Entenda um pouco sobre a manifestação popular que despertou o Brasil

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18/06/2013

Nunca demos tanta importância para R$ 0,20.

E uma explosão popular tomou as ruas das grandes cidades, alguns jovens saíram de cidades vizinhas e concorreram aos grandes centros, como aquela jovem que disse que iria para as ruas e sua mãe a questionou: “mas filha, você nem utiliza ônibus”, aquele que parecia ser um movimento local contra 20 centavos de aumento nas passagens, reuniu milhares de jovens em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e muitas outras cidades, hoje já somos milhões nas ruas.

Após a truculenta repressão paulistana, o barulho acordo um gigante que estava em berço esplêndido, e deu se conta de que algo maior poderia acontecer. E esta segunda-feira 17 de junho superou todas as expectativas, e alimentou um grito que estava contido em todos os rincões do país.

Há agora um movimento nacional, que parece ainda sem direção clara, mas que já colhe reverberações até em colônias de brasileiros no exterior que em muitas cidades do mundo apoiam com passeatas, e nos fazem lembrar os gaúchos que na noite do dia 17 cantavam na passeata por Porto Alegre, o hino rio-grandense, e sua máxima: “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a Terra, de modelo…”.

O mais interessante é que se formos analisar a situação de forma empírica, vamos verificar que nenhum indicador objetivo conseguiu captar o descontentamento que se espalha, será que todos esperavam que estivéssemos a pão e circo assistindo a Copa das Confederações em nossos lindos estádios?

A popularidade do governo federal mostra uma baixa, porém sua aceitação ainda está em um nível extremamente alto, o aumento do desemprego não parece forte o suficiente para uma movimentação neste sentido, o PIB apesar de medíocre para este ano, deverá apresentar-se positivo e todos estamos consumindo, e crise econômica parece não nos assolar. A economia palco de grandes conturbações está tranquila. O que então deflagrou o ânimo popular?

No entanto há um descontentamento crescente com as obras da Copa, que ganharam visibilidade com o início da Copa das Confederações. Arenas faraônicas, que logo serão elefantes brancos, obras para gringo ver, especialmente quando comparadas às carências em serviços públicos, como transporte, saúde, educação e assistência social, assim, uma das mais criativas faixas vistas na manifestação dizia: “Seu filho ficou doente? Leve-o para o estádio”.

Portanto a insatisfação com a má qualidade dos serviços públicos e os anos de tolerância com níveis absurdos de corrupção certamente são o peso relevante nesta ira popular.

Adquirimos TV, carro, casa, geladeira e eletrodomésticos. Da porta para dentro de casa, a vida mudou. Da porta para fora, a situação continua estagnada. São horas perdidas em transportes caros e de péssima qualidade, às escolas públicas carentes de materiais e de professores motivados e às debilidades da saúde pública, sem contar com um crescente clima de insegurança pública, a falácia dos repetitivos políticos e a nossa falta de acesso a direitos básicos de cidadania.

Esse vulcão humano entrou em erupção e agora a lava quente corre livre pelo interior do país, as cidades menores começam a organizar através das redes sociais suas manifestações, assim como os árabes tiveram sua primavera iniciada pelas redes sociais, os brasileiros estão criando seu inverno, e ele parece de início estar esfriando o ânimo da histórica classe corrupta. Jovens que se cansaram de discursos e bandeiras políticas, que buscaram a informação por conta, assim demonstraram quando a grande mídia associou-se ao governo federal e sofreu um baque neste dia 17 quando uma jornalista da Rede Globo que buscava realizar uma matéria, teve que abandonar as manifestações, aos gritos da multidão contra a mais poderosa rede midiática do país, que precisou então realizar a cobertura com um helicóptero.

Eis que a mídia e o governo sentiram a presença de uma manifestação a qual não tem um líder para ser domado, e lhes cabe chamar as manifestações de pacíficas e legítimas, coisas da própria democracia e dos jovens. Então, tentando transforma-lo em um movimento pacífico, ao deixarem a população subir no Congresso Nacional, sem retaliação. Em um movimento da Paz, e não deixa de ser, a população saiu em busca de um tratado de veludo, porém o histórico das revoluções sempre desperta algo mais. Ainda não parece ser o momento, mas a população está inflamável. Claro que os atuais atos de violência e marginalização parecem mais frutos do efeito manada da manifestação, ou de alguns arruaceiros, drogados e outras possíveis classes baderneiras, que não deixam de serem filhos da própria sociedade e foram criados por atos daqueles que reclamam contra qualquer atitude que os agrida agora.

Outros políticos reclamam que nenhum líder apareceu para negociação, não se dão conta eles que um líder é dobrável, conquistado ou usurpado, agora quando este líder tem milhares de rostos e ao mesmo tempo nenhum rosto, quando ele é uma multidão, com muitas reinvindicações e convicto da necessidade de melhorias, a história muda. E no Brasil existe legitimidade para transformações mais profundas do que as realizadas nos últimos anos, como a recuperação do valor do salário mínimo, a elevação do nível de emprego, políticas sociais focadas e acima de tudo de combate a corrupção.

A pressão popular está abrindo um novo caminho, o movimento despertou energias que nem mesmo seus organizadores imaginavam existir. Os acontecimentos desta segunda mudaram a conjuntura de uma nação. Nos próximos meses, as multidões serão ao que tudo indica atores centrais na cena política. Mas ainda não está claro para onde rumará, mas os que queriam os 20 centavos a menos, conseguiram o passe livre para quem sabe termos uma mudança nacional.

Odair Deters [mais um na multidão]

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