Qual a cor do Táxi?

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Um estudo econômico sobre a cor dos táxis

 Odair Deters

25/03/2013

Na capital gaúcha, é relativamente fácil tomar um táxi, basta olhar no horizonte e esperar surgir aquele “laranjinha”, que nem sempre parece ser laranja. Por que Porto Alegre assim como muitas outras cidades de grande porte possuem cores únicas para seus táxis? Aposto que você recorda neste momento as cenas de filmes nova-iorquinos, em que os atores esticam a mão e sobem num sedan amarelinho, enquanto que as cidades menores possuem uma variedade de cores e modelos[os modelos abordaremos em outro momento]. Como explicar economicamente a vantagem de uma cidade possuir táxis com uma cor padrão e outras não? Com certeza você responderá, deve-se a uma Lei Municipal [e é], no entanto essa argumentação da legislação não nos identifica o real motivo.

Para melhor explicar vou pegar exemplo de 3 cidades as quais já utilizei o serviço de táxi no Estado – Porto Alegre, Caxias do Sul e Santo Ângelo – ambas representam 3 cenários distintos neste serviço, devido ao tamanho e aspectos culturais de suas populações. Quem é usuário de táxi nestas localidades provavelmente reclame da escassez dos mesmos, e tem absoluta motivação nesta reclamação, pois existem muitas manobras dos atuais proprietários de táxis para que não sejam ampliadas as disponibilidades, mas esse é um assunto para outra discussão, nosso interesse agora é a cor.

Em Porto Alegre as cores dos táxis ficam entre um vermelho e um vermelho desbotado quase laranja, em Caxias é branco e em Santo Ângelo, é roxo, preto, branco, vermelho, azul, prata ou da cor que o taxista quiser.

Embora seja possível pedir um táxi por telefone em POA, com muito mais frequência acenamos para algum que esteja passando, portanto, é vantajoso para os táxis ter maior visibilidade possível, por isso no inicio dos anos 70, determinou-se que os veículos deveriam ser da cor vermelho ibérico, tomando por base uma cor já muito difusa neste serviço antes da implantação que era a laranja granado. E o vermelho ibérico, dependendo da hora do dia e da intensidade do sol, parece alaranjado. Claro muitos motoristas compraram carros vermelhos e conseguiram passar pela fiscalização do Detran, bagunçando um pouquinho mais a regra [afinal, é Brasil].

Em Caxias do Sul, os veículos são brancos, apesar de ser uma cidade grande e de intenso movimento, aqui a concentração de carros por habitante é maior e os Táxis ainda são pouco abordados nas ruas pelos seus passageiros, trabalhando quase exclusivamente com ligações ou em pontos específicos, como o hábito das pessoas não é atacar o veículo a qualquer momento, na verdade em Caxias, a cultura é de evitar o máximo possível fazer uso deste serviço, afinal gera custo, o que fere o primeiro mandamento dos descentes italianos no Estado. No entanto Caxias queria o aspecto de cidade grande, de forma a ter que criar uma Lei que determinasse que os táxis tivessem que seguir um padrão, e eis que não podiam copiar os porto-alegrenses, então optaram [quem sabe erroneamente, como veremos em seguida] pela cor branca.

Já na acolhedora capital missioneira, os carros podem ter a cor que melhor convier para o proprietário, ou seja, é um carnaval, repetido em todas as cidades interioranas. Isso se deve ao padrão de demanda dos habitantes em Santo Ângelo, que raramente atacaram um táxi, aqui se pedirá um táxi por telefone, ou se a corrida será em outro momento já pré-determinado, você pode se deslocar até o ponto de táxi e acertar com o taxista, [que provavelmente seja seu conhecido] de forma inclusive a combinar um preço especial, muitas vezes sem o uso do taxímetro.

Tanto em Caxias quanto em Santo Ângelo, não é tão interessante financeiramente para o motorista ficar circulando pelas ruas, os usuários é que solicitam o serviço, logo não existe vantagem para os taxistas destas cidades em pintar seus veículos de vermelho ibérico ou outra cor chamativa como em Porto Alegre, a não ser que queiram padronizar de forma a deixar tudo mais ajeitadinho e demonstrar uma organização maior, como no caso da cidade serrana, sendo que para um futuro quem sabe isso venha a tornar-se um transtorno, pois a demanda por taxis abordados por pedestres pode subir e a cidade não estar preparada.

Na capital estadual os táxis adotaram as cores laranja granado e posteriormente vermelho ibérico, e até onde se sabe isso não se deve a nenhum taxista fanático torcedor do Internacional, e sim em um momento em que se acreditava que o vermelho fosse à cor mais visível, razão também pela qual os caminhões dos bombeiros também tenham recebido essa cor padrão, porém, hoje já se sabe que tonalidades de amarelo-vivo e alguns tons de verde-claro sirvam melhor para essa finalidade. Afinal você se lembra daquela caneta marca-texto usada para salientar um texto a ser estudado, pois é, essa cor é percebida pelo centro da nossa retina, ou seja, chama mais a atenção do que as demais. Um exemplo disto é a cor que já citamos aqui dos táxis de Nova Iorque, que foram padronizados em amarelo, e existem locais onde até mesmo os veículos dos bombeiros estejam migrando, e abandonando o vermelho.

Portanto , identificamos com o estudo da economia que os motoristas de táxi de POA preferiram o vermelho ibérico de forma a tornarem-se mais visíveis a seus clientes, os caxienses para demonstrar organização, enquanto que os taxistas santo-angelenses estão em seus pontos à espera do cliente.

É, meus caros a economia está em tudo! Qual a cor do próximo táxi que você vai pegar?

O sistema monetário de Mefistófeles

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Por Odair Deters

12/03/2013

Fausto uma obra única no seu gênero, escrito por Goethe (1749 – 1832), onde o personagem que dá nome a trama é assediado por um demônio, Mefistófeles, em um dos enredos, o persuasivo Mefistófeles aparece com a proposta de transformar papel em dinheiro.

Neste poema trágico, o imperador endividado “cheio do eterno como e quando” e com falta de dinheiro, assina notas que fazem o consumo disparar e, assim: “metade das gentes só querem comer bem / a outra metade só quer ostentar novos trajes”. E somente depois de Mefistófeles e o seu parceiro Fausto desaparecerem, é que alguém repara que o valor das notas não corresponde a qualquer equivalente real, ou seja, não existe um lastro em ouro num cofre, e, sim, à promessa de ouro que ainda é preciso extrair da mina.

Fausto, é leitura obrigatória no ensino fundamental em todas as escolas alemãs, não é então, a toa que Angela Merkel e os alemães se preocupam com a atual crise. Para os comtemporâneos que leem Goethe, os paralelos não passam despercebidos, a história de Fausto traz a tona o capital necessário para impulsionar a revolução industrial, e hoje, passados quase dois séculos, as suas advertências voltam a ser relevantes para as inúmeras figuras públicas teutônicas que se aproveitam de Fausto na formulação de suas preocupações relativas à crise na União Européia.

Assim como o tesoureiro do imperador no poema de Goethe, o alerta parece já ter sido dado. Se um banco central tiver o poder de cunhar dinheiro sem limites, a partir do nada, como poderá esse banco garantir que o dinheiro é suficientemente reduzido para manter o seu valor? Inevitalvelmete a tentação existe, e sem dúvida e boa parte da história monetária cedeu a ela.

O papel-moeda sem dúvida trouxe nos impulsos positivos enormes, pois a escolha entre o benéfico e o maléfico está indubitavelmente a cargo da humanidade, e aos alemães, leitores de Fausto, nos parece que não querem carregar a palavra Schuld, que na terra de Goethe, significa tanto dívida monetária como culpa moral.

Publicado originalmente em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=118657