Café de inhame

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Por Odair Deters

27/06/2012

Quando jovens muitas vezes buscamos algumas experiências, recordo de certa feita quando tinha meus 14 ou 15 anos aproximadamente, algo que costumo identificar como uma aventura gastronômica, enredada em um engraçado e nada exemplar processo produtivo em que me vi envolvido.

Em determinado  final de tarde, enquanto preparava um delicioso café de cevada, meu pai, que viveu até seus 22 anos de idade na área rural, contou-me que quando pequeno e na falta do tradicional café, eles preparavam café de inhame.

Naquela época começava minha preocupação com uma alimentação mais natural, onde pensei comigo mesmo – vou preparar este café. Aproveitei um final de semana e fui para a propriedade de meu pai no interior de Santo Ângelo, onde peguei uma enxada e desci em direção ao campo até uma sanga onde brotavam naturalmente vários pés de inhame.

O inhame é uma planta existente na Ásia e América, principalmente em banhados e sangas, também muito usada na ornamentação.  Apresenta um bulbo comestível, semelhante ao da batata doce, não considero um sabor a ser muito apreciado, ganhando destaque apenas pela sua exoticidade. Até então sabia que era muito popular na culinária japonesa, onde certa vez havia escutado minha mãe comentar de uma receita de arroz com inhame.

Os imigrantes italianos e alemães famosos por explorar a flora e fauna do Rio Grande do Sul, descobriram muitos segredos, e foram os idealizadores deste café de inhame no Sul, produzindo em casa de maneira artesanal, em um período em que viviam com limitações econômicas e de acesso.

Voltando a minha ideia de colheita do inhame, fui para mais uma marcante experiência com uma enxada. Cavouquei na lama da beirada de uma sanga, e entre os muitos pé de inhames, logo consegui identificar que os mais frondosos possuíam conseqüentemente os maiores tubérculos, e optei por estes – maldita escolha.

Após algumas horas de diversão e calos nas mãos, arranquei uma boa quantidade de uma meia dúzia de bonitos inhames.

Todo o processo produtivo consumiu considerável tempo durante três dias, sendo que no segundo dia, cheguei à cidade com os bonitos inhames e solicitei ao meu pai qual era o próximo passo. Descobri  que teria que cortá-lo em pequenas tiras, dando-me conta de que se tivesse arrancado inhames menores seria muito mais fácil este processo, pois os grandes tubérculos tornam-se muito mais consistentes, e me deram mais um bocado de trabalho, muito desperdício e um belo corte em um dos dedos.

Feito o processo de cortar o inhame em finas fatias estilo batata chips, o passo seguinte era torrá-lo…Isso mesmo! E tinha que alternar as formas em um forno a gás, algumas formas foram bem sucedidas, outras, eram perdidas, pois me distraia na televisão e elas queimavam, tendo como único destino a lata do lixo. E claro algumas pontas de dedos queimadas ao manusear incoerentemente as formas.

Deixei para terminar o processo no terceiro dia, onde tive que pegar os pedaços torrados e ralar em um ralador manual, e tentar transformá-lo em pó com um pilão confeccionado por um vizinho mineiro.

No final de todo o processo, pude obter uma quantidade significativa que daria algo como: valorosas duas xícaras de café, como pagamento por três dias de trabalho, passagens até o interior, e gás utilizado para torrar.

Eis que após ter as mãos calejadas, cortadas, queimadas e raladas, preparo com água quente um belo caneco de café com inhame, produto natural e sem cafeína. O Resultado foi à obtenção de uma porção com a coloração próxima a de um “chafé” (um café bem fraco), variando de um marrom avermelhado para alguma tonalidade um pouco mais escura.  E de sabor…Horrível…E sem graça. O qual não consegui nem tomar todo o primeiro caneco ou aproveitar o restante que possivelmente daria mais um caneco.

Valeu pelo aprendizado, a valorização do árduo trabalho do pessoal da roça, o conhecimento do passado do meu povo e as risadas hoje ao contar a façanha. Embora continue acreditando que bem feito, com certeza resultaria em algo um pouco mais delicioso.

Se alguém resolver experimentar, boa sorte!

Postado originalmente em: http://receitasdooda.wordpress.com/2012/06/27/cafe-de-inhame/

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O Universo da Gelatina

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Por Odair Deters

20/06/2012

Nossas vidas, ás vezes ridículas, são carregadas de pequenos rituais, e novos desses, rituais, tendem a se agregar ao conjunto anterior conforme os anos de existência se acumulam. Eu pessoalmente sou cheio destes rituais e cada vez incluo novos, que coisa mais abismal. Ao ritual matinal de preparação do café, o ritual do chá após o almoço, neste item cito que já tomei tanto chá, que atualmente o único que não enjoei foi o de anis.

Vejo minhas colegas com seu ritual da gelatina, e sempre que posso lembro elas de como é o processo para extração da linda sobremesa que elas desfrutam e lá se vai um copinho de suco de gelatina.

Sempre mantive uma relação dúbia com a gelatina, na verdade eu nem deveria chamar de dúbia, tendo em vista que evito seu consumo, inicialmente por ela ser feita de restos de pele suína. No entanto em recente consulta com um médico metabolista, veio a meu conhecimento o colágeno, traz toda uma imagem de melhoria da pele, com promessas de cicatrização mais eficiente e maior elasticidade e ajudaria os tendões, tendo em vista que costumo jogar rugby e as lesões são corriqueiras neste esporte. O processo de extração do colágeno, vocês devem saber, envolve banhos violentos de couro bovino em agentes corrosivos poderosos, mas tenho gostado do tal produto.

Vejo que a gelatina é totalmente avessa à cartilha da geração saúde: os corantes e os sabores. Eles não poderiam simplificar. No caso da gelatina, bastava o fabricante colocar na caixinha, ou no envelope, uma indicação da cor do produto. Seriam evitados, assim, malabarismos conceituais como o do fabricante que inventou um sabor framboesa para botar uma gelatina azul no mercado. Ou seria amora? Diabos, que diferença isso faz? Não adianta a indústria, pode estar cega, mas nós consumidores do final da ponta mais ainda, e insistimos em comer “Sabores de Frutas”.

Ah, essas nossas técnicas populares para sobrevivência no subúrbio moderno.

Estes dias achei que minhas colegas iriam tomar um suco, destes artificiais, sabe um punhado de corante com sabor de alguma “fruta”…mas pra minha surpresa era aquilo fruto de uma interessante migração, das embalagens de gelatina de papel, com pacote interno, para o prosaico pacotinho. Alguma coisa, enfim, evolui no sentido de gastar menos material e energia do planeta. O sabor “fruta” continua.

Existe um universo gelatinoso, concorrente à gelatina, devo confessar que deste universo, nunca me agradou a maria-mole, exceto em momentos de desespero, ou quando era criança e com os poucos níqueis que tinha consegui comprar apenas isto no bolicho, ou quem sabe tenha consumido alguma por ocasião da deficiência de açúcar em locais ermos de contraponto ao consumo excessivo de cerveja. Outro habitante deste universo que praticamente consegui descartar é o da nostálgica goma americana. Refiro-me às gomas que vêm embaladas naqueles cilindros plásticos com alguns escritos externos, e não às clássicas jujubas, que por amor de deus são outra das espécies deste universo.

A goma americana tem um aspecto lúdico além dos pólos conceituais opositores e curiosos da prima gelatina: o pacote de goma americana deve ser analisado antes de ser comprado, ou arrisca-se a ter muitas gomas de uma cor que não lhe agrada, isso é horrível, daí tu fica repartindo com os colegas, pra poder gastar e conseguir comer assim, aquela verde que tinha no fundo. Novamente observa-se a importância da cor, e seu caráter absoluto na representação da guloseima: tenho minhas predileções bem claras no caso do primeiro lugar, e ela sempre será a verde; certas certezas são inequívocas. Em segundo lugar, provavelmente as roxas, mas as traio constantemente com as vermelhas. Brancas e laranjas não ficam longe das amarelas, e eu ainda gostaria de estar vivo quando inventassem gomas azuis. Nem precisam inventar a desculpa do sabor, basta à tinta azul, podiam dizer que era sabor mirtilo, eu ia adorar ainda mais.
Ts, ts, ts…

Postado originalmente em: http://receitasdooda.wordpress.com/2012/06/20/o-universo-da-gelatina/