colher feijões gigantes plantando pequenas sementinhas, quando dizia que devemos “substituir o governo sobre os homens pela administração sobre as coisas”, gestando a utopia socialista. Necessitando para isto que o governo deixasse de regular a vida das pessoas, tanto importando quem dorme com quem, que religião professamos, ou que esporte estamos jogando. Achando que cada um neste socialismo poderia: pintar, fabricar móveis, construir casas, sem ter que ser pintor, marceneiro ou pedreiro. Essa identificação libertária preconiza a abolição do Estado, e seu comparsa Engels reforça dizendo que: Surgiram juntos e sumirão juntos, o Estado, a propriedade privada e a família [entendida como um sistema repressor, e não como um vinculo de instinto e amor]. Uma vida sem intromissão do Estado, porém bastante vaga na teoria, pois se desconhece como isto seria levado na prática. Mas o ideal tem força e não deve ser abandonado jamais. Assim, suprimir o Estado quer dizer também acabar com todas as representações políticas, e o barbudo semita já escrevia isto quando a força e representações políticas eram muito menores do que hoje [naquele período os parlamentos estavam recém aflorando].

Fato notório, é que um governante eleito, não dificilmente trai seus eleitores, e desenvolve atividades que não fazem jus ao que havia prometido. Então que, observando este fato, Marx e seu futuro seguidor Lênin, passam a dar vida à ideia de um mandato revogável, ou seja, o eleito pode ser destituído por seus eleitores [ideia surgida na Comuna de Paris[1], 1871]. Essa ideia desenvolvida, curiosamente, hoje é aplicada como em nenhuma outra parte, no maior símbolo do capitalismo, os Estados Unidos. Já o senhor Marx nunca se aplicou a desenvolvê-la mais, e seu comparsa Lênin, que teve o poder e a oportunidade nas mãos, jamais a levou a cabo. Revogar algum político eleito, obviamente iria requerer um voto ao estilo distrital[2] e não proporcional[3] [método que temos hoje no Brasil], e paradoxalmente a votação distrital tornou-se uma arma contra a esquerda, exemplo os partidos comunistas que mesmo com forte votação país a fora, distritalmente acabam sendo quase sempre uma minoria.

O movimento operário de Marx insistia que os interesses dos trabalhadores são opostos ao capital, dizendo que os trabalhadores do mundo todo estavam sedo enganados pelos “nacionalismos”, que não passavam de projetos para que os capitalistas de cada país mantivessem suas colônias e mercados, então era objetivo extinguir os Estados nacionais, considerados uma organização repressora.

Marx, era ótimo nas críticas, mas transformar a teoria em prática, substituindo o sistema econômico e o poder mundial do capital, passaria pela necessidade da existência de um poder igualmente mundial. Além de palavras, nada mais Marx deixou? Um poder mínimo quanto ao controle das pessoas [alguém já conseguiu imaginar um sistema socialista assim?], e que ao mesmo tempo garantisse a produção econômica e servisse de meio representativo dos trabalhadores do mundo, podendo ser destituído por estes. Bonito né? E na prática, mero sonho, que quase dois séculos de marxismo não trouxeram nada consistente e que atenda a estas premissas, o que jogou os marxistas e seus simpatizantes para todos os lugares e partidos, onde alguns defendem a ideia da nação, como forma de se opor ao império estadunidense, outros defendem fortes governos impositivos e que controlem cada suspiro na vida de seus cidadãos.

Desta forma Marx que queria combater os utópicos, nada mais fez do que criar sua própria utopia.


[1] Foi o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante a invasão ocorrido pelo Reino da Prússia. O governo durou praticamente dois meses de 26 de março a 28 de maio.

[2] O voto distrital é, um sistema em que cada membro do parlamento é eleito individualmente nos limites geográficos de um distrito pela maioria dos votos (Simples ou absoluta).

[3] No Brasil, o voto proporcional é adotado nos pleitos para deputados federais, deputados estaduais e vereadores. Legislado pelo Código Eleitoral, Lei 4.737 de 15/07/1965, parte Quarta, Título I, Capitulo IV (art.105 a 113)

Instinto Moderno

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Por Odair Deters

05/11/2013

A sociedade deriva do sexo e das suas relações reprodutivas. Estas relações reprodutivas formam unidades de trabalho, assim os primeiros bandos tribais humanos mantiveram-se unidos pelos laços entre casais e grupos [afeto e confiança]. Assegurando isto encontramos o ato partilhado, o acasalamento, o relacionamento, e dele irradiando a ternura, o sublime, desdobrado na relação entre casal, filhos, irmãos, tios, avós, e toda a família constituída, ou bando, tribo, população.

Esta população propiciou a formação dos Estados. Desenvolvendo distintas classes a partir do momento em que com a formação de governos [inicialmente bandos invasores] que ao conquistarem um novo espaço/população, provocavam a divisão por classes entre invasor e invadido, privilegiados e carentes, produzindo a condição de pobreza, assentada através da criação das “leis” que garantiriam a perpetuidade da regência pelos invasores.

No instinto humano estão impregnados estes laços de casais e de bandos de mamíferos, buscando garantir a sobrevivência da família a qual faz parte e seu status.

Porém com o crescimento da família a população aumentou, de forma a se desenvolverem os Estados feudais, que vieram a culminar nos Estados capitalistas modernos, onde os laços familiares [tribais] começaram a se deteriorar. Este momento foi o inicio de novas divisões entre as famílias, ao ponto da desconfiança existir praticamente entre todos, ou seja, foi se atrofiando o comportamento tribal, as atitudes do bando, sua confiança, solidariedade, afeto, entre outras características, que provocam por sua ausência uma série de revezes como ansiedades, alienações, frustações, inclusive a própria característica de manutenção da espécie no momento em que vai se perdendo a preocupação da necessidade de deixar sementes heterossexuais.

Parte desta alteração se deu pela necessidade primordial da sociedade capitalista – o dinheiro de papel – pois ele confere hoje a característica maior para a sobrevivência da espécie. Transformou-se no vício moderno. Vicio do qual, caso não ocorra doses regulares, o ser necessitado sofre de ansiedades, traumas, carências, comportamentos desesperados e desesperanças, rouba, mata e uma série de outros transtornos. A segurança outrora existente do bando é trocada pela segurança do dinheiro e a falta dele provoca a exclusão do bando e sua insegurança.

Primitivamente a tribo garantia uma capacidade de sobrevivência muito superior ao de um único indivíduo, e um comportamento que provocasse a expulsão da tribo incorreria no risco da não sobrevivência, o que foi transferido na sociedade moderna [capitalista] para o dinheiro, logo a abstração capitalista propaga o declínio da tribo.

Nas sociedades financeiramente mais ricas, a falta de dinheiro torna o cidadão indigno e vergonhoso perante o bando, nota-se o oposto em sociedades mais carentes onde os laços de bando mostram-se um pouco mais firmes ainda. Evidenciando assim, que todo o puritanismo que o sexo possuía nos séculos anteriores, transformou-se agora em um puritanismo basicamente monetário. Sendo hoje o debate do sexo e suas preferências mais abertamente tratadas do que as questões financeiras individuais.

Este texto não é nenhum tratado contra o capitalismo, apenas tenta-se relacionar a nossa história, no processo de substituição das importâncias [bando x dinheiro] de forma a atender o nosso instinto, deixando de lado a sensação de segurança da tribo em troca da sensação de segurança monetária, no qual inclusive pode ser representado pela segurança social que se torna uma tentativa de falsificação desses laços por parte do Estado [welfare state]. Não sendo também a toa que as oscilações da oferta e a retirada de moeda estão tão epidêmicas na sociedade capitalista em que estamos vivendo, pois atualmente adentrar na pobreza, é o mesmo que tornar-se covarde e incapaz.