É grátis?

Standard

Por Odair Deters

A poucos anos atrás comecei a trabalhar em uma empresa e a capacidade do meu computador era de 4 GigaBytes, hoje, transcorridos alguns anos , utilizo um pen-drive dos quais distribuem de brinde e que contém o dobro da capacidade de armazenamento de dados que o computador que utilizara e que hoje virou mero lixo da nossa obsolescência programada. Não muito diferente acontece com o custo para guardar ou transmitir 1 kilobyte de dados, que é tão baixo que nem é mais medido, e logo teremos o mesmo para 1 megabyte e então para 1 terabyte.

Com a era digital, experimentamos um aumento formidável de capacidade com redução de custos. No mundo on-line já é possível entregar produtos e serviços gratuitamente e ainda assim ganhar dinheiro. Afirma-se que a cada 18 meses dobra o poder de computação dos microchips e os preços caem pela metade, assim, os custos ligados à tecnologia da informação, sejam eles de armazenamento, de processamento ou de telecomunicações estão caindo de forma vertiginosa e tendem a zero.

Muitos dos inúmeros serviços gratuitos oferecidos na internet são pagos com o dinheiro dos anunciantes. Esse modelo de negócios, que tradicionalmente se aplicou à TV aberta e ao rádio, está se expandindo, aliás, a própria tv tende a se transformar, serviços como o Youtube, que se aproveita dos custos decrescentes de infraestrutura tecnológica para oferecer coleções de vídeos virtuais, com a comodidade de ser assistir somente o desejado, na hora em que se achar mais conveniente, toca profundamente a atual indústria da televisão.

Exemplo disto é o caso clássico do Google, uma das empresas mais valiosas do mundo e que oferece a maioria dos seus serviços de forma gratuita ou o impacto sofrido pela indústria da música, aonde o dinheiro vem cada vez mais das performances ao vivo e menos da venda de discos. Ainda no caso da música a distribuição gratuita de faixas é essencial para angariar fãs, e muitas bandas nascem para o sucesso virtualmente e ainda podem cortar o intermediário do negócio, as gravadoras. O negócio das gravadoras, que sempre se baseou na venda de gravações e na distribuição de produtos físicos, claro, pode estar diante da maior crise de sua história, mas, para os músicos, a doação de suas canções e até mesmo a disseminação de suas músicas por meio da pirataria passaram a ser parte integral da viabilidade econômica, quando não um meio para o sucesso.

A abundância da tecnologia digital começa a entrar por trás de muitos modelos de negócios inovadores, o das empresas aéreas de baixo custo é outro exemplo. Graças à tecnologia da informação, as empesas aéreas podem tornar-se mais agressivas, ao ponto de cobrar poucos reais por uma passagem dentro do país. É evidente que uma viagem custa muito mais caro que isso, e os custos são cobertos com a venda de uma série de outros serviços, como refeições nos voos, manuseio de bagagem e diversos itens relacionados a viagens, como parcerias com empresas de aluguel de carros e diárias de hotéis, que não existiriam se aquela poltrona ficasse vazia durante a viagem. E nesta redefinição o antes tão elitista negócio em torno do transporte aéreo, em alguns casos começa a se tornar quase gratuito, e as empresas que estão prosperando estão deixando simplesmente de vender passagens, mudando assim para sempre o setor, e ganhando dinheiro com isso. As operadoras de telefonia celular não agem muito diferentes em seu modelo de negócios quando oferecem aparelhos cada vez mais sofisticados de graça em troca de contratos de longa duração e da garantia de receitas com os serviços.

Mas então existiria o almoço grátis[1]? É claro que não existe quase nada efetivamente de graça na vida, mas o mundo digital está implicando numa transformação dos modelos de negócios, permitindo redução dos custos, e fazendo prosperar uma nova economia, onde o grátis existe.

Publicado originalmente em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=139118


[1] “Não existe almoço grátis” (tradução da expressão em inglês “There is no free lunch”) é uma frase popular que expressa a ideia de que é impossível conseguir algo sem dar nada em troca. O uso dessa expressão remonta às décadas de 1930 e 1940.

 

E a democracia

Standard

Por Odair Deters

28/10/2013

O vocalista da banda Ultrage à Rigor[1], Róger Moreira em uma recente carta[2], diz ter lutado contra a ditadura, tomado borrachadas e engolido gás lacrimogênio quando corria da cavalaria durante as perigosas manifestações populares ou enquanto pichava nos muros slogans como: “Abaixo a Ditadura”. Porém vislumbrando a situação atual, o mesmo pede desculpas à população brasileira por ter feito parte deste levante, em que colocou o país e situações das quais se visualizam pessoas morrendo em filas de hospitais, bandidos matando por trocados, pessoas drogadas andando como zumbis, meninas tão jovens parindo crianças sem pais, uma enorme classe política desfilando uma incompetência absurda, uma policia corrompida e um país ridicularizado por tantos escândalos.

Mas os vícios que impregnam a mente vulgar dos políticos devem ser vistos como meras projeções populares. Não se pode esperar virtude numa democracia representativa quando as duas partes do processo democrático não possuem virtudes democráticas. A democracia praticada sem virtude é o mesmo que a democracia formal, ou uma democracia do “papel”, o que logo não é uma democracia do espírito. E a ausência de consciência política provém antes de tudo de um mau preparo cultural e educacional porque são os costumes democráticos que fazem a democracia e não as constituições e outras leis.

A democracia formal pode dar certa, unicamente por acidente, ou seja, dependendo das características dos escolhidos no processo eletivo, e as virtudes que estes carregam. Porém este risco não existiria em uma democracia substancial que é uma modalidade democrática em que está presente um bom nível de desenvolvimento da consciência política das duas partes do processo eleitoral.

No Brasil impera a democracia formal, onde a classe política brasileira tem sido renovada unicamente através das forças da natureza, ou seja, essa renovação não é de espírito, consistindo em mera substituição de indivíduos pelo decurso do tempo, os que morrem ou envelhecem são substituídos pelos mais jovens, porém sem trazer necessariamente uma renovação de espírito. Sendo, portanto a classe política a principal gerenciadora dos principais males que estão acampados na nação e impedem o seu efetivo desenvolvimento. Parido por este espírito foi instaurada à ditadura de 1964, do mesmo modo a “Nova República” de 1985 e suas sucessivas eleições nas décadas seguintes. Mas a culpa em última instancia recai sobre o povo, que escolhe ou deixa no poder, notando-se a perpetuidade no histórico do poder no Brasil das mesmas famílias no decorrer das décadas e dos séculos.

O filósofo alemão Nietzsche já defendia que a democracia era a expressão da decadência e fraqueza da modernidade. No entanto não precisamos remeter a forte visão nietzschiana para entendermos neste sentido que inclusive, uma ditadura teoricamente pode atender melhor as necessidades de um povo do que a própria democracia formal. A história tem vários exemplos dessa realidade, inclusive a própria história brasileira, onde foi precisamente em uma ditadura que o povo encontrou o seu maior desenvolvimento. Embora seja uma forma espúria de tomar o poder nas próprias mãos, sem dúvida um regime ditatorial pode ser praticado com virtude. E a ditadura praticada com virtude é ainda melhor que a democracia meramente formal, e preferível a ela. Figueiredo[3] já bradou, que: “O povo sentirá, falta do governo Figueiredo”, nos lembrando ao ler o pedido de desculpas do cantor acima citado.

Um adendo cabe citar aqui que pode ficar estranho aparecer alguém, não militar, fazendo indiretamente uma possível defesa da ditadura, cabe esclarecer neste ponto, que a mídia hoje, em destaque a que detêm maior poder de manipulação [Rede Globo], é forte em opor-se a ditatura e transformou esta palavra numa conotação tal qual a atribuída ao nazismo, sendo algo que não se deve e não se pode defender, instigando a odiarmos algo sem nossa própria analise e entendimento. Porém este mesmo canal possui um histórico de controvérsias em suas relações na sociedade brasileira. Entre elas o apoio à ditatura militar de 64, onde lhe rendeu inúmeros benefícios, em especial para o canal de televisão. Ao tornar-se notória essa relação o grupo midiático inclusive teve que reconhecer que “… à luz da história, o apoio se constituiu um equívoco[4]”. Eis que começou um baile em outro ritmo e esta rapidamente se adequou e passou a destacar as Diretas Já[5], e ajudou a eleger o então candidato Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989, e com certeza a manipulação não terminou aqui. Porém moldou o entendimento de muitos brasileiros.

Nenhum regime, entretanto, possui valores tão nobres como a democracia essencial. E a democracia essencial, por seu existir, pressupõe uma participação crítica no seu desenvolvimento, não existindo democracia autêntica sem criticidade. A democracia essencial se desenvolve somente com a crítica, evidentemente o conceito de democracia fica sujeito a essa crítica.

No Brasil desenvolvemos uma grande capacidade para criar leis, quando o que se precisávamos era de indivíduos sérios no poder político e não de novas leis. Reformas de papéis não tendem a funcionar. Isto nos remete ao caso dos sofistas[6] que passaram a construir suas “verdades” sempre em proveito próprio, e usaram como ninguém a capacidade de parecer verdadeiro o que não era e o que eles mesmos não acreditavam ser, não havendo sintonia alguma entre o reto pensar e o expressar, e assim a juventude ateniense foi atraída e guiada pelos sofistas.

Mas outro grego, Aristóteles, é enfático ao afirmar[7] que: “importante não é o regime de governo, porém a virtude no seu exercício”, corroborando para a existência da ideia de que uma democracia essencial é possível, onde os escolhidos e escolhedores sejam possuidores de um desenvolvimento cultural e educacional que os impele a não concentrar o poder unicamente na formalidade, e sim no uso de suas virtudes.

[1] Ultraje a Rigor é uma banda brasileira de rock, criada no início dos anos de 1980 em São Paulo. Idealizada por Roger Rocha Moreira.

[2] Carta publicada no Diário de São Paulo, em 28/05/2013

[3] João Figueiredo: 30º Presidente do Brasil de 1979 a 1985 e o último presidente do período do regime militar

[4] “A consciência não é de hoje, vem de discussões internas de anos, em que as Organizações Globo concluíram que, à luz da história, o apoio se constituiu um equívoco.” Publicado em O Globo 31/08/2013.

[5] Movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil ocorrido em 1983-1984.

[6] Os sofistas se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade realizando aparições públicas (discursos, etc) para atrair estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Os mestres sofistas alegavam que podiam “melhorar” seus discípulos, ou, em outras palavras, que a “virtude” seria passível de ser ensinada.

[7] Política – Texto escrito por Aristóteles, onde se encontra este entendimento.

 

Quem disse que a maioria tem a razão?

Standard

Registros de um alemão chamado de o “do contra”

Por Odair Deters

25/10/2013

Como é confortável para grande parte das pessoas estarem de acordo com a maioria, e como é desconfortável ter uma opinião própria ou defender posições minoritárias, afinal “a maioria sempre tem razão”. E seria quase irracional não estar do lado do mais forte, mesmo que isso tenha sido alimentado por decisões muito mais emocionais do que lógicas, ou mesmo construída ocultamente para simplesmente conduzir o rebanho, tendencialmente a escolha da maioria parece absolutamente correta e democrática, em alguns casos mesmo sendo meramente emocional parece tornar-se lógica. E muitos sentam em frente à televisão nos programas jornalísticos destinados as massas e sentem-se muito bem informados, donos da verdade, simplesmente passam a defender a opinião da maioria, a mesma maioria que por muitos séculos considerou a Terra plana.

Lembremos o teimoso René Descartes que, recusava-se a acreditar em qualquer coisa até que a tivesse verificado pessoalmente, um São Tomé da nossa filosofia. Apesar de ter vivido a mais de trezentos anos, sua filosofia merece ainda muita atenção, nela, ele duvida de tudo literalmente, inclusive da existência de Deus, do homem e de si próprio. Naquela época causou um alvoroço na França religiosa e teve que fugir para a Holanda, porém recusando o que os outros buscavam vender-lhe como sendo a verdade, e usava dos seus sentidos e experiências para tentar buscar a verdade, até formular o : ‘’Cogito, ergo sum’’, ou seja: ‘’Penso, logo existo.’’ Deixando de ser um espectro fantasmagórico, continuou a comprovar ou rejeitar inúmeras verdades postuladas, a jogar e a beber vinho caros. Neste processo deixou muitas contribuições a matemática e abriu novos caminhos para a filosofia, insistindo em descobrir a verdade por conta própria.

Para Descartes, o truque que ele deixava evidente em seus textos, é o de rejeitar o que lhe dizem, até ter pensado tudo pela própria cabeça. Duvidar das verdades afirmadas por autoproclamados especialistas, e recusar até a ouvir a opinião da maioria. Registrou, ele que: ‘’Não existe praticamente nada que tenha sido afirmado por um sábio e não tenha sido contraditado por outro. ’’ E também: ‘’ Contar votos não serve de nada. Em qualquer questão difícil, é mais provável que a verdade seja descoberta por uns poucos do que por muitos. ’’ Com certeza isso fez dele um cidadão arrogante e certamente solitário naquela época.

Na nossa era democrática, no nosso democrático lado do mundo, tendemos a aceitar sem críticas a opinião da maioria. Se um monte de gente diz que é assim, tudo bem, assim seja. É como nós pensamos. Se não temos certeza de alguma coisa, vamos contar os votos. Desde pequenos somos ensinados que a maioria está sempre com a razão. A maioria deve estar certa, mas as probabilidades são contra eles. Costumamos ter o hábito de achar que todas as afirmativas muito repetidas são a verdade. Afinal Hitler comentava em seu Mein Kampf, que um dos preceitos judaicos era de que “uma mentira dita mil vezes tornar-se-ia verdade”. Assim: “A previdência vai quebrar antes de me aposentar”, ‘’Estamos diante de uma possível bolha imobiliária ’’, “O Brasil é o país do futuro”, “Vale mais um pássaro na mão que dois voando” afinal quase todo mundo diz isso. É verdade? Talvez sim, talvez não. Descubra você mesmo. Tire suas próprias conclusões. Não engula o que te dão mastigado. Não seja manobrado pela maioria, seja você. Quanto ao aforismo “a voz do povo é a voz de Deus”, me pergunto, será que Deus faria tão péssimas escolhas? Prefiro pensar como Descartes, em que “é mais provável que a verdade tenha sido encontrada por uns poucos do que por muitos”.

No entanto não é possível descartar a voz do povo em certas situações, mas nunca podemos negar a irracionalidade muito mais frequente do que se imagina em decisões coletivas, afinal, Pascal cunhou que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, mas será que múltiplos corações são capazes de compor um verdadeiro coração?  Sem dúvida, numa perspectiva histórica, a maioria nem sempre tem razão. Portanto levar em consideração a voz do povo significa, metaforicamente, prestar atenção aos sinais de fumaça representados pelas manifestações coletivas. Não se pode ignorá-los, por arrogância ou leniência, mas não nos é permitido abdicar do exame de consciência e do juízo fundado na integridade pessoal. Se um livro, um programa de tv, ou um filme são lidos ou vistos por milhões de pessoas, isso não constitui atestado de qualidade em hipótese alguma, nem pode fundar um juízo de valor, principalmente se estão aí inseridos governos e mídias. O fenômeno merece ser estudado e a mensagem deve ser interpretada. Freud dizia que “às vezes um charuto é apenas um charuto”. E, rigorosamente, tudo o que se pode concluir da visão da fumaça é que onde há fumaça, há fumaça.

Viver, comer e sofrer.

Standard

Uma explicação para a riqueza das nações

Por Odair Deters

A ciência econômica nasceu a partir da obra do escocês Adam Smith, “A Riqueza das Nações[1]” que formulava pela primeira vez os princípios de liberdade de mercado, tão caros à atual economia globalizada. Não por menos a Europa e o período em que Smith vivera, estiveram diretamente ligados a força motriz da transformação que conduziu um dos momentos mais importantes da história humana, após a longa hibernação européia (500-1500). Esse período apresentou uma revolução econômica e uma mudança no processo de produção, aquisição e gasto como nunca antes registrado e surge o mundo conforme expresso por Adam Smith, onde poderiamos também chamar de o nascimento da desigualdade, pois quando Smith rabiscava suas ideias a diferença entre as nações mais ricas para as mais pobres era de 1 para 5, mas hoje se pegarmos os flamigerados africanos e compararmos a bucólica Suiça das vaquinhas malhadas, teremos uma diferença de 1 para 400.

Prefiro fugir daqueles textos de grande densidade do marxista Hobsbawm, e quem sabe muito pretenciosamente, prendendo o fôlego, dar um rápido mergulho na história humana com este pequeno texto. Onde após a queda romana a Europa volta a um período de trevas em que os passos foram mais curtos e imperou uma sonolência, no entanto apesar deste cochilo, se inventou a invenção, tendo o papel e a pólvora, entre outros, como ingredientes deste prato que podia ter sido chinês, e só não foi, pelo controle estatatal e falta de ousadia aos orientais e que assim serviram aos europeus. Através disto a Europa ao se impor no mundo, impôs também um modelo social que privilegiava o trabalho, a intelectualidade e o descobrimento.

Ao citar a falta de ousadia dos chineses que se isolaram, não tem como não lembrar as naus portuguesas, que avançaram munidas de criminosos cheios de fé, propagando uma façanha exploratória sem igual. Foi esse pragmatismo que impulsionou a glória portuguesa, e a mesma atitude ao inverso logo depois exclui Portugal da história do mundo, os transformando em fanáticos, intolerantes e cheios de vícios associados à pureza de sangue. A Espanha embora agindo um pouco diferente, para os vizinhos ibéricos, a riqueza, a pompa e a ostentação, mostrou que o dinheiro fácil é muito danoso as pessoas.

O descenso dos ibéricos permitiu a entrada da Holanda e da Inglaterra nos mares, processo vital na soma de pontos para o desencadeamento da revolução industrial, sem dúvida muito bem afirmada por Max Weber em sua “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, onde o individualismo, o puritanismo e a perseverança da moral protestante influenciaram um comportamento quotidiano que conduziria ao sucesso nos negócios, criando uma nova economia. Enquanto o sul da Europa se fechava e se censurava, alijando a região mediterrânea da revolução científica, o norte europeu incentivava o conhecimento e a mudança, e ser rico deixava de ser pecado.

Enquanto na Europa iniciava-se uma transformação das relações, a China que outrora arriscou aventurar-se pelo mundo, experimentou um isolacionismo só quebrado no final do século XX. Outros experimentavam o apocalipse de suas civilizações, como os ameríndios e os povos tasmanianos e polinésios. E os Estados Unidos começava a aproveitar suas vantagens naturais, ao ser composto de pequenos proprietários rurais, imigrantes e seus descendetes que vieram em busca de uma oportunidade de construir seu próprio destino, onde sua iniciativa não era limitada e a democracia lhes dava oportunidades de competir e ambicionar mais, permitindo entre outras coisas a descoberta do sistema de produção em massa, desbancando no final do século XIX as nações européias e se tornando a maior economia do mundo, posto que ocupado desde então por aproximadamente já 150 anos.

A América Latina por outro lado preferiu alimentar um rancor e reação aos vencedores, doutrinas de dependência e seu choro, atribuindo a culpa a todos menos aqueles que as denunciam, que colocou todos numa ineficiência econômica perpétua. Muito diferente do que aconteceu com os nipônicos, pois o Japão ao encontrar com os europeus fez o sol nascer, trataram de aprender seus métodos, apesar de não ter o protestantismo, os japoneses adotaram uma ética de trabalho muito semelhante, fazendo sua própria revolução industrial, mostrando que o segredo do sucesso residia mais no compromisso com o trabalho do que na riqueza.

Após a primeira revolução industrial, a Inglaterra se acomoda, abrindo espaço para que a segunda revolução industrial encontre terreno mais fértil na Alemanha e mesmo na chauvinista França, antes tão limitada pelo seu nacionalismo exagerado, mostrando que o comformismo e comodismo são plantas daninhas a uma nação. E como corolário, comprovando que o aproveitamento do mercado, a disciplina e a ética do trabalho, trazem a riqueza, surgiram nos anos 60 os Tigres Asiáticos, mostrando que o subdesenvolvimento não é um limitante.

Colocar mais de mil anos de história em duas ou três páginas não parece nada bom, quando estamos habituados a densos volumes e títulos sociológicos e econômicos sobre o assunto, mas quem sabe conseguimos explicações lógicas em esquemas bem mais simples e claros do que em complexas combinações históricas. E enquanto 250 anos atrás Adam Smith deu o passo inicial para a criação da ciência lúgrubre chamada Economia, tentando explicar a riqueza das nações, vemos que o pôrque de alguns países serem ricos e outros não permite explicar muito do próprio processo de transformação da economia mundial, e que passou a dividir o mundo hoje em três tipos de nações, aquelas em que as pessoas Vivem, usufruem e depois gastam muito dinheiro para não aumentar de peso, as que Comem para se manterem vivas e as que Sofrem não sabendo se terão a próxima refeição.

[1] Publicada pela primeira vez em Londres em março de 1776

Um mundo em migração

Standard

Por Odair Deters

As migrações internacionais marcam o momento contemporâneo em que vivemos, atualmente é possível às pessoas mudarem de um país para o outro mantendo a sua própria cultura. Com certeza estes movimentos devem cada vez mais ser questionados pelos Estados e pelas sociedades, em vista de determinadas expressões culturais regionais, e pelo próprio conceito de cidadania ou de pertencimento a uma determinada sociedade.

Dilemas provocados pelas migrações atingem praticamente todos os países, com exceção a alguns famigerados países africanos, para onde ninguém tem interesse de ir. Surgem assim grandes debates, como nos Estados Unidos, quanto à questão, principalmente dos latinos, na Europa com a imigração muçulmana, existem até estudos que demonstram que pela comparação do crescimento da população muçulmana [que possui maior número de proles], em comparação com os europeus, em breve a Europa, tornar-se ia uma nação predominantemente muçulmana.

Em muitos países europeus, começam a existir leis e testes para verificarem se os estrangeiros possuem condições de absorverem os valores da sociedade a qual pretende viver, uma delas seria a obrigatoriedade do conhecimento do idioma nacional. Os cidadãos destes países estão cada vez mais preocupados com os impactos no equilíbrio étnico e com a coesão social dentro de suas fronteiras e a suas culturas.

Apesar de todas as objeções, à imigração têm que ser vista com cuidado, pois muito do desenvolvimento econômico e dos serviços essenciais são prestados por imigrantes nestes países que apresentam muitas vezes níveis de fecundidade muito baixos e alta especialização tecnológica que lhes impõe limites, e para manterem o seu crescimento econômico, seus serviços essenciais e seu bem-estar, precisam contar com essa parcela imigrante.

Isso tem ocorrido, em boa medida, porque a imigração no mundo atual é um pouco diferente da que ocorria nos séculos anteriores. Muitos imigrantes que vieram para o Brasil nos séculos anteriores ou de tinham a perspectiva de permanecer pouco tempo no país [o necessário para fazer fortuna] e tinham pouco, ou nenhum interesse, em se assimilarem ou se tornarem cidadãos locais.  Muitos acabavam por fazê-lo, especialmente no tocante aos seus filhos nascidos no novo país, mas não era a regra geral. Já naquela época existia a ideia de identidades múltiplas.

Nos últimos anos, contudo, com o processo de globalização e a melhora do sistema de comunicações e transportes globais, essa situação se transformou radicalmente. Para os atuais imigrantes do Sul do Brasil que se dirigem aos Estados Unidos podem fundar um CTG (Centro de Tradições Gaúchas) em Nova York, ou morar na gelada Islândia, mantendo um blog sobre brasileiros que lá residem. Além das tecnologias digitais, a possibilidade de evitar a assimilação da nova cultura, é facilitada pela capacidade de deslocamento, assim os imigrantes podem ficar indo e voltando entre seus países de origem e os de destino. Além disso, esses novos imigrantes são raciais e culturalmente falando, muito mais diversos do que os antigos, o que aumenta o potencial para conflitos e tensões dentro dessas sociedades.

É óbvio que a solução, aqui, é aceitar o pluralismo cultural. Tudo seria mais fácil se os povos dos países de imigração aceitassem o fato de que os imigrantes não são como eles e que a chegada dos “diferentes” poderá colaborar para o enriquecimento da cultura e da economia local.

No entanto, é utópico imaginar que os países que acolhem imigrantes não possam ter regras sobre quantos e quais imigrantes serão aceitos e sobre quais serão as regras mínimas de convivência entre todos. Nenhum país do mundo pode ter uma política de abertura total aos fluxos imigratórios globais, isso poderia implicar num deslocamento populacional maciço, a não ser, claro, aqueles países africanos miseráveis para onde ninguém quer ir, muito menos uma política de multiculturalismo absoluto, como se cada comunidade pudesse viver com suas próprias regras embaixo da mesma bandeira.

O vai e vem das pessoas entre os vários Estados também leva a questionamentos sobre a questão da cidadania. Em 2006, as tropas canadenses durante o último conflito do Líbano foram deslocadas para o resgate dos cidadãos canadenses lá residentes. O problema levantado na época, era que alguns desses cidadãos eram filhos de libaneses nascidos no Canadá e que tinham ido para o Líbano quando crianças. O questionamento era: o Estado canadense tinha a obrigação de resgata-los? O mesmo não se aplicaria a canadenses que moravam há décadas em New Orleans durante a passagem do Katrina? O mesmo aconteceu recentemente ao Brasil na questão Bolívia, onde a FAB deslocou aviões para remover brasileiros que lá se encontravam, e muitos dos que “escaparam” eram brasileiros ou descendentes de brasileiros que migraram para o leste Bolívia e tornaram-se parte daquele território. Por que então não recolher os dekasseguis brasileiros que estavam no Japão no momento do terremoto em que ocorreu o acidente de Fukushima? Portanto é dever do governo brasileiro, justamente durante os acontecimentos como o do Líbano, Lousiana, Bolívia ou Japão resgatar pessoas que, mesmo com passaporte brasileiro, estavam longe do Brasil há muito e, muitas vezes, nem tinham vivido aqui?

Em termos jurídicos, pode se afirmar que o dever existia. Mas a transformação da cidadania, que se caracteriza, ao menos em teoria, na participação política, pagamento de impostos, vivência no país do qual se desfruta a cidadania e certo senso de pertencimento e patriotismo em um direito que pode ser usufruído a distância, através da dupla cidadania ou da posse de um passaporte estrangeiro, complica bastante as coisas.

Essas questões jurídicas não são exatamente novas, mas refletem os problemas de um mundo em movimento, no qual pessoas com múltiplas identidades culturais, étnicas, jurídicas e mesmo nacionais circulam e convivem entre si, gerando demandas e questionamentos por parte dos Estados.

A Alemanha, já é de longa data, um país receptor de imigrantes, mas ainda tem problemas para se entender como tal, muitos descendentes de estrangeiros, mesmo nascidos em terra germânica, são obrigados a abdicar da nacionalidade de origem para ter a alemã [o mesmo não acontece aos brasileiros]. Partidos políticos e especialistas defendem a regularização da dupla cidadania lá, pois a política de imigração, definida, sobretudo por governos conservadores, exige dos estrangeiros e seus filhos uma lealdade à Alemanha documentada no passaporte. Entre as razões para isso estão um temor, muitas vezes velado, da formação de guetos e das chamadas “sociedades paralelas”.

Outro fator de grande importância é o de que segundo as agourentas previsões, dezenas de milhões de pessoas serão forçadas a abandonar as suas casas e as suas terras, devido a secas e inundações relacionadas com as alterações climáticas, o que pode tornar as migrações internacionais [e já tem se tornado] em uma situação exponencial para muitos governos.

Nenhum país do mundo pode ter uma política de abertura total aos fluxos imigratórios globais [a não ser, claro, aqueles miseráveis para onde ninguém quer ir] ou uma política de multiculturalismo absoluto, como se cada comunidade pudesse viver segundo suas próprias regras. Realmente, ao habitar um novo país, o cidadão deve ter todo o direito de manter a sua cultura, mas também deve estar pronto a aceitar minimamente as regras da maioria, tanto no aspecto jurídico, como na convivência cotidiana.  Duas palavras são chaves neste processo, a tolerância por parte dos Estados e sociedades e o esforço de inclusão pelos próprios migrantes.

CHAVES A CHAVE

Standard

Por Odair Deters

Nossa moral está mudando abruptamente, novas limitações estão sendo impostas e novos erros sendo criados ou considerados, o que poderia ser certo a uma ou duas décadas atrás se torna agora algo veementemente condenável. Para ilustrar isto, nada melhor do que um dos seriados de maior audiência e perpetuidade da televisão brasileira, me refiro aqui ao seriado Chaves (El Chavo del Ocho), transmitido em cerca de uns 60 episódios no SBT. Ao mesmo tempo em que considero um seriado que demonstra a precariedade da tv brasileira pela sua péssima capacidade de renovação e do público pelo seu comodismo, é um seriado de sucesso, nunca explosivo, porém com estabilidade, justamente por ter um humor sem preconceito algum, quase inaceitável aos padrões atuais recheados de limites.
Em Chaves se tivéssemos que renomear o programa hoje, ele certamente se chamaria “bullying”, pois na atual concepção, lá existe bullying contra tudo e contra todos, contra o pobre, contra o bochechudo, contra a baixinha, contra o gordo, contra o mago, contra os velhos. Temos violações a regras de boa vizinhança, pilantragem, soberba e em alguns episódios roubos e violência contra animais. Seria um programa de humor? Chiquinha nos dá aulas de como passar a perna nos outros, uma menina esperta capaz de mentir e enganar toda a vizinhança para conseguir o que quer, e que não pensa duas vezes antes de usar sua condição de menina nova e fraca para tirar vantagem. Quico, o menino rico e arrogante que faz questão de mostrar sua riqueza, sobretudo para humilhar o menino Chaves. E que dizer do professor fumando charuto em plena sala de aula? Na frente de crianças! Depois que o Instituto Tavistock implantou nas mentes modernas que o cigarro é algo abismal [Isso! você provavelmente odeia o cigarro hoje por que te ensinaram a pensar assim, há 20 anos seria diferente], bom, pois é, o professor Girafales esta quase sempre acompanhado de seu charuto, seja em sala de aula ou nas visitas a dona Florinda.
No entanto Chaves não é só uma exposição de maus comportamentos.
Quem não sabe que as pessoas boas devem amar seus inimigos e que a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena? [Frase amada, principalmente por malfeitores]. As lições de vida vem, dos personagens mais sofridos: Chaves, Seu Madruga e Senhor Barriga. Sim, Senhor Barriga. Que leva o bullying no nome, mas é um dos personagens mais bons do seriado, um empresário bem sucedido do ramo imobiliário, dono da vila, do restaurante e que praticamente abriga uma família por 14 meses de graça, aceita que um menino de rua more em sua propriedade mesmo sendo constantemente alvo de golpes acidentais por parte deste. Em um episodio, de um jeito ou de outro, todos tiram férias e vão para Acapulco, Chaves evidentemente não teria condição de ir e então, Zenon Barriga o leva para a viagem com tudo pago. Em seu, provavelmente, único momento “mau”, Senhor Barriga vai despejar a família de Seu Madruga, porem no ultimo momento volta atrás, mente e perdoa todos os meses de aluguel atrasado.
Seu Madruga é pobre, muito pobre, lembram do seu sofá é sustentado por tijolos? Não consegue trabalho, normalmente por falta de vontade e ás vezes por falta de preparo e ainda sim vemos um homem injustiçado pelas circunstancias pois a grande maioria dos tapas que leva não deveriam ser dados nele. Durante uma serie de episódios vemos Seu Madruga na luta para dar um dia de café da manhã para o Chaves, também vemos o pobre Madruga tirando a lâmpada de casa para por na entrada da Vila, ou assumindo a culpa do sumiço dos churros, dizendo ter comido todos, para dona Florinda, quando na verdade Chaves quem os havia devorado. O próprio Chaves, menino de rua e pequeno larápio, no aniversário do Quico, rouba muitos sanduíches de presunto, em primeiro momento, pensamos que ele vai comer tudo, mas no final do episodio o vemos dividindo com Seu Madruga e este, dividindo um único copo de refresco com o garoto, em nenhum momento a atitude solidária supera ou justifica o erro do roubo, mas demonstra um humanismo.
O seriado Chaves combina a realidade, traz a sinceridade cruel das crianças e a fúria de alguns adultos, vemos cenas de violência, Seu Madruga bate no Quico que chama a mãe que bate no Seu Madruga, que bate no Chaves, a pancadaria é tamanha que, muitos de nós nem percebemos a atrocidade que está acontecendo, sendo literalmente o forte descontando no mais fraco e, em principio, inocente [não havia falado que ele traz a realidade] e apesar dos muitos tapas e brigas, o seriado traz também a generosidade inerente de cada um de nós. Vemos tudo isso naqueles poucos personagens e isso faz a serie seja de certa forma tão querida. Apesar de relatar a vida de uma criança de 8 anos e suas brincadeiras, provavelmente logo mais ocupará apenas o horário noturno por andar muito em desacordo com o moralmente legal, seus dias devem estar contados, com a geração do bulliyng e da lei da palmada que esta crescendo e certamente vai estranhar os beliscões, cascudos, xingamentos que estão em cada episodio da série. A nossa nova geração do merthiolate que não arde, do biotômico Fontoura sem álcool e dos desenhos sem morte.
Chaves teve quase 300 episódios, no Brasil não passaram mais do que uns 60, sendo que o último foi gravado no inicio dos anos 80, e a geração Chaves ainda está ai, envelhecendo e alguns ainda de vez em quando dando risada dos episódios reprisados ao infinito, com cenas de crianças violentas e sem respeito, porém com uma forte lição de moral, que é a chave (chave…Chaves…entendem?) em seus últimos suspiros dos tempos em que ninguém crescia violento ou fraco por tomar um ponta-pé na rua.